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quarta-feira, setembro 09, 2009

Sobre o ensino criacionista nas escolas públicas


Eu nunca me interessei muito sobre a questão do movimento Criacionista, talvez por que a teoria do Demiurgo , que eu acho uma possibilidade fascinante, seja uma terceira via aparentemente ignorada tanto pelo neo-ateísmo quanto pelos criacionistas.

Mas ultimamente tive que fazer pesquisa (no Google) para me informar melhor, afinal a candidata em quem votarei por motivos políticos está sendo atacada por motivos (anti-)religiosos. Encontrei algumas informações interessantes.

Um dos debates atuais é se Marina Silva é criacionista. Eu acredito que é uma questão que não está no centro de suas prioridades, ela é uma leiga no assunto. Certamente não é uma Criacionista Bíblica (ela usa a Bíblia como inspiração para uma filosofia de vida, não como texto científico). Possivelmente namorou com o DI há algum tempo, mas acredito que esteja rumando agora para o Teísmo Evolucionário (mais compatível com suas preocupações ecológicas - que são fortemente embasadas na Biologia).

Outros afirmam que Marina é uma Criacionista Bíblica Literalista (CBL) embora ela tenha declarado com todas as letras na Folha, recentemente, que não se considera criacionista. Eu não sei o que mais Marina pode fazer - não , ela não vai se declarar atéia mesmo que com isso perca votos.

Achei três informações interessantes que eu não sabia (vocês sabiam?)

1. Os criacionistas bíblicos não consideram o CBL como uma teoria científica, mas sim como uma doutrina que tenta encontrar uma compatibilidade entre uma interpretação literal da Bíblia e o conhecimento científico. Eles reconhecem que é uma tarefa difícil (põe dificil nisso!).
2. Eles não propõe o tal ensino plural (criacionismo ao lado de evolucionismo) nas escolas públicas.
3. Os criacionistas bíblicos são minoria entre os evangélicos.

É possível que o item 2 não faça parte de agenda de outros grupos criacionistas, mas é a posição oficial da Sociedade Criacionista Brasileira, conforme pode ser visto aqui:

Conhecedores da laicidade do Estado brasileiro, os criacionistas bíblicos que estejam familiarizados com a questão não argumentam em favor da inserção do criacionismo nos currículos escolares e universitários das escolas públicas, uma vez que, como já foi dito, o criacionismo está associado ao conhecimento religioso. O que desejam, na verdade, é o ensino crítico do darwinismo, apontando seus erros e acertos. A SCB, por meio de seu presidente, Dr. Ruy Carlos de Camargo Vieira, também se manifesta totalmente contra o ensino do criacionismo nas escolas e universidades públicas. Não existe interesse algum (pelo menos no Brasil), ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades (tanto é que escolas criacionistas como a Adventista e a Mackenzie [acho que o Mackenzie propaga o DI, não o CBL] incluem os dois modelos em seu currículo). Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isso.

Seria bom também elevar o tom do debate. Acusações injustas de ambos os lados apenas produzem mágoas e polarização social, com a tendência de virar uma briga de força em vez de argumentos. Dado que os religiosos tem muita força na sociedade atual, os secularistas deveriam ter muito cuidado tanto em termos táticos como estratégicos. Por exemplo, não seria interessante que os evolucionistas se aliassem aos Teístas evolucionários contra o Criacionismo Bíblico Literalista e o Design Inteligente? Que tal eliminar do Brasil o literalismo bíblico (uma proposta que já é consenso entre os teólogos) e ganhar uma batalha por vez?

É engraçado como o tipo de abordagem argumentativa dos criacionistas é muito similar com o dos céticos do clima. Eu aposto que existe uma correlação entre os dois movimentos (nos EUA isso é patente, ambos eram defendidos pelos republicanos).

Em todo caso, acho que os criacionistas brasileiros são mais light e conversáveis, não são radicais como os criacionistas americanos. Talvez seja um erro imaginar que a situação do Brasil e dos EUA seja a mesma: os blogs anti-criacionistas americanos e os livros de Dawkins e outros refletem o ambiente anglo-saxão ou mesmo do Bible-belt, o que não é o caso brasileiro.

