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domingo, julho 26, 2009

Não existe mão invisivel na economia

Isabelle Moreira LimaDo G1, em São Paulo

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O economista Robert H. Frank, da Cornell University (Foto: Divulgação)

No ano em que se comemoram os 200 anos de nascimento do cientista britânico Charles Darwin e os 150 anos de sua obra-prima, "A origem das espécies", o economista norte-americano Robert H. Frank defende que as idéias do naturalista se aplicam mais apropriadamente à economia do que as teorias de Adam Smith, "pai" da teoria econômica clássica.


Economista, autor de livros e professor da Cornell University (EUA), Frank contesta o conceito da "mão invisível" de Smith e diz que o que beneficia um indivíduo não necessariamente beneficia toda a sociedade.

 

Crítico da intervenção estatal na economia, Smith defendia que, em um ambiente de livre concorrência, o bem-estar coletivo é decorrência da harmonização dos interesses dos indivíduos por meio da "mão invisível" do mercado.


Para Robert H. Franck, a teoria da seleção natural de Darwin, além de ajudar a explicar a crise financeira enfrentada desde o ano passado, pode apontar saídas para os governos das economias prejudicadas.

 

“A competição favorece qualidades e comportamentos de acordo com a maneira que eles afetam o sucesso de indivíduos, não de espécies ou de grupos”, escreveu o economista em artigo publicado no jornal “The New York Times”.

 

Leia trechos da entrevista ao G1:


G1 - O sr. defende que a teoria da seleção natural, de Darwin, pode ser aplicada à economia. Como isso pode acontecer exatamente? 
Robert H. Frank -
 Coisas que beneficiam uma pessoa não necessariamente beneficiam a coletividade. A idéia da "mão invisível", de Adam Smith, sugere que o que é positivo para o indivíduo também é para a sociedade. Mas Smith não disse exatamente isso. Seus discípulos modernos é que afirmam que ele pregava a coincidência entre interesses individuais e coletivos. Darwin, com os princípios da competição e da seleção natural, mostrou que esses interesses nem sempre são os mesmos – às vezes sim, outras não.


G1 - Como isso funciona na prática? 
Frank -
 Um exemplo é o dos produtores industriais que querem baratear seus preços. Um jeito é tirar o filtro da chaminé das fábricas - é mais barato produzir sem filtro do que comprar um. Os concorrentes copiam a idéia porque também precisam de preços mais baixos. Todos conseguem preços menores, mas o ar fica muito poluído. É uma situação pior do que se todos tivessem filtros em suas chaminés e os preços fossem apenas um pouco maiores.


Mas há exemplos ainda mais cotidianos. Você quer que seus filhos tenham uma educação acima da média. Então, todos trabalham mais para pagar por escolas melhores para os filhos. Mas quando todos gastam 20% a mais para pagar pela escola, todos ficam na mesma situação. Então, as pessoas trabalham mais horas ou pegam turnos extras ou novos empregos. Nesse caso, a mão invisível não leva ao melhor resultado, mas à pior consequência.


G1 - O sr. acha que esse é um fenômeno contemporâneo ou poderia ser relacionado à economia de cem anos atrás? 
Frank -
 Nada sobre a economia mudou [de cem anos para cá], mas a competição aumentou muito. Então, se você acredita na versão inocente da mão invisível, o resultado deveria ser cada vez melhor. Mas quando o ambiente fica mais competitivo na versão darwiniana, o resultado pode ser cada vez pior. Por exemplo: quanto maior é a competição entre os alces machos na busca por parceiras, mais os chifres deles crescem. Isso é ruim para eles, como um grupo, porque eles ficam mais fáceis de serem capturados. Já a boa visão de uma águia é um bom exemplo do que o que é bom para o indivíduo também é bom para o grupo. Pode acontecer dos dois jeitos.


G1 - O sr. diria que as idéias de Darwin, aplicadas à economia, podem explicar a crise financeira internacional que começou no ano passado? 
Frank -
 Eu diria que sim. Os investimentos mais arriscados ficaram cada vez mais populares porque as pessoas queriam ganhar mais, e as pessoas estavam dispostas a investir neles porque seus vizinhos investiam e eles queriam tanto dinheiro quanto os vizinhos. Todos investiram no risco, e todos perderam.


