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sexta-feira, março 20, 2009

Comemorando os 177 da publicação da Seleção Natural de Darwin?



Advinhe quem escreveu isso?

There is a law universal in nature, tending to render every reproductive being the best possible suited to its condition that its kind, or organized matter, is susceptible of, which appears intended to model the physical and mental or instinctive powers to their highest perfection and to continue them so. This law sustains the lion in his strength, the hare in her swiftness, and the fox in his wiles. As nature, in all her modifications of life, has a power of increase far beyond what is needed to supply the place of what falls by Time's decay, those individuals who possess not the requisite strength, swiftness, hardihood, or cunning, fall prematurely without reproducing—either a prey to their natural devourers, or sinking under disease, generally induced by want of nourishment, their place being occupied by the more perfect of their own kind, who are pressing on the means of subsistence . . .

There is more beauty and unity of design in this continual balancing of life to circumstance, and greater conformity to those dispositions of nature which are manifest to us, than in total destruction and new creation . . . [The] progeny of the same parents, under great differences of circumstance, might, in several generations, even become distinct species, incapable of co-reproduction.


Se você falou Darwin, errou. Foi publicado em um livro (que recebeu resenhas importantes na época) por Patrick Matthew em 1831, ou seja, 27 anos antes de Darwin e Wallace.

Dizem que um precursor em ciência é o cara que publicou mas não "descobriu" uma idéia (no mesmo sentido que Cabral descobriu o Brasil depois de vários precursores). Sociólogos da ciência dizem que esse efeito Mateus (Ao que tem, lhe será acrescentado, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado) é muito forte na comunidade científica que, como todos sabemos, tem a mania de criar mitos sobre gênios científicos e esquece que a ciência é um trabalho coletivo. Por exemplo, será que Darwin teria tido a idéia da Seleção Natural se não tivesse lido Malthus?

Vou levantar uma hipótese sobre um dos fatores mais importantes para a minimização da contribuição científica de certos precursores: a religião do fulano. Ou seja, como cientistas temos que adotar o materialismo metodológico: não podemos ficar dizendo que nosso experimento deu tal resultado porque Deus (ou minha "Consciência Quântica") atuou naquele momento, ou que uma nova espécie  de Drosophila surgiu porque Deus (ou minha "Consciência Quântica")  assim quis. O cientista pode ter crenças religiosas privadas, mas isso não pode afetar (diretamente) sua pesquisa científica. Essas são as regras do jogo e apenas os caras do Inteligent Design e da New Age não aceitam isso.

Matthews tinha uma visão de Teologia Natural, ou seja, ele via a Seleção Natural como o algorítmo genético usado por Deus (afinal algoritmos genéticos são bem mais eficientes do que design puro). Wallace se tornou espiritualista (espiritismo inglês). Será que isso não afetou o julgamento histórico de Darwinistas ateus como Thomas Huxley? Como foi que surgiu a afirmação falsa, disseminada até hoje, de que o trecho acima passou despercebido dos evolucionistas porque estava no apêndice no livro de Mattews?



Darwin then wrote a letter of his own to the Gardener's Chronicle, stating: 
I freely acknowledge that Mr. Matthew has anticipated by many years the explanation which I have offered of the origin of species, under the name of natural selection. I think that no one will feel surprised that neither I, nor apparently any other naturalist, has heard of Mr. Matthew's views, considering how briefly they are given, and that they appeared in the Appendix to a work on Naval Timber and Arboriculture. I can do no more than offer my apologies to Mr. Matthew for my entire ignorance of his publication.

Darwin here, as well as later commentators, erred by attributing Matthew's discussions solely to the Appendix, as the main text of the work also presents in sufficiently recognizable detail "this natural process of selection among plants" (see pages 307 to 308).

Ou seja, o descobridor reconhecido de uma idéia não é quem teve a idéia (e publicou!) primeiro, mas quem adquiriu reputação científica suficiente, trabalhou de forma obsessiva-compulsiva para documentar e desenvolver a idéia e tinha uma rede social de amigos (discípulos, cientistas, jornalistas, políticos etc)  ampla, ou seja, um hub na rede científica. Darwin era esse hub, e é por isso que devemos reconhece-lo não como um precursor, mas como o descobridor da idéia de Seleção Natural como mecanismo evolutivo.

Um comentário:

Charles Morphy disse...

A história do pensamento evolutivo mostra que muitos outros autores quase "chegaram lá" quando o assunto é seleção natural: antes de Matthews, Buffon já havia aventado essa possibilidade. William Charles Wells já havia falado de seleção natural na espécie humana, no começo do século XIX (e, inclusive, Darwin o cita nominalmente no Origem das espécies). Não só Wallace, mas também Henry Bates, trabalhando na Amazônia, chegaram à mesma conclusão de Darwin a respeito do processo evolutivo.
Agora, não sei se concordo totalmente com alguns dos pontos que você levanta como necessários para reconhecer quando alguém é o "descobridor" de uma idéia. Wallace e Bates trabalharam de forma obsessiva-compulsiva, talvez até mais do que Darwin (lembre-se que Darwin fez apenas UMA viagem na sua vida, no Beagle). Tanto Wallace quanto Bates trabalhavam infinitas horas no calor amazônico (há relatos de coletas por 18 horas seguidas!). Wallace passou outro período longo no arquipélago Malaio, sempre compilando suas toneladas de informações em trabalhos de grande monta. Ele talvez não tivesse a reputação científica suficiente, é verdade. No entanto, isso nada teria a ver com seu trabalho e sim com a genealogia: Darwin era de família abastada, Wallace não era. O primeiro trabalhava em sua casa de campo; o segundo ganhava a vida no campo de fato.
O pendor espiritualista de Wallace (ele aceitava que todos os organismos passavam pelo processo da seleção natural, menos o homem, "ungido" pelo divino com sua capacidade cognitiva extraordinária) pode ser colocado como algo que o deixou um pouco longe das primeiras sínteses históricas do evolucionismo. Mas o homem trabalhou, e muito!
Quando falamos em ciência biológica do século XIX, é óbvio que um livro chamaria muito mais atenção que um artigo (que Wallace publicou em 1858, juntamente com um texto de Darwin). Tanto isso é verdade que o presidente da Royal Society disse que no ano de 1858 nenhuma novidade científica relevante havia sido proposta... E Darwin foi um grande compilador, além de um pensador original, e soube comparar o que parece intangível (a seleção natural) com algo que todos sabiam do que se tratava (a seleção artificial).