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quarta-feira, junho 02, 2010

Tradutora de ‘Ubik’ e ‘Os Três Estigmas de Palmer Eldritch' fala sobre o desafio de interpretar Philip K. Dick



19/04/2010


by editoraaleph


Por Eliana Gagliotti e Luciana Fracchetta

A tradutora Ludimila Hashimoto


Muitas vezes, procurar saber quem é o tradutor de um livro é tarefa que passa despercebida pelo leitor. Porém, vale lembrar que ele é peça fundamental para interpretação fiel de uma obra em língua estrangeira. Quando uma tradução não é trabalhada de forma bastante cuidadosa, pode comprometer o bom entendimento da leitura – além de fazer o autor, se ele já estiver morto, claro, se revirar no caixão.


Ludimila Hashimoto, tradutora e intérprete pela Associação Alumni, é responsável pelas traduções de “Ubik” e “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch”, clássicos do renomado autor norte-americano de ficção científica Philip K. Dick, publicados pela Aleph. Para ela, o maior desafio em adaptar as obras do autor para língua portuguesa foi manter fiel o estado emocional dos personagens de “Ubik” e trabalhar com os neologismos de “Os Três Estigmas de Palmer Eldritch”.


Durante o processo de tradução dos dois livros, Ludimila preocupou-se em manter o máximo de equivalência nos textos, optando por estruturas e vocabulários informais que não destoassem dos originais. Além disso, buscou outras fontes como teses de doutorado e textos de ficção que tivessem relações com os temas.


Confira a entrevista exclusiva da tradutora para o blog da Aleph:


Você já tinha lido algum livro do Philip K. Dick antes de realizar a tradução do “Ubik”? Tinha interesse pelo gênero ficção científica ou pelo autor?


Tinha lido “O Homem do Castelo Alto”, traduzido pelo Fábio Fernandes, e percebido que Dick poderia ser meu autor de cabeceira, mas acabou se tornando meu autor de mesa de trabalho. Pelo fato do Dick ser um autor clássico, que influenciou grandes autores, diretores e roteiristas de cinema e manifestações da cultura contemporânea, eu passei a ter um interesse particular pela obra dele antes de traduzir dois de seus livros.


Eu também já tinha sido atraída pela ficção científica, o que começou com meu fascínio pela ciência do conhecimento e pelo tema da exploração espacial, mas também – e neste caso a obra do Dick condiz perfeitamente com as minhas expectativas – da extrapolação dos parâmetros convencionais da realidade.


Meus contatos mais diretos com a literatura de gênero se deram quando traduzi o segundo volume de “Sandman”, “O Livro dos Sonhos” editado por Neil Gaiman e Ed Kramer (Conrad, 2001), e “Futuro Proibido”, organizado por Robert Anton Wilson e Rudy Rucker ( Conrad, 2003). Antes de traduzir Dick, minha curiosidade em relação à FC, à fantasia e ao slipstream me levou a escrever alguns textos que se enquadrariam em algum lugar entre esses gêneros literários.


Traduzir Dick é, portanto, um desafio e uma homenagem.


Como você pode definir o estilo do Dick? Quais foram as escolhas que você tomou durante a tradução para que esse estilo fosse mantido?


O que mais me impressiona no estilo do Dick é o caráter contemporâneo da linguagem, ou seja, o quanto ela permanece atual por meio do tom coloquial dos diálogos e das descrições claras e diretas. Soma-se a isso o fato de que o autor é, segundo sua própria definição, um filósofo que faz ficção. O efeito é um contraste entre a simplicidade eficaz da forma e a profundidade do conteúdo – é o leitor percorrer labirintos que, por mais tortuosos que sejam, são desvendados por um homem do seu tempo.


Decidi pelo uso de estruturas e vocabulário informais que não soassem anacrônicos nos diálogos, e o máximo de equivalência no texto como um todo. Quando a opção por manter uma rima, por exemplo, representava a perda do impacto da frase, optei por manter a força da mensagem, por se tratar de um clássico da ficção científica já muito analisado e debatido.


Quais as dificuldades encontradas na tradução dos livros “Ubik” e “Os três estigmas de Palmer Eldritch”? Comparando os dois, qual foi o mais difícil?


Em “Ubik”, a complexidade maior se concentrou no cuidado para manter a fidelidade nas passagens em que o estado emocional das personagens é fundamental, na descrição completa de trajes multiculturais, que demandou pesquisa, e na adequação da linguagem típica de comerciais na epígrafe de cada capítulo sem perder a referência religiosa. E, de maneira geral, o humor, por vezes sutil, o uso de trocadilhos e termos cunhados pelo autor também são casos que exigem decisões críticas.


“Os Três Estigmas de Palmer Eldritch”, por um lado, foi mais difícil devido à ocorrência maior de neologismos. Fiz pesquisas com o intuito de identificar os termos que permanecem enigmáticos para os leitores cujo idioma nativo é o inglês, para obter um tipo de reação análoga no leitor do texto resultante. Por outro lado, o que facilitou o trabalho com esse livro foi o fato de já ter tido a experiência de traduzir outro do mesmo autor, cuja voz já estava mais bem internalizada, principalmente considerando que são dois livros com temas mais próximos entre si, se comparados a outros textos do Dick.


Quais são as fontes que você utilizou para auxiliar na tradução?


Além das mais comuns, como os dicionários online, incluindo o PKDictionary, consultei ensaios sobre o autor – como a tese de doutorado de Adriana Amaral – textos de não ficção que tivessem relação com os temas subjacentes às obras – como o Bardo Thodol – para ser coerente com as referências, e, no caso de “Ubik” houve um diálogo com Lúcio Manfredi, estudioso da obra do Dick. Também costumo sempre criar glossários com o vocabulário recorrente de cada autor.


Qual a relação que você estabeleceu com o Philip K. Dick após a tradução de seus textos?


Descobri que além de ter lido alguns autores influenciados por ele, autores que o influenciaram também me eram muito caros, como Carl Gustav Jung e Jorge Luis Borges, o que estreitou meus laços com o pensamento kdickiano. Esses tecidos de escritores e ideias que vão se configurando de modo nada aleatório são importantes na formação do tradutor. A minha relação com ele agora é parecida com a de quem leu um clássico e não consegue mais interpretar boa parte da realidade sem a influência da visão que lhe foi apresentada de forma tão eficaz e extasiante, uma relação íntima.


Tem alguma observação ou informação você que gostaria de passar aos leitores?


Queria fazer um comentário otimista sobre a qualidade das traduções no Brasil nos últimos tempos. O cuidado que os editores têm tido com a tradução e a revisão dos textos reflete o olhar crítico dos leitores. O efeito é a formação de mais leitores que enxergam a tradução de um romance não como uma obra em que falta algo, nem que prescinde do original, mas que transforma impossibilidades iniciais em soluções capazes de intensificar o potencial do texto fonte. E isso sou eu concordando com Umberto Eco.

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