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sexta-feira, novembro 13, 2009

Pareto, ateísmo científico e ética da ciência



Antes porém, uma citação (para desespero do Jean!). Mas espero que ele goste dessa, pois o overlap entre o Jean e o Pareto é muito grande:

No começo do século XIX a “força vital” explicava um número infinito de fatos biológicos. Os sociólogos contemporâneos explicam e demonstram uma infinidade de coisas pela intervenção da idéia de “progresso”. Os “direitos naturais” tiveram e continuam a ter grande importância na explicação dos fatos sociais. Para muitos que aprenderam como papagaios as teorias socialistas, o “capitalismo” explica tudo e é a causa de todos os males que se encontram na sociedade humana.

Outros falam da “terra livre”, que ninguém nunca viu; e contam-nos que todos os males da sociedade nasceram no dia em que “o homem foi separado dos meios de produção”. Em que momento? É isso que não se sabe; talvez no dia em que Pandora abriu sua caixa, ou, talvez, nos tempos em que os animais falavam.
Pareto, Manual de Economia Política, II.13 (1906).


Eu sei que tanto o Jean como o Richard concordam com o trecho acima. Agora vou mostrar que também o Noam (sim, o Noam!) e eu também aceitamos e defendemos inteiramente este ponto, e que este é nosso real ponto de concordância. Para entender onde é que todos concordamos basta continuar a leitura de Pareto:

Observamos que na vida social esse segundo gênero de ações (as ações não-lógicas) é bastante amplo e de grande importância. O que se chama de moral e costume depende inteiramente dele. Consta que até o momento nenhum povo teve uma moral científica ou experimental. As tentativas dos filósofos modernos para levar a moral a essa forma não lograram êxito; mas ainda que tivessem sido conclusivas, continuaria verdadeiro que elas dizem respeito a um número muito restrito de indivíduos e que a maior parte dos homens, quase todos, ignoram-na completamente.

Da mesma forma, assinala-se, de tempos em tempos, o caráter anticientífico, antiexperimental de tal ou qual costume; e isso pode ser a ocasião de bom número de produções literárias [em especial, posts em blogs científicos], mas não pode ter a menor influência sobre esses costumes, que só se transformam por razões inteiramente outras (II.18).

Os homens, e provavelmente também os animais que vivem em sociedade, têm certos sentimentos que, em certas circunstâncias, servem de norma às suas ações. Esses sentimentos do homem foram divididos em diversas classes, entre as quais devemos considerar aquelas chamadas: religião, moral, direito, costume. Não se pode, mesmo ainda hoje, marcar com precisão os limites dessas diferentes classes, e houve tempos em que todas as classes eram confundidas e formavam um conjunto mais ou menos homogêneo. Elas não possuem nenhuma realidade objetiva precisa e não são senão um produto de nosso espírito; torna-se, por isso, coisa vã pesquisar, por exemplo, o que é objetivamente a moral ou a justiça.

Entretanto, em todos os tempos, os homens raciocinaram como se a moral e a justiça tivessem existências próprias, atuando sob a influência dessa tendência, muito forte entre eles, que os faz atribuir um caráter objetivo aos fatos subjetivos, e dessa necessidade imperiosa que os faz recobrir de verniz lógico as relações de seus sentimentos. A maioria das disputas teológicas tem essa origem, assim como a idéia verdadeiramente monstruosa de uma religião científica.

ESTE PONTO TODOS NÓS ACEITAMOS! Na verdade, já o fizemos durante nosso debate sobre o Acaso e a Necessidade de Monod.

Mas talvez isto não tenha ficado claro para o Jean e o Richard. Tanto eu como o Noam acreditamos sinceramente que não se podem fundamentar atitudes morais a partir de fatos objetivos, e nisso estamos em pleno acordo com vocês. Assim, ao contrário do que acredita o Jean, eu não estou tentando criar uma religião científica quando discuto a emergência de cooperação via teoria de jogos Darwiniana ou que a diversidade cultural e de sistemas econômicos seja interessante porque faz parte de um algoritmo genético de busca num espaço de organizações sociais.

Se vocês pensaram isso, então não entenderam NADA do que estou tentando dizer. Deixe-me falar de novo, com todas as letras:

POSTURAS ÉTICAS E MORAIS NÃO PODEM SER DEDUZIDAS A PARTIR DA CIÊNCIA.

Tudo bem, estamos de acordo nisso? As atitudes morais não podem ser fundamentadas de maneira absoluta, não podem ter fundamentos seguros, e possivelmente qualquer tentativa de criar um sistema moral a partir da Lógica (como a tentativa de Spinoza) deverá estar sujeito ao Teorema de Gödel, ou seja, tais sistemas ou serão inconsistentes ou serão incompletos.

