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quinta-feira, maio 07, 2009

Complexo de Cassandra II



Em 04 de janeiro de 1999 eu escrevi o texto abaixo no livro "O Beijo de Juliana", disponível aqui.

Bom, faz tempo que eu chamo atenção para esse tema de que a cultura mundial pode evoluir para um estado bastante refratário à perspectiva científica. Ou melhor, um mundo onde a ciência será usada apenas como suporte da tecnologia, mas não como fonte de uma visão de mundo (isto é proposto no Contracultura de Theodore Roszack). De certa forma, esse mundo já existe (especialmente na França, dizem...). O elemento novo talvez seja o de que a Universidade (que considero mais um gueto do que um bastião do racionalismo) talvez venha a se tornar um dia no bastião do Irracionalismo (pós-moderno)... Atualmente, só o Papa, com sua última encíclica, ainda acredita nos poderes da Razão...

Acho que está se formando um consenso entre diversos analistas de que o século XXI será marcado não apenas por guerras religiosas e culturais, mas principalmente pela guerra de todas as religiões contra a Ciência... Encaro tudo isso numa perspectiva bastante impessoal, de competição e acomodação de memes, todos lutando por espaço num mundo com um número finito de cérebros. A Ciência é muito incômoda, fica querendo usar inseticida nos memes dos outros. Mas agora vai ter que passar para a defensiva, pelo menos em termos políticos. Eu preferia a acomodação e cooperação, mas acho que vai ser guerra mesmo. Essa lógica Darwiniana cultural escapa aos nossos desejos, pelo menos por enquanto...

Mas agora ando mais tranqüilo com relação a isso. Primeiro, porque não vejo muito que se possa fazer, ou o que fazer sem que se cometa injustiças (como as de Bunge em relação a Bayes). Segundo, remar contra a maré é uma maneira besta de se desperdiçar a vida. É preciso usar estratégias mais inteligentes, estratégias que ainda não sei quais são. Além disso, desconfio que estamos numa situação em que todos os lados têm um pouco de razão.

Em todo caso, é curioso observar a passagem do tempo, as noticias dos jornais, e pensar se esses pequenos fatos que estamos observando têm um significado mais permanente, sinais de grandes tendências culturais, ou se são apenas uma simples flutuação de espuma que desaparecerá em breve no rio da história. Por exemplo, ontem deu no Fantástico uma reportagem sobre a grande campanha que alguns evangélicos estão promovendo pelo direito dos pais de retirar seus filhos das escolas públicas, transferindo-os para escolas confessionais ou para o aprendizado em casa. O argumento desses pregadores para os pais cristãos é de que eles não têm o direito de arriscar a alma de seus filhos colocando-os em contato com o ambiente secularista das escolas. E isso acontece mesmo com todo o “esforço” que as escolas públicas americanas tem feito em “adequar” seu ensino às “necessidades da comunidade”, reintroduzindo o ensino de religião, procurando não ofender as diversas opiniões religiosas e culturais envolvidas etc. etc...

De algum modo isso se parece com a quebra de algum principio bastante fundamental (originário do Iluminismo) sobre educação laica para todas as crianças. Como o Iluminismo é o grande vilão da história atualmente, a contestação desse principio é vista como um grande ato libertário...

Bom, mas talvez isso seja apenas uma espuma que se dissipe daqui a alguns anos. Ou então uma das pequenas nuvens negras (existem outras) que anunciam a tempestade. Quem pode dizer? Se tentarmos, talvez não façamos um trabalho muito melhor que os astrólogos durante a passagem do ano...

Passados 10 anos, a espuma não se dissipou, mas se tornou parte das culture wars americanas, que tanto alimentam os blogs, inclusive os de ciência. Na época, minha preocupação com essas coisas era vista com ceticismo por meus colegas pois afinal, segundo eles, "a pseudociência é algo marginal e sem importância e basta darmos uma educação melhor para o povo que o resto se resolve..." 

Esqueceram de falar isso para o pessoal que assiste Quem Somos Nós 2?

Foto: Minha filha Juliana, que me deu o beijo do título do livro.

Um comentário:

Karl disse...

Ahnnn! Tô entendendo, Osame. Duas coisas:

1)Vou comentar, talvez postar sobre isso. É muito relevante!

2)Putz, sua filha é uma gata!!!
;)