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sábado, julho 10, 2010

Sidarta Ribeiro fala sobre sonhos


Sidarta ribeiro fez um comentário longo e interessante lá no post sobre Sonhos, Paradoxo de Fermi e Gripe Suína. Acho que isso vale um post-colaboração em destaque:

Sidarta Ribeiro disse...

Osame,

Muito legal o post, um belo exemplo de insight onírico na ciência. Acredito que os sonhos não são peças isoladas de um quebra-cabeças, nem cadeias lineares de memórias, mas sim uma concatenação de representações de acordo com as emoções dominantes do sonhador. Idéias novas vêm necessariamente da recombinação de idéias velhas. Os sonhos são oráculos cegos que criam cenários futuros com base apenas na experiência do passado, orientando as ações da vigília de modo a maximizar a adaptação ao ambiente. Este aspecto onírico de predição do futuro, ou mais exatamente de especulação sobre o futuro, é provavelmente a explicação para a crença generalizada na premonição onírica em diversas sociedades do passado. Apesar de probabilísticos, os sonhos por vezes predizem muito precisamente os acontecimentos futuros. Este é um fenômeno raro na sociedade moderna, mas adivinhos de sonhos desempenharam um papel histórico importante nas civilizações da Antiguidade. Hoje em dia, a interpretação dos sonhos continua a ser bastante relevante em muitas das chamadas culturas "primitivas".

De que forma é possível conciliar a explicação materialista dos sonhos com a função premonitória a eles atribuída por tantas tradições diferentes? O ponto de encontro é a reativação e recombinação de memórias durante o sono, que alimentam o enredo onírico. Para vivenciá-lo subjetivamente, não basta reverberar padrões de atividade neural. É preciso concatená-los numa busca da satisfação do desejo mediada por dopamina, de forma a simular uma sequência comportamental plausível, capaz de inserir-se num futuro em potencial que inclua o ambiente e o próprio sonhador. Governado por emoções e motivações, o sonho permite a simulação de futuros possíveis, tão mais claros e prováveis quanto mais marcantes e previsíveis forem os desafios da vigília. Nessa concepção, a função primitiva dos sonhos é a simulação de estratégias comportamentais, adaptativas ou não. Recompensando os circuitos neurais dos sonhos bons e punindo os circuitos subjacentes aos pesadelos, é possível aprender durante a noite sem os riscos da realidade.

As fortes pressões seletivas sobre comportamentos cruciais devem moldar de forma darwinista o enredo do sonho, estereotipando a reverberação mnemônica em relação direta com a sobrevivência. Presume-se que os enredos oníricos de animais livres na natureza consistam de poucas narrativas repetidas à exaustão mas com inúmeras variações sobre os mesmos temas: predar e ser predado, fazer a corte e procriar, navegação para forrageio e cuidado parental. Mesmo para nossos ancestrais hominídeos de 500 mil anos atrás, já equipados com armas e fogo, a vida era perigosa e podia acabar mal a qualquer momento. Foi apenas com o advento da pecuária, da agricultura e da medicina xamânica que começamos a nos libertar dos estreitos limites da necessidade.


À medida que a vida humana tornou-se mais fácil e mais complexa, com o desenvolvimento da cultura e seus confortos, os sonhos perderam muito de seu poder de previsão, adquirindo um repertório simbólico muito diversificado. Em comparação com outros mamíferos, seres humanos contemporâneos experimentam muito menos ansiedades em seu cotidiano. Predadores não-humanos são raros, a lei inibe a predação entre pessoas, alimentos e cuidados de saúde são acessíveis, e habitamos abrigos permanentes. Nossos sonhos não estão mais sob a influência de eventos de vida ou morte. Ao contrário, são dominados por uma miríade de pequenas frustrações e expectativas prosaicas. Depois da cultura e do símbolo, o sonho virou qualquer nota...

Na ausência de vivências cotidianas altamente significativas, não é de surpreender que os sonhos contemporâneos tendam a misturar elementos recentes e triviais da vida desperta com memórias antigas fortemente codificadas, chegando até a infância. Ainda assim, é possível em circunstâncias especiais revelar o caráter adaptativo dos sonhos. Cientistas e artistas sempre se beneficiaram disso. Será que agora você vai começar a escrever um sonhário?

Grande abraço,

Sidarta

Sidarta, gostei da proposta mas falta ainda concatenar isso com a abundância de sono REM em fetos e bebês. Como explicar isso? 
PS: Por falar nisso, bons sonhos para o Ernesto...

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