Os fundamentalistas não conseguem aceitar a falta de fundamentos. Eles acham que suas crenças e atitudes morais precisam ter fundamentos de granito. E ficam extremamente perturbados quando se mostra que não é possível encontrar fundamentos firmes (Hilbert era um fundamentalista na Matemática). É por isso que, geralmente, os fundamentalistas (quer sejam religiosos, ateístas, políticos ou científicos), quando percebem essa falta de fundamentos, tendem a se tornar apóstatas militantes (“eu era comunista, mas agora vi a Luz!”, dizem todos os ex-comunistas, “eu era pró-Ciência, mas agora vejo que os cientistas só fazem ciência irônica”, snif, snif, como confessou Horgam em o Fim da Ciência, após perceber a sobreposição entre ciência, religião e arte).

Em relação às atitudes morais, o fundamentalista e o niilista constituem os dois lados da mesma moeda, e freqüentemente um se converte no outro, como observei acima: ambos acreditam que, se não é possível fundamentar nossas crenças de forma absoluta, então as atitudes morais seriam totalmente relativas, arbitrárias, irrelevantes, uma ilusão e pura perda de tempo, quando não uma fumaça ideológica para encobrir interesses escusos. Acredito que as tendências niilistas de alguns de nós se devem a essa atitude fundamentalmente fundamentalista, desculpem o pleonasmo.

Mas, felizmente, não precisamos ser fundamentalistas. De novo, devemos afirmar: valores não podem ser fundamentados de forma absoluta. Valores como direitos humanos, justiça, liberdade, igualdade, democracia, direitos das mulheres, crianças, idosos, animais etc. não podem ser fundamentados em termos absolutos, ou seja, não se pode demonstrar sua validade racionalmente, não se pode “forçar as pessoas” a aceitá-los como se aceita o teorema de Pitágoras.

A única maneira que existe de forçar uma conclusão sem usar a força (mas lembremos que a não-violência e a tolerância também são valores não fundamentados!) é através da lógica e de demonstrações matemáticas, ou seja, usando a Razão (com R maiúsculo...). E não podemos fazer isso em relação a valores. Ponto final.

Neste caso, o que sobra? O cálculo de vantagens para o indivíduo? Ou seja, cada indivíduo deve fazer apenas o que lhe traz vantagens (pragmatismo individualista ou oportunismo)? Por exemplo, se um cientista, após alguns cálculos cuidadosos, concluir que lhe trará vantagens se ele falsificar dados ou roubar idéias dos outros, ele deverá fazê-lo pois essa seria a atitude mais racional a tomar? Puro cálculo de teoria de jogos? Se sim, porque não o fazemos todos? Apenas por temer as conseqüências? (ou seja, ainda levando em conta cálculos sobre vantagens e desvantagens?)

Se não fazemos isso, se tais atitudes não são aceitáveis para nós, então qual é afinal a diferença entre essa moral científica (“Não falsificarás seus resultados, não plagiarás as idéias do teu próximo, etc...”) e a moral que diz “Não usarás o teu conhecimento para fortalecer o forte que explora o fraco”? Eu acho que este é o ponto que o Noam gostaria de enfatizar. Admitir e valorizar algum tipo de comportamento moral (por exemplo, a honestidade intelectual e científica) e criticar outras atitudes por serem “apenas comportamentos morais culturalmente relativos que carecem de fundamento” é o cúmulo da hipocrisia...

Bom, então, se não queremos ser fundamentalistas nem oportunistas (notem, eu disse queremos, não disse devemos), quais são as opções que sobraram? Uma opção é eleger certos valores como axiomas, ou seja, pontos de partida não fundamentados. Não se pode, nem na matemática nem em atitudes morais, convencer ninguém que tais axiomas estão corretos ou deveriam ser aceitos universalmente: axiomas não se prestam a isso! Portanto, ao escolher axiomas morais (“valores”), podemos esquecer a questão de fundamentos e passar a derivar deles redes de teoremas, e brincar com elas, e mostrar que são bonitas ou interessantes, e usá-las em nossas vidas, e deitar sobre tais redes – para descansar, fazer amor, libertar os oprimidos ou brincar com crianças, o que seja.

Essa é a conclusão de Rubem Alves, e embora eu seja um discípulo renegado de Rubem Alves, neste ponto concordo inteiramente com ele! Bom, mas se os valores (exemplo, “igualdade entre as pessoas versus direitos de casta ou de classe”), direitos das pessoas (e dos animais, e de outras máquinas vivas) à vida e à liberdade etc., não podem ser fundamentados mas são escolhas livres (no mesmo sentido que as regras do xadrez ou os axiomas da geometria Euclidiana são escolhas livres, embora o que decorra daí em diante já não o seja), o que podemos fazer a partir desse ponto? Como seria possível a convivência humana, se valores fundamentais não podem ser objeto de diálogo e convencimento universal? Cairemos na barbárie, na guerra total de valores, ou no oportunismo pragmático (só tenho valores quando me interessam e me trazem vantagens...)?

