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terça-feira, novembro 03, 2009

Criando o seu Universo-Bebê


Como a Luciana ainda não me proibiu de publicar nossos emails, e como o tema deles é eminentemente científico, aqui vai a continuação da discussão sobre a teoria dos Universos-Bebês.

Luciana:

Esse universo mãe pra vc seguiria um princípio como seleção natural pra criar universos bebês de alta complexidade? Se for neste sentido vc é ateu pq não acho que ateísmo quer dizer que seja por acaso (se fosse assim não aceitaria a teoria da evolução das espécies) quer dizer que não acredita em nada antes de ter evidências, mas que faz apostas que pareçam mais prováveis. Essa teoria tb continua a ter um problema a não ser que a origem não precise ter um princípio pq o universo mãe deve ter sua mãe e assim infinitamente (ou parece infinito pq é incompreensível ou é incompreensível mesmo o fato de existir um mistério tb não quer dizer que qualquer resposta serve).

Osame:

Sim, nada tenho a dizer sobre a origem do primeiro universo mae (assim como Darwin nada tem a dizer sobre a origem da Vida).

É uma teoria sobre o aumento progressivo da complexidade dos universos, nao sobre a origem do primeiro universo.

Para alguns ateus, a questão do proposito (ou falta de propoósito essencial) da vida e do nosso universo é essencial para definir o ateismo. Qualquer outra visão, mesmo negando um Deus, seria considerada como uma visão espiritualista ou cripto-espiritualista.

A questão da importancia do acaso ou do propósito e planejamento é essencial. Se um universo mãe planejou a criação do nosso universo, ou seja, se nosso universo não foi fruto de uma criação acidental do universo-mãe, mas foi planejado, e talvez seus parametros sofreram um ajuste fino incremental para favorecer a vida (como os raios biofílicos do livro A Voz do Mestre, de Stanislaw Lem, um de meus teólogos ateus preferidos, então não podemos dizer que nosso universo é fruto do acaso e não existe propósito ou planejamento de um criador (finito que seja, a civilização-demiurgo).

Hoje, a evolução biológica é considerada como não tendo propósito. Já no esquema dos universos-mãe, a evolução da vida tem um propósito sim: produzir, no final da evolução, uma mente-civilização capaz de gerar outros universos bebes, nem que isto seja de forma probabilística (ou seja, uma tecnocivilização bem sucedida para cada milhão de tecnocivilizações autodestruídas antes de gerarem universos -bebês).

Concordo que, isso é um propósito local, micro-histórico (embora chamar os bilhões de anos de vida de nosso universo de micro-história seja uma coisa que só fisicos estão acostumados a fazer), válido apenas para os universos-bebes particulares.

Para a grande população de universos, para os eons e eons de evolução paulatina darwiniana cosmológica, ter universos bebes não é um proposito teleológico, é mais uma questão de dinâmica de populações (aumento da fração de universos biofílicos no landscape de univeros possíveis). O processo é gerido basicamente pelo acaso e seleção (onde a selação não é dada pela capacidade de competir com outros universos-bebês, mas sim pela fertilidade do universo determinada por suas constantes universais mutadas).

Ou seja, quanto ao problema do surgimento do primeiro universo-mãe, ou primeiro universo, ou primeiro landscape de universos (a maior parte deles universos indiferentes ou hostis à vida), eu sou agnóstico, não tenho condições agora de formular hipóteses plausíveis. Eu poderia aceitar, sem problemas, uma origem ao acaso para o primeiro conjunto de universos-mães. Entretanto, acredito que a palavra acaso, neste caso, estaria sendo usada apenas como um label para tapar uma lacuna, ou seja,

Não gosto que as pessoas usem a palavra Acaso como um Acaso das Lacunas, apenas para explicar ad hoc algo que ainda não foi explicado. Prefiro que os físicos e cosmologos continuem a tentar inventar teorias, de preferência teorias testáveis, mesmo que indiretamente,

A minha preferência pelo programa de pesquisa do landscape de universos-bebês é que acho ele mais testável que as idéias mais simples de Multiverso sem evolução para ajuste fino das constantes (landscape de supercordas e landscape de inflaçao eterna). Por exemplo, se algum físico mostrar que as a gravitação quântica proibe ou pelo menos dificulta muito a criação de universos artificiais, eu dou o braço a torcer e passo a acreditar mais no landscape puro das supercordas com seus 10^500 universos.

Por enquanto, a teoria dos universos-bebês responde à Questão de Wigner exposta no artigo:

THE UNREASONABLE EFFECTIVENSS OF MATHEMATICS IN THE NATURAL SCIENCES


Para as teorias de landscape de supercordas ou inflação eterna (eu acho que a Teoria de Everett dos muitos mundos quânticos uma pura bobagem!), não existe resposta para esta questão. Ou melhor, a resposta é que isso é uma ilusão, na verdade nós inventamos a matemática que precisamos, a mais adequada para a física, mas que o vínculo entre Física e Matemática é acidental e cultural.

No caso da Teoria dos Universos-Bêbes, o Universo Físico precisa ser inteligivel por mentes finitas porque isso favorerce a criação de outros universos-bebes por tecnocivilizações limitadas. Inclusive, quanto mais simples o processo de criação de novos universos, quanto mais inteligível a física básica e a cosmologia, maior o fitness desse universo-mãe.

A teoria também prevê que a Matemática não servirá de grande coisa para sistemas complexos como o Cérebro, a Sociedade, a Cultura, as Ciências Sociais etc. Afinal, eu não preciso entender dessas coisas para ser capaz de criar um universo-bebê em laboratório. Portanto, tais coisas podem estar acima da compreensão de cérebros finitos sem afetar o processo de evolução dos universo-bebês...

Um comentário:

none disse...

"assim como Darwin nada tem a dizer sobre a origem da Vida" - Mr. Darwin até tem - e ele disse (e o que ele disse se aproxima muito do cenário da sopa primordial) -, mas a teoria da evolução por seleção natural é que não se entretem com a questão da origem da vida.

[]s,

Roberto Takata