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sexta-feira, novembro 13, 2009

Derrubando mitos criacionistas e sobre o criacionismo

12/11/2009 - 09h57

Criacionismo prospera no mundo islâmico, mas sem crença de Terra recente

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KENNETH CHANG
do New York Times, em Massachusetts (EUA)

O criacionismo está crescendo no mundo muçulmano, da Turquia ao Paquistão, passando pela Indonésia, afirmaram acadêmicos internacionais, no mês passado, em um encontro para discutir o assunto.

No entanto, eles disseram, criacionistas que creem que Deus criou o Universo, a Terra e a vida há apenas alguns milhares de anos são raros (se é que existem).

Uma razão é que, embora o Corão, texto sagrado do islã, diga que o universo foi criado em seis dias, a frase seguinte acrescente que um dia, nesse contexto, é uma metáfora: "mil anos da sua contagem".

Em contraste, alguns criacionistas cristãos descobrem na Bíblia uma cronologia exata que faz com que a Terra tenha 6 mil anos e, portanto, se opõe não apenas à evolução, mas também a grande parte da geologia e cosmologia moderna, que afirma que a Terra e o Universo têm bilhões de anos.

"As visões da evolução científica são claramente influenciadas por crenças religiosas implícitas", disse Salman Hameed, que organizou a conferência realizada em dois dias no Hampshire College, onde ele é professor de ciências integradas e humanidades. "Não existe criacionismo que acredita que a Terra é jovem".

Discordâncias

No entanto, isso não significa que tudo sobre a evolução se encaixa no islã ou que todos os muçulmanos aceitam com alegria as descobertas da biologia moderna. Eles não discutem com astrônomos e geólogos, apenas biólogos, insistindo que a vida é criação de Deus, não a consequência casual de fatos aleatórios.

O debate sobre a evolução só agora está ganhando importância em muitos países islâmicos, à medida que a educação melhora e mais estudantes são expostos às ideias da biologia moderna. O grau de aceitação da evolução varia entre os países muçulmanos.

Uma pesquisa liderada pelo Evolution Education Research Center, da McGill University, em Montreal, descobriu que textos didáticos de biologia do ensino fundamental e médio no Paquistão abordam a teoria da evolução. Citações do Corão no início dos capítulos são escolhidas para sugerir que a religião e a teoria coexistem harmoniosamente.

Em uma pesquisa com 2.527 estudantes paquistaneses do ensino fundamental e médio, conduzida pelos pesquisadores da McGill e seus colaboradores internacionais, 28% dos alunos concordaram com o sentimento criacionista: "A evolução não é um fato científico bem estabelecido". Mais de 60% discordaram, e o restante não soube responder.

Dos estudantes entrevistados, 86% concordaram com a afirmação: "Milhões de fósseis mostram que a vida existe há bilhões de anos e se modificou com o tempo".

Turquia

A situação na Turquia é diferente, mas só mudou nas últimas décadas. Um dos participantes da conferência, Taner Edis, disse nunca ter encontrado conotações criacionistas quando era pequeno, na Turquia da década de 1970. "Soube do criacionismo pela primeira vez quando vim para os Estados Unidos, para fazer faculdade", disse Edis, hoje professor de física da Truman State University, no estado americano do Missouri. Ele achou que aquilo era uma esquisitice dos americanos.

Alguns anos depois, enquanto manuseava livros em uma livraria durante uma visita à Turquia, Edis encontrou obras sobre o criacionismo arquivadas na seção de ciências. "Isso me pegou de surpresa", disse.

Na Turquia, oficialmente um governo laico, mas agora dominado por um partido islâmico, o ensino da evolução praticamente desapareceu, ao menos abaixo do nível universitário, e o currículo de ciências em escolas públicas é projetado para defender crenças religiosas, disse Edis.

Harun Yahya, criacionista turco da corrente que acredita que a Terra é antiga, ficou famoso na Turquia e em outros lugares. Bem longe dali, a maioria dos professores de biologia na Indonésia usam os livros criacionistas de Yahya em suas aulas, conforme descobriram os pesquisadores da McGill, embora alguns tenham afirmado usá-los para fornecer contra-argumentos aos materiais que os alunos liam.

