Ocorreu um erro neste gadget

domingo, agosto 23, 2009

Marina é criacionista?


Marina Silva declara na Folha de hoje que não é criacionista, mas apenas que "acredita em Deus":

"Um jovem me perguntou o que eu achava de as escolas adventistas ensinarem o criacionismo [a atual legislação brasileira permite que escolas confessionais façam isso]. Respondi que, desde que se ensine também a teoria da evolução, não vejo problema.

A partir daí, as pessoas começaram a dizer que eu estava defendendo o criacionismo. Sou professora, nunca defendi essa tese e nem me considero criacionista. Porque o criacionismo é uma tentativa de explicação como se fosse científica para responder a questão da criação em oposição ao evolucionismo.

Apenas acredito em Deus, é uma questão de fé. Nunca tive dificuldade em respeitar e me relacionar com os ateus, com as pessoas que professam outras crenças ou outra forma de pensamento diferente da minha."

Não sou a favor de se votar em religioso apenas por que se é religioso, ou votar em ateu apenas porque se é ateu. Ao longo da história tivemos péssimos líderes políticos religiosos ou ateus, e ótimos líderes dos dois lados também. Não conheço nenhum estudo estatístico mostrando correlação entre bom desempenho político e falta de religiosidade (ou vice-versa). Mas é uma idéia que poderia ser realizada, da seguinte forma:

Pegue uma lista dos 100 ditadores mais conhecidos do século XX. Verifique sua biografia e divida em três classes: Ateu ou agnóstico (A), religioso não praticante (RN) e religioso praticante (RP). Determine os percentuais. Daí divida pela proporção da população em cada categoria, a fim de evitar a falácia da probabilidade de base (base rate fallacy).

Não que essa estatística fosse muito científica (um estudo sociológico-estatístico sério levaria anos de pesquisa). Mas de repente o Roberto Takata faz a pesquisa na Wikipédia, quem sabe?

Os blogueiros de ciência precisam se inteirar da diferença entre Criacionismo e Religião. Criacionismo é uma teoria pseudocientífica (pois equivale à teoria da Matrix de que nossa realidade é uma ilusão criada recentemente). Desígnio inteligente é um modismo político-científico, não existe de verdade fora dos EUA. Evolucionismo Teísta, a là Francis Collins, é apenas uma teoria filosófica, nenhum evolucionista teísta defende que isso seja ensinado em aulas de ciência.

E existem religiões não-teístas, que são mais parecidas com filosofias de vida. Pode-se desejar que filosofias de vida sejam compatíveis com a ciência, mas não se pode derivar - no sentido lógico - filosofias de vida a partir da ciência. Assim, toda filosofia de vida, por mais ateísta que seja, por definição não é científica.

Desconfio que a maior parte das pessoas religiosas valorizam suas religiões principalmente pelo aspecto de filosofia de vida, não pelo aspecto de cognição de verdades naturais. O teísmo filosófico, para essas pessoas, é um tópico menor em suas preocupações. Elas se agarram mesmo são aos valores e à vida comunitária das quais as religiões são apenas o arcabouço.

São esses valores e as atitudes políticas dessas comunidades que podem e devem ser criticados, duramente se necessário. Já "acreditar em Deus" ou em uma "força maior" por que isso daria sentido e beleza ao universo não é pecado maior que acreditar em supercordas porque isso daria sentido e beleza matemática ao universo. É uma crença inócua. OK, talvez não tanto, como diz Smolin em The Trouble with Physics...

E eu, que acredito, como os físicos Alan Guth, Edward Harrison e Brian Greene, que as leis da física permitem a criação de universos artificiais, como fico? Será que isso me faz ser um criacionista?

PS: É claro que não sou ingênuo a ponto de acreditar que o auê na mídia levantando a bola da Marina seja sincero. Isso só está ocorrendo por que ela é vista como uma maneira de se tirar votos de Dilma, e caso ela ficasse para o segundo turno, seria bombardeada pela mídia até a morte. Mas nunca se sabe.

O partido verde é um problema. Mas um vaga de ex-petistas desiludidos pode ingressar em suas fileiras, promovendo uma refundação do partido.