É possível que esta posição oficial seja uma estratégia da SBC por enquanto, levando-se em conta a fraqueza do movimento criacionista no Brasil. Mas acho que o que o movimento secularista deveria fazer, além da refutação ponto por ponto dos argumentos criacionistas, seria postular que a SBC coloque sua postura anti-ensino do criacionistmo nas escolas públicas como sendo uma posição permanente, uma cláusula pétrea do criacionismo brasileiro.

E assim, dado que o criacionismo não oferecerá nenhum perigo para a educação brasileira, acho que poderemos tolerar os criacionistas e os céticos do clima do jeito de sempre: com muita paciência...

9 comentários:

none disse...

O estatuto da SCB não fala nada sobre laicidade. Mas admite convênios com o poder público:

"III - celebrar convênios, acordos, contratos e outros instrumentos jurídicos com pessoas físicas ou jurídicas, de DIREITO PÚBLICO ou privado, nacionais, ou internacionais;"

A entrevista com o Prof. Dr. Ruy Vieira a que se fez remissão *não* fala nada de "contra o ensino do criacionismo em escolas públicas".

Trecho da entrevista de Vieira à finada AOL Brasil:
"O senhor aprova a medida da governadora Rosinha Garotinho que introduziu o ensino religioso confessional nas escolas? Por que não ensinar o criacionismo em aulas de religião? Eu não vejo problema nenhum. Se a intenção é estudar religiões, fazer análises antropológicas, sociológicas e ver que o sentimento de uma divindade sempre existiu, uma divindade com o poder de criar as coisas que estão ao nosso redor. A governadora está cumprindo o texto constitucional e a própria LDB [Lei de Diretrizes e Bases], que prevê a educação religiosa. Não é proselitismo, catequismo. É apenas uma educação religiosa, que forma uma visão mais ampla para o aluno, inclusive uma visão crítica. Ora, dentro dessa visão crítica cabe perfeitamente analisar o evolucionismo como uma religião sem Deus. É um paradoxo, mas acaba sendo uma religião. Tem seus sacerdotes, seu livro sagrado, o seu ritual."
http://www.gper.com.br/?sec=informacoes&id=539
------------------

[]s,

Roberto Takata

none disse...

Ah! Experiência pessoal, boa parte dos criacionistas ativistas, apesar de sua formação moral religiosa (que apregoam como superior a uma moral, p.e., secular), agem de explícita má-fé em suas incursões proselitistas.

Se acharem necessário, não apenas ocultam suas intenções como mentem mesmo. Não é raro encontrar criacionistas que puxam papo como se fossem um evolucionista com "algumas dúvidas". A intenção fica clara quando você procura esclarecer as "dúvidas". A dúvida rapidamente se converte na certeza do não.

Sem falar na estratégia "wedge" exposta no documento que vazou. Há método, há premeditação, há planejamento e há insídia.

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Takata,

Calma com a paranóia...

Qualquer ONG pode ter no seu estatuto fato de que ela pode fazer acordos com pessoas de direito publico. Qual o problema nisso? Imagino que a nova ONG Ceticismo Aberto tem a mesma cláusula. Se não tem, deveria ter, para, por exemplo, fazer um programa de TV com a TV Brasil ou Cultura...

Mas voce tem razão. A SBC aprova a inclusão do tema Criacionismo em aulas de religião nas escolas publicas.

Minhas dúvidas são:

1. Os céticos são contra as aulas de religião em escolas públicas ou só os ateus (nem todo cético é ateu).
2. Dado que as aulas de religião em escola pública já faz muitos anos, você é contra o ensino de criacionismo nas aulas de religião?
3. Minha namorada Angelica, que é professora do ensino fundamental, acaba de me informar que grande parte dos "professores de religião" na verdade são professores de história ou filosofia que pegaram essas aulas. Afinal, precisa ser um funcionario publico, e é dificil contratar teologos apenas para isso, de modo que as escolas aproveitam os profissionais que já tem. Ela diz que basicamente o que se dá é história das religiões e aulas de cidadania durante as tais "aulas de religião". Ou seja, acho que o tema, na verdade, é Ciencias da Religião. Você é contra isso?
4. Em uma aula de historia das religiões caberia uma aula sobre os varios tipos de Criacionismo?