Na pesquisa da McGill, menos estudantes na Indonésia, em relação ao Paquistão, acreditavam que a evolução era um fato cientificamente estabelecido, embora 85% tenham concordado que fósseis mostravam que a vida existe há anos e se modificou com o tempo.

Biologia

A qualidade do ensino da biologia "varia amplamente, dependendo do país e da escola", disse Jason R. Wiles, professor de biologia da Syracuse University e diretor associado do centro da McGill.

Além disso, a situação no Irã, onde a seita xiita do islã domina, pode ser muito diferente do vizinho Iraque, onde os sunitas são mais numerosos. Não há um líder único, como o papa da igreja católica, que pode ditar uma visão oficial que vale para todos os muçulmanos.

Até mesmo descobrir as diferentes formas pelas quais os países ensinam a evolução pode ser difícil, disse Hameed. A Arábia Saudita, por exemplo, não deixa estrangeiros verem livros didáticos de biologia. "Não temos muita informação", disse ele.

Para muitos muçulmanos, até a evolução e a ideia de que a vida floresceu sem a intervenção da mão de Alá é amplamente compatível com sua religião. O que muitos acham inaceitável é a evolução humana, a ideia de que os humanos evoluíram de primatas primitivos. O Corão declara que Alá criou Adão, o primeiro homem, do barro.

Tumulto em aula de evolução

Pervez A. Hoodbhoy, importante físico atômico da Universidade Quaid-e-Azam, no Paquistão, disse que, quando deu uma palestra abordando a história cosmológica do Big Bang até a evolução da vida na Terra, a plateia ouviu sem objeções ao conteúdo. "Tudo foi bem, até que os macacos começaram a andar em pé", disse Hoodbhoy.

Mencionar a evolução humana levou a um tumulto, e ele teve de ser escoltado. "Essa é a única coisa que nunca poderá ser resolvida", disse ele. "Sua linhagem é o que determina sua validade".

O ensino de biologia, até em lugares como o Paquistão, que ensina a evolução de outra forma, omite a questão da origem dos seres humanos.

Alguns acadêmicos da conferência temiam que a rejeição a alguns aspectos da evolução possa deixar países muçulmanos em desvantagem no campo da educação científica.

Hameed disse que uma reação negativa à teoria evolucionária poderia refletir uma luta para proteger tradições culturais e valores contra influências ocidentais, embora muçulmanos criacionistas tenham prontamente tomado emprestados muitos dos argumentos dos criacionistas ocidentais, só eliminando os aspectos sobre a idade da Terra.

Reação no Ocidente

Há alguns sinais de que no Ocidente, onde influências não-islâmicas são mais fortes, o criacionismo islâmico possa ser mais forte em reação à pressão externa. Por exemplo, estudantes do ensino fundamental e médio de escolas muçulmanas em Toronto e próximas da cidade duvidaram muito mais da evolução do que alunos da Indonésia ou do Paquistão, como descobriu a pesquisa da McGill.

A maioria dos alunos das escolas islâmicas canadenses discordou que houvesse um conjunto de dados significativos respaldando o conceito de evolução e que a todas as formas de vida vinham do mesmo ancestral comum.

Ao mesmo tempo, muitos dos muçulmanos canadenses até adotaram crenças criacionistas que acreditam que a Terra é jovem, cuja origem é completamente ocidental. Apenas metade dos alunos entrevistados nas escolas muçulmanas na região de Toronto acreditava que fósseis mostravam que a vida existe há bilhões de anos e se modificou com o tempo, em comparação a 86% dos estudantes paquistaneses.

Em um estudo financiado pela Fundação Nacional de Ciência, Hameed e seus colegas irão pesquisar as crenças de médicos muçulmanos em cinco países islâmicos --Egito, Irã, Malásia, Paquistão e Turquia-- e compará-las às crenças dos médicos muçulmanos em países não-islâmicos --médicos turcos na Alemanha, médicos paquistaneses na Grã-Bretanha, e médicos turcos e paquistaneses nos Estados Unidos.

"Especialmente na Europa, onde eles têm mais dificuldade em se adaptar à cultura", disse Hameed, "esperamos uma rejeição mais forte da teoria da evolução", em comparação a países muçulmanos.

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