Se Marina ficar para o segundo turno, creio que Lula a apóia. Pesquisa Datafolha diz que 42% dos eleitores votariam em qualquer candidato que Lula apoiasse. Marina tem muito mais carisma do que Dilma. Além disso, o que podemos dizer da saúde de Dilma durante a campanha?Imponderáveis...

Marina pode sofrer um efeito Obama, e ser adotada pelos jovens como candidata. Vai agregar também os 12% de votos da Heloísa Helena. O Twitter, os torpedos por celular, os blogs, as redes sociais têm feito coisas incríveis para campanhas políticas nos últimos tempos... Quem sabe?

Assim, prevejo que Serra só ganha se ganhar no primeiro turno. Se ficar para o segundo, aposto um Kit Colorado de que Marina leva. Alguém topa? (Caution aos desavisados: lembrem-se que já ganhei, praticamente, a aposta sobre a gripe suína: devemos atingir 500 óbitos hoje e dobrar esse número até o final do ano é simples consequência estatística).

20 comentários:

Aluizio Amorim disse...

É lamentável que o Brasil esteja propenso ao efeito Marina Ecochata.
Trata-se de um país de botocudos. Sua análise é pertinente. Aliás, Collor estava num partido pequeno e chegou lá, não é mesmo? Deu no que deu. Marina Ecochata esteve por quase cinco anos no governo caladinha. Nunca disse nada a respeito do turbilhão de escândalos promovidos pelo seu partido, o PT, do qual é fundadora.
E tem mais o ecochatismo é o máximo do politicamente correto, onde estão abrigadas todas as correntes do esquerdismo idiota, porém oportunista.
O Brasil, assim, segue sendo o lixo ocidental habitado por uma sub-raça, os botocudos...hehehe...

none disse...

Bem, por enquanto estou fazendo um estudo estatístico dos acertos das previsões sobre partidas de futebol.

O engraçado é que minha taxa de acerto, por eqto, está acima da taxa de acerto de comentaristas esportivos e de sítios que usam funções matemáticas de probabilidade: ~50% dos resultados contra ~40-46% (não fiz ainda uma análise para ver se tem significância estatística).

Em relação a correlação entre religiosidade e desempenho político, há algumas restrições sérias - saber o grau de religiosidade dos políticos e estabelecer critérios objetivos de desempenho. Além, claro, de conseguir coligir dados em número suficiente. (Um levantamento em nível mundial inseriria complicadores pelas mudanças nas condições políticas locais.)

Sei que Gregrory Paul fez um levantamento entre o nível de religiosidade populacional e os indicadores de saúde na população.

Eu fiz uma análise correlacionando o nível de crença no criacionismo na população adulta e o desempenho dos alunos no PISA. (Bem, análise não é bem um termo adequado.)

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Bom, eu propus um estudo mais simples supondo que ser um ditador seja algo ruim (isso não é consenso universal). Mesmo que o estudo mostrasse que existe uma porcentagem desproporcional de ditadores ateus no século XX, concordo que correlação não é causação. Estudos demonstram que pessoas religiosas tem mais filhos (e portanto maior fitness biologico) e que pessoas com maior QI tem menos filhos e maior predisposição para o suicídio. Mas transformar tais evidencias em relações causais é sempre problemático.

Anônimo disse...

Aluizio Amorim é tucano.

Quando é que algúem vai perceber a diferença entre ateismo e anti-clericanismo? O problema não é Deus. O problema são as malditas igrejas.

da minha parte, mais do que nunca eu acredito que "a verdade vos libertará", de modo que me considero um crente semantico.

Renato.

none disse...

"supondo que ser um ditador seja algo ruim (isso não é consenso universal)" - até o conceito de ditadura não é universal.

Noves fora a ditabranda folisanpaulina, tem gente que classifica o regime cubano de ditadura, tem gente que não. Tem gente que diz que Chavez é ditador, tem gente que diz que não. Tem gente que acha que houve golpe em Honduras, tem gente que acha que não.