Osame Kinouchi disse...

Mais dúvidas:
1. Quando essa lei de aulas de religião nas escolas publicas foi aprovada?
2. Que partidos apoiaram essa lei?
3. A presença em tais aulas é opcional (fica a critério do aluno ou dos pais?)

Gustavo disse...

TEXTO DA MARINA SILVA NO TERRA:

http://terramagazine.terra.com.br/interna/0,,OI3964794-EI11691,00-Economia+e+vida+um+encontro+possivel.html

"Amanhã participarei de um evento que tem um significado muito especial: o lançamento da Campanha da Fraternidade Ecumênica de 2010, no Corcovado, no Rio de Janeiro.
Diferentemente das campanhas da fraternidade realizadas anualmente pela Igreja Católica, as campanhas ecumênicas são organizadas pelo Conselho Nacional de Igrejas Cristãs do Brasil (CONIC) e acontecem uma vez a cada cinco anos. Esta será a terceira. A primeira foi realizada em 2000 e a segunda em 2005."

"Os desafios ambientais também colocam à política o desafio de um agir generoso, desinteressado, a serviço da sociedade e de seus grupos mais vulneráveis, capaz de cuidar hoje das gerações futuras.
Como bem lembra outra passagem bíblica, descrita em Gênesis, quando Abraão plantou um bosque em Berseba para adorar a Deus. Ao fazer isso, aquele que foi chamado de "pai de todos os povos" selou também simbolicamente uma aliança intergeracional com a humanidade. Que está viva e exigente ainda hoje, clamando por nosso compromisso e ação."

none disse...

"1. Os céticos são contra as aulas de religião em escolas públicas ou só os ateus (nem todo cético é ateu)."

Falo por mim: "cético" e não-ateu - eu sou contra. Que os pais ensinem religião em casa ou levem às respectivas igrejas.

"2. Dado que as aulas de religião em escola pública já faz muitos anos, você é contra o ensino de criacionismo nas aulas de religião?"

Nas aulas de religião, não há muito o que se fazer.

"3. Ou seja, acho que o tema, na verdade, é Ciencias da Religião. Você é contra isso?"

Vou por de outra maneira. Digamos que se aprove uma lei para "aulas de pornografia" nas escolas. Por falta de pornógrafos no mercado, as escolas aproveitam os profissionais que tem que dão aulas de "educação sexual". Lógico que não sou contra aulas de educação sexual, mas lógico que continuo contra a lei das "aulas de pornografia". (A comparação é propositadamente chocante.)

"4. Em uma aula de historia das religiões caberia uma aula sobre os varios tipos de Criacionismo?"

Talvez.

"5. Quando essa lei de aulas de religião nas escolas publicas foi aprovada?"

Na verdade é um dispositivo *constitucional* (art. 210, parág. 1o)... e reforçada pela LDB. No RJ apenas se regulamentou o dispositivo (o que era preciso para colocá-lo em prática), isso foi em 2000/2002 (lei 3.459/2000 e decreto 31.086/2002). Mas há questionamentos pelo fato de, no Rio, ser um ensino textualmente confessional - o que viola a laicidade estatal (pela LDB é vedado o proselitismo).

"6. Que partidos apoiaram essa lei?"

O projeto que virou a lei 3459 é de um deputado do PP (Carlos Dias). Anthony Garotinho havia sido eleito governador pelo PDT (em 2000 passaria ao PSB). Rosinha Matheus foi eleita em 2002 pelo PMDB. A patacoada é, portanto, suprapartidária.

A iniciativa foi da Igreja Católica, mas os Garotinhos são presbiterianos. A patacoada é multicristã - ou mesmo multirreligiosa.

"7. A presença em tais aulas é opcional (fica a critério do aluno ou dos pais?)"