G1 - E como a teoria pode ajudar a encontrar uma saída para a crise? 
Frank -
 O que a teoria pode ajudar a entender é o porquê da necessidade de regular o mercado. Pela mão invisível, não há essa necessidade. Mas se você observa a teoria da seleção natural de Darwin você consegue compreender a importância da regulação. Os governos não deveriam supor que tudo vai dar certo automaticamente.

5 comentários:

none disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
none disse...

Bobagem essa comparação com a teoria de Darwin. A teoria de Darwin se aplica para *populações* que se *reproduzem*. Empresas não se reproduzem - suas filiais *não* competem entre si (bem, há uma competição fraca).

Que o mercado não se autorregula é uma evidência que se obtém da própria observação - não é preciso uma "teoria" para "provar" que não se autorregula.

O porquê de não se autorregular é explicado pela teoria dos jogos - com jogadores finitos e dado a irracionalidades, informações imperfeitas.

Por outro lado, a regulação externa do mercado pressupõe que o agente regulador seja ele mesmo mais racional do que o próprio mercado - o que é uma premissa falsa. Também não leva em conta a pergunta: who watches the watchmen? O regulador externo ganha superpoderes, criando ele mesmo uma assimetria do poder - e sabemos o que informações privilegiadas e suporpoderes criam quando não devidamente vigiados...

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Roberto, sem querer usar argumento de autoridade (embora eu ache que reconhecer a autoridade de especialistas faz parte do jogo científico), eu acho que esse cara entende um pouco de economia e teoria de jogos...

http://www.robert-h frank.com/papers.html

"Por outro lado, a regulação externa do mercado pressupõe que o agente regulador seja ele mesmo mais racional do que o próprio mercado - o que é uma premissa falsa."

Se isto é uma premissa falsa, então imagino que sua negação seja uma premissa verdadeira: "o agente regulador é menos racional que o mercado".

Não acredito que isso tenha sido demonstrado, ou que tenha sido demonstrado que "o agente regulador seja mais racional que o mercado" seja uma premissa falsa. Talvez devessemos ser agnosticos quanto a isso...

Se o agente regulador é uma agencia do governo, então o congresso, a midia jornalistica e o poder judiciario seriam os watchmen que vigiam os watchmen e se vigiam uns aos outros: acho que isso é o que se chama democracia.

E me parece que existe um consenso mesmo entre os neoliberais mais empedernidos de que a crise mundial foi facilitada por uma falta de regulação (de certos tipos de transações financeiras). Ou não foi?

Osame Kinouchi disse...

Darwin teve muitas "idéias". Não acho que o que este economista esteja usando seja a ideia de seleção natural em populações que se reproduzem, mas sim outra idéia de Darwin: a de que não existiria (pelo menos como regra geral) a "seleção de grupo":

“A competição favorece qualidades e comportamentos de acordo com a maneira que eles afetam o sucesso de indivíduos, não de espécies ou de grupos”, escreveu o economista em artigo publicado no jornal “The New York Times”.

none disse...

Salve, Kinouchi,

"cara entende um pouco de economia e teoria de jogos..." - mas não parece entender muito de Darwin.

Sim, ele está falando de seleção: individual, não de grupos. Mas, novamente, isso só faz sentido se falarmos em uma população e que se reproduz.

Eu não defendo que o agente regulador seja menos racional, mas sim que não seja mais racional. Podemos ver isso em economias planificadas e nas agências reguladoras brasileiras. *Por acaso*, em um caso *específico* talvez encontremos algum gênio da raça, mas fora disso, um regulador externo não é tão externo: ele é um ser humano, com todas as falhas humanas presentes nos agentes igualmente humanos do mercado.

Não se conclui disso que eu defenda que o mercado não tenha regulação alguma. Apenas que a regulação externa ou interna não é a salvação da lavoura. Vai depender de modo muito crítico do modo como a regulação é feita. E sempre os agentes do mercado encontrarão um modo de burlar o sistema.

[]s,

Roberto Takata