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Takata, a opção é usar listas já feitas, com a observação de sua origem. Por exemplo, uma lista extensa é dada por:
http://www.conservapedia.com/List_of_dictators

Mas talvez voce possa começar por essa lista:

http://www.parade.com/articles/editions/2006/edition_01-22-2006/Dictators

Acho que esta pesquisinha pode ser importante. Mostra que a tese "A religião é a origem de todos os males" é testável e quantificável. Será que a tese resite à uma análise estatística?

Dedalus disse...

Caros,

Parte do problema é Deus, de verdade. As pessoas que acreditam em Deus, muitas vezes, acham que não precisam fazer mais nada, por simplesmente acreditarem em Deus, que vai salvá-las. "Eu conheço a verdade, para quê vou perder tempo estudando? No fim, Deus resgatará os justos." Já vi essa retórica mais de uma vez, em comunidades cristãs, e fica implícito que a pessoa que diz isso se considera um crente justo que será salvo. Crer em Deus (ou na Grande Abóbora) é reconfortante, mas pode abrir a porteira para um perigoso vício no tambémm reconfortante pensamento mágico...

Um abraço!

Dedalus disse...

Quanto ao sujeito que fez o primeiro comentário, sobre a "Marina Ecochata", eu só de ver a foto dele, parecendo um pastor de igreja de periferia ou advogado, não diria outra coisa: ou o cara é tucano ou da extremíssima direita (ou ambas as coisas).

Osame Kinouchi disse...

Na verdade, um monte de petistas stalinistas tem chamado a Marina de Ecochata na página do Paulo Henrique Amorin. Acho que os tucanos apenas estão copiando isso.

Osame Kinouchi disse...

Dedalus, acho que o "pensamento mágico" é anterior à crença em Deus, e mais difundido. Historicamente, os judeus são acusados de reprimir o pensamento mágico por causa da condenação na Torá do uso de amuletos, ídolos, advinhações etc.

Dedalus disse...

Caro Osame,

É possível que a crença na Grande Abóbora seja mais antiga que a num Deus monoteísta; ambas, porém, são baseadas na existência de entidades sobrenaturais de grande poder, ou seja, num pensamento mágico (ou estou enganado?).

Quanto aos petistas stalinistas e os tucanos, eles se equivalem...

Um abraço!

Anônimo disse...

Dedalus... Dedalus...

Olha a blasfêmia. Comparar Deus com a Grande Abóbora? Que isso? Um dos atributos de Deus é o Número (ser inteligivel matematicamente). E a Grande Abóbora? Quais são seus atributos.

Além do mais, no que tange questões humanas, Deus é o fundamento moral que faz com que o estuprador seja diferente de quem é caridoso. E as pessoas que dizem "eu estou salvo pq creio" são uns fariseus que vão experimentar a danação eterna.

Renato.

none disse...

"'A religião é a origem de todos os males' é testável e quantificável." - é testável, mas não precisa dessa análise.

Basta observar que há males, como o tsunami de 2004, que não foi provocado por nenhuma religião.

De todo modo, um melhor teste a ser feito é avaliar a correlação entre o grau de honestidade e de adesão religiosa. Isso é mais facilmente testável em laboratório. Tenho até um protocolo muito simples. (Se conseguir apoio de alguém do departamento de psicologia, dá até para descolar um paper muito interessante.)

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Em principio eu apostaria que existe (uma pequena?) correlação entre nível de religiosidade (ou melhor, ligação com religioes com código de ética em vez de apenas religioes mágicas) e honestidade. Excluindo é claro os adeptos da teologia da prosperidade e outros neocalvinistas. Afinal, se o cara prega a honestidade da boca pra fora, se ele for desonesto então é um hipócrita, e isso afeta a autoestima do sujeito. Isso não quer dizer que a honestidade é privilégio de religiosos (é claro que não!). Mas talvez não houvesse correlação estatística entre ateísmo e honestidade (financeira). Tanto Dawkins quanto Bernard Madoff podem ser ateus sem que isso determine necessariamente seu comportamento em termos de honestidade financeira.

Dedalus disse...