Sim, isso é uma possibilidade. Foi isso o que reconheceram os nazistas, e também o anarquista Feyrabend (por sinal, ex-nazista [inspirado por Nietszche e que desejou na juventude pertencer às] SS, leiam sua biografia “Matando o tempo”): que sistemas de valores são incomensuráveis (não se pode fazer com que um sistema de valores suplante outro como a ciência de Einstein suplantou a de Newton), que não existem na “Realidade Objetiva” os Direitos Universais do Homem (desculpem, da Humanidade), tais direitos são sólidos como fumaça, que basicamente um sistema de valores vence devido ao uso da força bruta e da propaganda, não existem nem podem existir raciocínios universais para determinar o valor dos valores!

Então, estamos condenados às guerras religiosas e culturais, guerras de memes e de ideologias? Que vença, sempre, o mais forte? Sim, e não. Pois existe uma classe de sistemas de valores que, entre os seus axiomas incluem os seguintes:

Não pela força, nem pela violência, mas pelo meu Espírito, diz Yavhé (Judaismo).

Ouviste o que foi dito: “Amarás teu próximo e odiarás teu inimigo”. Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; deste modo vos tornareis filhos do vosso Pai que está nos Céus, porque ele faz nascer o seu Sol igualmente sobre os maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos. Com efeito, se amais aos que vos amam, que recompensa tendes? E se saudais apenas os vossos irmãos, que fazeis de mais? (Cristianismo).

Eu posso discordar de todas as suas opiniões, mas defenderei até o fim o seu direito de dizê-las (Democracia Liberal).

Assim, se um dos valores fundamentais for a não-violência, o respeito à integridade das pessoas, etc. então não precisaremos cair na ditadura do mais forte, e um verdadeiro algoritmo genético de memes e organizações sociais pode se iniciar. Diga-se que judeus, cristãos, iluministas, democratas, socialistas e anarquistas romperam diversas vezes esse axioma, por uma infinidade de razões, em particular porque sempre existem os realistas pragmáticos (zelotes, jesuítas da Inquisição, jacobinos, Maquiavéis de plantão, falcões e tecnocratas militares, bolcheviques e anarco-terroristas) que defendem, no interior dessas comunidades, que tais valores de respeito aos adversários são utópicos, não realistas e que o melhor é adotar posições de força realistas e pragmáticas que trazem vantagens a curto prazo (70 anos, por exemplo, no caso da URSS...).

Porém, se não é possível usar a Razão, e um dos valores axiomáticos adotados autolimita o uso da violência, como poderemos disseminar ou pelo menos defender os valores que valorizamos? (Se não estamos dispostos a defendê-los, então é porque não são realmente valores para nós). Bom, a resposta inicial de Rubem Alves (antes dele começar a namorar Nietzsche e achar que uma solução poderia ser a força...) era: pela sedução! Assim como na Matemática, podemos levar outras pessoas a apreciarem nossos valores axiomáticos mostrando como nossas redes de memes podem ser bonitas, interessantes, úteis em certas circunstâncias, libertadoras. A beleza é fundamental.

Assim, existe certa parcela da Humanidade que, na hora de defender seus memes, renuncia à propaganda enganosa, à violência ou mesmo à Razão (pois tentar disseminar valores usando a Razão consiste naquela monstruosidade da religião científica descrita por Pareto!). Vivas então à não-violência e à sedução! O valor da não-violência permite que a guerra entre os valores (que precisa ser feita, pois os valores dos fortes não são idênticos aos valores dos fracos) não implique em eliminação arbitrária ou intimidação dos oponentes, que é o mínimo a ser admitido para a
convivência social.

Poderíamos dizer, num tom reconhecidamente machista (que as feministas não me leiam!), que os fundamentalistas querem fazer sexo usando as ameaças do inferno, os iluministas radicais querem provar usando a Razão que a mulher deve fazer sexo com eles, os comunistas fazem sexo usando o estupro (vulgo ditadura do proletariado) enquanto que os capitalistas compram esse sexo com suas “vantagens econômicas de consumo”, prostituindo a consciência de todos – inclusive a dos cientistas “moralmente neutros”.

Mas talvez uma alternativa mais satisfatória seria o estabelecer da utopia pelo aprendizado da sedução (que Freud explique essa minha analogia entre sexo e utopia.... risos).

Physics is like sex: sure, it may give some practical results, but that's not why we do it. – Richard Feynman.

A ciência é meio indispensável para que sonhos sejam realizados. Sem a ciência não se pode plantar nem cuidar do jardim. Mas há algo que a ciência não pode fazer: ela não é capaz de fazer os homens desejarem plantar jardins – Rubem Alves.

O cientista não estuda a Natureza porque ela é útil, ele a estuda porque ela é bela e ele se delicia com ela. Se o mundo não fosse belo, não valeria a pena estudá-lo. Se o mundo não fosse belo, não valeria a pena viver – Henry Poincaré.





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