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segunda-feira, maio 04, 2009

Porcos, Cisnes e pseudociência


Este post pertence à Roda de Ciência, tema de abril. Deixe seus comentários lá, por favor.

TEORIA DO CISNE NEGRO

Antes de a Austrália ser descoberta, todos os cisnes do mundo eram brancos. A Austrália, onde existe o cisne negro (´cygnues atratus´), mostrou a possibilidade de uma exceção escondida de nós, da qual não tínhamos a menor idéia.

2. O meu cisne negro não é um pássaro, mas um evento com três características: 1ª) altamente inesperado; 2ª) tem grande impacto; e 3ª) depois de acontecer, procuramos dar uma explicação para fazê-lo parecer o menos aleatório e o mais previsível.

3. O cisne negro explica quase tudo no mundo, como a Primeira Grande Guerra. Era imprevisível, mas, depois de sua ocorrência, as suas causas pareceram óbvias para as pessoas. O mesmo aconteceu com a Segunda Grande Guerra. Esses fatos provam a incapacidade de a humanidade prever grandes eventos.

4. Mais recentemente, a internet é um cisne negro. Surgida como ferramenta de comunicação militar, ela transformou o mundo de maneira muito rápida. Ninguém imaginava essa possibilidade.

5. As descobertas causadoras de forte impacto na humanidade foram acidentes de percurso, ou seja, os cientistas estavam procurando uma outra coisa, como no caso do ´laser´, criado para ser um tipo de radar e não para ser usado em cirurgia nos olhos.

6. Ninguém poderá saber quando um cisne negro irá surgir, mas o fundamental é a pessoa não levar tão a sério o seu planejamento de vida. As coisas podem mudar quando a pessoa menos espera. O ´stress test´, um dos modelos de gerenciamento de risco, avalia o impacto já ocorrido e não o impacto a ocorrer. As variáveis utilizadas são tiradas do passado.

7. O grau de aleatoriedade depende do observador. A aleatoriedade é a compreensão ou a informação incompleta. Eventos como o 11 de Setembro de 2001, em Nova Iorque, não são aleatórios. Na verdade, terroristas planejaram e tinham conhecimento do 11 de Setembro.

8. A previsão de eventos sócio-econômicos é muito difícil. O histórico das previsões é lixo. O ´risk management´ (gestão de risco) é lixo. A tentativa de determinar causa e efeito dos fatos é continuamente obstruída por fenômenos imprevisíveis. As pessoas do mundo das finanças têm a ilusão de poder prever os fatos, porém elas não conseguem justificar suas previsões.

9. A indicação de ações para compra é postura de charlatões. Não são charlatões aqueles a recomendar o que não fazer no mercado, ao invés de dizer o que fazer. As pessoas podem fazer muitas coisas se souberem o que não fazer. Se as pessoas evitarem as técnicas mirabolantes, não vão depender das previsões do mercado.

10. As pessoas não devem depender dos ´measures of risk´, indicadores destinados a medir o risco. O importante é garantir ´portfólio´ estruturado de maneira a não ter ´downside risk´ (potencial de perdas) ou ´upside exposure´ (potencial de ganho), porquanto assim as pessoas poderão ganhar muito dinheiro se encontrarem um cisne negro.

11. As pessoas não devem sair à caça do cisne negro, mas, uma vez apareça, devem estar com sua exposição maximizada para ele. As pessoas devem acreditar na possibilidade de o mais inusitado acontecer. Tanto do lado positivo quanto do lado negativo.

12. O cisne negro é o risco dos grandes eventos, positivos ou negativos. Algumas coisas podem ser voláteis, mas não são um cisne negro necessariamente.

Entrevista com Nassim Nicholas Taleb, americano, autor de ´O cisne negro: o impacto do altamente improvável´ (´Black swan: the impact of the highly improbable´), há cinco semanas na lista dos livros mais vendidos do jornal ´The New York Times´ (Valor, São Paulo, 04 jun. 2007, p. F14).

Uma das coisas boas que os físicos estatísticos fizeram, em termos culturais, foi chamar a atenção das pessoas para os eventos extremais, ou seja, os eventos de uma cauda de distribuição estatística. Se a cauda cai exponencialmente (como é o caso da distribuição normal), então os eventos extremais são muito raros e podemos desprezá-los em uma análise de risco. Mas se a cauda cai na forma de uma lei de potência então os eventos extremais não podem ser desprezados, tem que ser levados em conta.

É claro que os estatístico matemáticos sabiam disso, mas quem popularizou a idéia (entre os cientistas) foram os físicos porque eles sabem vender o peixe, digamos assim. Mas a divulgação científica para a população em geral não foi tão bem sucedida. OK, apareceram ótimos livros em inglês, como o Ubiquity do Mark Buchanan e o Critical Mass do Philip Ball, mas estes livros não foram traduzidos para o português (eu realmente não entendo por que).

Quando você entra numa livraria, depois dos livros de auto-ajuda e new age, uma das áreas mais populares são os livros pop de administração e marketing. Alguém já analisou essa literatura em termos de contribuição para a divulgação científica? OK, eu sei que o leitor de O Gerente Quântico não vai ter uma idéia adequada de Física Quântica, mas ele será menos ignorante sobre quântica do que um gerente tipo Homer Simpson que não leu o livro. Ou não?

Se você ponderar bem, mesmo os livros de pseudociência ajudam a divulgar a ciência. Conversando com meus colegas físicos, eu vejo que toda uma geração foi despertada (eu inclusive) para a vocação científica lendo revista Planeta na década de 70 (na época em que era editada por Ignácio de Loyola Brandão, claro!)  e os livros O Despertar dos Mágicos e Eram os Deuses Astronautas?
 
Como disse Reinaldo Lopes em seu nobo blog Chapéu, Chicote e Carbono 14, se você pensar bem os filmes de Indiana Jones são todos pseudocientíficos (arca perdida,  santo graal, ETs e crânios de cristal etc.) e sua apresentação da pesquisa arqueológica é totalmente distorcida, mas muitos e muitos meninos e meninas se tornaram (ou sonharam ser) arqueólogos devido a esses filmes. Será que alguém já percebeu que o despertar de vocações científica é não-linear, que muitas vezes um museu de ciência inteiro não adianta mas um simples conto de Isaac Asimov pode ser decisivo?

2 comentários:

Gilberto Miranda Jr. disse...

Poxa, não gostei de ter que admitir, confesso, mas é verdade, Osame. Eu lia Planeta, tanto do Loyola quanto quanto virou revista, sempre me interessei por UFOS, li Eric Von Daniken e também Zacharia Sitchin (Guerra entre Deuses e Homens), adoro mitologia comparada e participei algum tempo de escolas esotéricas como Rosa Cruz, Gnose e etc... Puxa.... Percebo que durante muito tempo tudo isso se constituiu na minha porta de entrada para a ciência e me levou à Filosofia.

Foi justamente ter lido e passado por tudo isso que me fez cético sem contudo me tornar um cientificista.

Acho que todos nós, não-ateus, ateus, céticos, agnósticos, místicos, cientistas e filósofos estamos em busca de nosso Santo Graal, ou de nosso Cisne Negro, não é ? rs

Jorge Ramiro disse...

Eu tenho uma fazenda há cisnes e cisnes de mais cores, não apenas preto e branco. Também tenho vários cães que jogam com cisnes e os cães têm de usar Matacura para não ter nada.