Vamos lá: eu vivi - e ainda vivo - num meio cheio de cristãos evangélicos. Comprei minha casa de um deles e, ao me mudar, descobri que a casa tinha vários gatos de TV a cabo (que eu retirei). Recebo ainda hoje, quase dois anos depois, dezenas de multas endereçadas não ao antigo proprietário, mas a uma empresa que ele criou e no nome da qual ele colocou seus carros. Na comunidade evangélica, esse sujeito é visto como um próspero empreendedor. É só um exemplo, mas eu poderia dar outros (muitos outros: fui secretário de uma igreja evangélica). Adesão a uma religião significa adesão a uma religião - e isso não tem quase nada a ver com ética e honestidade.

Um abraço!

none disse...

http://www.revistaenfoque.com.br/index.php?edicao=74&materia=837
-----------

Há uma certa ironia que o sítio web "Vermelho.org" reproduza essa notícia. Certamente por falar bem do ateísmo. Mas o quadro dos países socialistas/comunistas não é bom na reportagem.

O sítio Vermelho reproduz com o título: "Países ateus são mais justos, confirmam pesquisas" - tirando o fato de que países não são ateus - embora seus cidadãos possam sê-lo (salvo no caso de países que adotem o ateísmo como "religião" oficial), as pesquisas que mencionam não falam em justiça social, mas em indicadores socioeconômicos (há uma diferença importante entre os dois conceitos).

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Dedalus,

Acho que fui bem cuidadoso em minhas colocações. Eu exclui o pessoal da teologia da prosperidade e os calvinistas (talvez devesse adicionar os judeus neoliberais).

O que eu disse não é que os religiosos são mais honestos, mas sim que são hipócritas se forem desonestos e precisariam de racionalizações para manter sua autoestima intacta.

Por outro lado, não existe incompatibilidade entre ateísmo filosófico e desonestidade porque o ateísmo não é uma filosofia de vida que prega determinada moralidade convencional, mas está mais ligada a uma ética cognitiva.

Um ladrão pode afirmar "sou ateu" sem que isso implique em dissonancia cognitiva ou hipocrisia, mas um ladrão proclamar que é honesto ou que segue uma religião com código ético implica em hipocrisia. Não estou vendo onde estou errando em termos lógicos.

Além disso, eu apenas defendi a possível existencia de uma fraca correlação estatística entre honestidade e religiosidade, por causa de uma pressao social maior. Nada muito definido, especialmente levando-se em conta a dominancia do evangelismo neoliberal mágico da IURD e similares.

Osame Kinouchi disse...

Takata, pelo que entendi da reportagem, a religiosidade seria consequencia do baixo nível economico e do sofrimento e não o baixo nível economico e sofrimento seria consequencia da religiosidade. Acho que esta é a tese de Marx.

A religiosidade pode também servir de alavanca para o progresso economico, segundo a tese de Max Weber "protestantismo e o espírito do capitalismo". Logo, me parece que correlação não é causação, ou que a causação está invertida. Pelo que entendi, a reportagem também afirma que é o bem estar que leva ao ateísmo e não o ateísmo que leva ao bem estar economico, o que parece uma tese razoável (é a chamada tese da secularização). Com a excessão, é claro, do movimento de Nova Era, que aparece como recusa e revolta contra o ateísmo dentro das classes médias e altas.

Dedalus disse...

Caro Osame,

Quando eu citei o meu exemplo pessoal eu não falei de nenhuma das suas exceções ("o pessoal da teologia da prosperidade e os calvinistas" e "os judeus neoliberais"). Quanto a racionalizações ("e precisariam de racionalizações para manter sua autoestima intacta"), é isso que a maioria dos crentes faz o tempo todo: racionalizar para ajustar o que vê no dia-a-dia a suas crenças... Os crentes (numa religião ou numa ideologia) nunca vêem isso como hipocrisia, mas como uma interpretação pessoal válida.

Um abraço!

extremophile disse...

Na entrevista na Veja desta semana:

"A senhora é mesmo partidária do criacionismo, a visão religiosa segundo a qual Deus criou o mundo tal qual ele é hoje, em oposição ao evolucionismo?

Eu creio que Deus criou todas as coisas como elas são, mas isso não significa que descreia da ciência. Não é necessário contrapor a ciência à religião. Há médicos, pesquisadores e cientistas que, apesar de todo o conhecimento científico, creem em Deus".