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segunda-feira, novembro 09, 2009

Um Diogo Mainardi Católico?


Roque e eu discutimos sobre a possibilidade de uma mesa redonda sobre ciência, anticiência, ateísmo e religião, ou algo do tipo, a ser promovida na Ex-Capela da USP de Ribeirão, atual Espaço Cultural (o lugar pode ser descrito pela sigla EC, que lembra "Era Comum").

Para defender a posição do ateísmo clássico e do neo-ateísmo já tinhamos alguns nomes, bem como alguns humanistas do Romantismo Anticientífico (tipo Rubem Alves ou talvez gente da Contracultura) . Acho que agora achei, por puro acaso, um cara interessante para se convidar, o Luciano Henrique, do blog Neo-Ateísmo - Um Delírio:

Uma pessoa que é fã da aplicação do método científico para resolução de problemas corporativos, e especialista em ceticismo empresarial, suportado por frameworks de governança e auditoria. Também é um debatedor com especialidade na aplicação do ceticismo para desmascarar charlatães como Richard Dawkins, Daniel Dennett e Christopher Hitchers, além de seus seguidores. Este blog é dedicado a este tipo de escritos.

Embora eu não tenha examinado o blog com muito cuidado, achei muito divertido. Luciano é uma espécie de Diogo Mainardi católico conservador: anti-petista, anti-esquerdista, cético do neo-ateísmo mas com cultura filosófica e histórica razoável. Um exemplo de sua prosa:

Técnica que está atualmente virando moda entre alguns neo-ateus do mercado. Em especial, Bart Erhman, Hector Avalos e Dan Barker.

A idéia deles é afirmarem que foram ex-religiosos, talvez com o objetivo de que suas declarações anti-religião adquiram maior respaldo por sua experiência.

O problema é que tal alegação só seria aceita se os interlocutores não fossem nem um pouco céticos, pois a declaração de que alguém viveu uma experiência não implica em que a descrição da experiência é a real. [N.E. - Detalhe: é exatamente esse um dos principais princípios que eles usam para negar a religião]

Por exemplo, imaginem alguém que tenha tido um casamento e saiu do mesmo, alegando decepção, e decidiu daí para frente viver solteiro.

Seria esta pessoa a mais ideal para definir como é o casamento? Claro que não.

Da mesma forma, imaginem alguém que resolveu ser gerente de projetos, e depois abandonou a profissão, indo para uma área totalmente diferente.

Seria esta a pessoa a mais ideal para definir como é a gestão de projetos? Novamente, claro que não.

Não que a experiência em si deva ser descartada, mas é possível que esteja maquiada por experiências desalentadoras, em muitos casos amostras não representativas.

Como agravante, ainda existe o problema de que a declaração é uma evidência anedota.

Por exemplo, eu já fui ateu. Mas não saio declarando coisas contra o ateísmo especificamente por causa disso. Justamente pelo meu treino em ceticismo, que automaticamente sinaliza que a evidência não serve. O máximo que eu poderia descrever seria minha experiência com o ateísmo, e não o ateísmo em si. Só que qualquer um poderia dizer que minha experiência com o ateísmo “não é amostra representativa”, e, portanto, descartá-la.

Aparentemente, para pessoas facilmente sugestionáveis, o estratagema obtém algum efeito. Não é raro algum neo ateu chegar e afirmar “ohhh… ele já foi religioso, portanto ele pode criticar com propriedade”.

Existe até a variação em que o próprio neo ateu declara ele próprio ter sido religioso, e, assim como os autores já citados, provavelmente tenta obter o mesmo efeito psicológico sobre pessoas pouco céticas.

O detalhe é que, somando-se os dois fatores (evidência anedota + declaração com viés), qualquer declaração deste tipo tem valor nulo em termos de evidência.

Refutação

Basta explicar para a pessoa que tal tipo de declaração é apenas evidência anedota, e, para piorar, é uma declaração com viés. Existem duas situações relevantes:

(1) Debatendo com um neo ateu educado e respeitoso

Neste caso, a reciprocidade recomenda que orientemos o neo ateu em relação ao seu erro. Como exemplo:

  • NEO-ATEU: Já fui religioso, e a experiência não foi nada agradável.
  • REFUTADOR: Talvez para você. É sua opinião, claro, mas não reflete a religião.

[E daí por diante, respeitosamente, seguir o diálogo]

(2) Debatendo com um neo ateu arrogante e desafiador

Nessa situação, a melhor alternativa é desafiar o neo ateu da mesma forma. Veja:

  • NEO-ATEU: Estou aqui para desmascarar essa coisa nojenta chamada religião. E olhem: já fui religioso (!!!). [N.E. - Nesse momento, caso o debate seja público, talvez a platéia faça um som similar a "oohhhh", que aparenta um golpe quase letal aplicado pelo neo ateu no debate]
  • REFUTADOR: Você apenas afirma que foi religioso. Mas não prova. Portanto, isso que você afirmou não vale nada. É apenas uma anedota.
  • NEO-ATEU: Como você ousa duvidar de mim? Eu posso provar com fotos que já fui religioso.
  • REFUTADOR: Mesmo que você mostre fotos mostrando que já foi religioso, isso ainda não provaria muitas de suas declarações quanto à religião. Pode ser que você não tenha tido experiências negativas, mas esteja MENTINDO dizendo que teve experiências negativas. De novo, é evidência anedota. Vale tanto quanto um peido.[N.E. - Nesse estágio, o "golpe letal" do neo ateu já foi reduzido a pó]

[E assim, sucessivamente, sempre colocando o neo ateu em seu devido lugar]

Conclusão

Uma das mais eficientes maneiras de se derrubar um adversário em um duelo cético, conforme já mostrado pelo estrategista cético James Randi, é expor ao público que o adversário não possui nada além de evidências anedotas em sua declaração. Curiosamente, esse estratagema de declarar em público ter tido um passado religioso, para em seguida ofender a religião, não passa também de uma estratégia principalmente focada em evidência anedota. Portanto, pode ser tratada exatamente da mesma maneira que se trata a história do caseiro do sítio que alega ter visto um lobisomem ou a mula sem cabeça. É o ceticismo simples e direto.

Acho que a mesa redonda pode ser um pinga-fogo muito interessante...

Um comentário:

André disse...

Acho que o Diogo Mainardi católico por excelência é o Reinaldo Azevedo. E nisso devem concordar pessoas das mais variadas posições nos espectros político e religioso...