Sim. Isso é previsto na CF e repetida na LDB.

[]s,

Roberto Takata

none disse...

"Qualquer ONG pode ter no seu estatuto fato de que ela pode fazer acordos com pessoas de direito publico. Qual o problema nisso?"

Sim, não tem problema. Nisso não há paranóia, apenas apontei que não há (sem surpresas) uma defesa da laicidade pela SCB.

O problema é quando o *estado* celebra tais acordos.

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

OK, Roberto, entendi. Eu pensei que voce era do movimento ateista (vi sua foto em reportagens sobre isso), mas agora entendi que você é apenas secularista. Eu me considero um ateísta bíblico (ou seja, um ateu que gosta da Bíblia como livro de literatura universal).

Em todo caso, acho que você está melhor informado que eu sobre o movimento secularista (ou mesmo se há um movimento).

Apenas para fazer o advogado do Diabo, mais umas perguntinhas:

1. Será que os secularistas deveriam defender o ensino do ateísmo científico em aulas de ciência?
2. Será que os secularistas deveriam defender o ensino do ateísmo e secularismo nas aulas de religião?
3. Deveriamos lutar para que o nome "aulas de religião" seja substituido por "aulas de ciências da religião"? (já que é isso o que em sua maioria são...)
4. Caso tais aulas fossem assim renomeadas, isso seria aceitável para o secularismo?
5. Caso os pais proibam o filho de participar das aulas de religião mas a criança, por motivos vários, quer participar, quem deve ter a palavra final? (Isso aconteceu com um casal de amigos meus ateus).

none disse...

"1. Será que os secularistas deveriam defender o ensino do ateísmo científico em aulas de ciência?"

Eu não defendo. Se se crê ou não em deus ou deuses é coisa de cada um. Que a família ensine seu filho quanto a isso do modo como achar conveniente - se quiser colocar seu filho em uma escola confessional ateísta *particular* que coloque.

"2. Será que os secularistas deveriam defender o ensino do ateísmo e secularismo nas aulas de religião?"

Não.

"3. Deveriamos lutar para que o nome 'aulas de religião' seja substituido por 'aulas de ciências da religião'? (já que é isso o que em sua maioria são...)
4. Caso tais aulas fossem assim renomeadas, isso seria aceitável para o secularismo?"

O problema não é o nome. A lei fluminense estabelece ensino *confessional*. Inclusive os professores devem estar vinculados à religião sobre a qual ministrarão aulas. (Tem até o dispositivo de que se, durante o exercício do magistério, perderem a fé, podem ser demitidos!)

"5. Caso os pais proibam o filho de participar das aulas de religião mas a criança, por motivos vários, quer participar, quem deve ter a palavra final? (Isso aconteceu com um casal de amigos meus ateus)."

Por lei, os pais são os responsáveis. Legalmente, a palavra final é dos pais. Caso os pais achem que o filho (ou filha) tem maturidade suficiente para a decisão sobre o tema, eles podem levar em conta essa opinião.

Esse é um fator pelo qual sou contrário a se ministrar aulas de religião em escolas públicas mesmo que de caráter facultativo aos alunos. Existe uma pressão social. Um garoto (ou garota) ateu tende a ser discriminado. Mesmo um que simplesmente não tenha religião e não seja ateu.

A reportagem a que você se refere, provavelmente, é a que saiu na Galileu há uns 8 anos - da qual você pegou a foto de um clone malino meu. Ela não era sobre ateísmo, mas sim sobre "ceticismo". Eu participo de vários grupos "céticos" e "racionalistas" (ressaltando que não é nem o ceticismo de Pirro, mas sim o novo ceticismo de Kurtz e cia, nem o racionalismo filosófico, mas apenas a defesa do uso da razão) e evito participar de grupos ateístas (não meramente ateus - mas ateus *militantes*): embora defenda que ateus se organizem em tais grupos.

Um pouco sobre a minha visão a respeito do tema do ateísmo aqui:
http://neveraskedquestions.blogspot.com/2009/01/atea-tu-brutus.html
(incluindo os comentários).

[]s,

Roberto Takata