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domingo, novembro 01, 2009

Ateísmo e Divulgação Científica



Continuando a série de posts sobre a questão do Paradoxo PZMyers (ou seja, que o blog de divulgação científica mais visitado no Science Blogs americano não tem como foco a divulgação científica strictu sensu mas sim a crítica da religião e a defesa do ateísmo científico), coloco aqui parte do texto de André Dispore Cancian (espero que não tenha copyright!) e uma referência dada pela blogueira Luciana do Serpsico:

Vc viu a carta em que Einstein diz que é ateu? Vc é confuso diz que é agnóstico outra hora que é ateu, na minha opinião acreditar que um universo cria universos bebês e o nosso é um deles é o mesmo que ser ateu, agnóstico seria se vc pensasse que seria impossível compreender esse universo mãe, mas vc diz que ele é da mesma natureza do nosso portanto compreensível onde está o agnóstico nisso e deus onde está?
http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/05/080513_einsteinreligiao_ba.shtml

"Os fundamentos do ateísmo", de André Díspore Cancian

Os fundamentos do ateísmo

Esse deus, que só habita os recônditos de nossa ignorância, é tipicamente alcunhado “Deus das lacunas”, pois só sobrevive por entre as sombras do desconhecido. A atitude de responder uma pergunta se valendo de um mistério, na realidade, não explica coisa alguma.

André Díspore Cancian

“Por simples bom senso, não acredito em Deus. Em nenhum.” (Charles Chaplin)

Etimologicamente, a palavra ateu é formada pelo prefixo
a – que denota ausência – e pelo radical grego theós – que significa Deus, divindade ou teísmo. Ou seja, a palavra ateu pode significar sem deus ou sem teísmo. Como a imprecisão desse primeiro significado o torna impróprio para representar a noção de descrença ateística, usa-se como base a acepção teísmo, que significa crença na existência de algum tipo de deus ou deuses de natureza pessoal [André enfatizou que ateísmo está relacionado a negação da idéia de "deuses de natureza pessoal". Isso talvez não seja consensual para outros ateus. Com essa definição, o Deísmo = "crença em um deus não pessoal" fica sem contraponto ou conceito antônimo, e precisaríamos definir agora o neologismo "Adeísmo" ...] Neste caso, chegamos a uma definição mais coerente e clara de indivíduo ateu – aquele que não acredita na existência de qualquer deus ou deuses [de natureza pessoal]. Assim, quando queremos uma palavra que representa tal perspectiva, usamos o termo ateu ligado ao sufixo ismo, que, na língua portuguesa, é usado com o significado de doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso. E, deste modo, chegamos a uma definição bastante nítida do que é ateísmo: estado de ausência de crença na existência de qualquer deus ou deuses [de natureza pessoal].

Antes de tudo, é importante salientar que, comumente, a maioria dos ateus, quando se refere à sua posição, diz apenas que não acredita em deus/deuses. Isso não está incorreto, mas, na verdade, com isso quer dizer que não acredita na existência de deus/deuses [enquanto mentes físicas ou suprafísicas. O Ateísta acredita na existência de deus/deuses enquanto fenomenos antropológicos e memes culturais]. Afirmar apenas “não acredito em Deus” pode dar margem à interpretação errônea de que a pessoa em questão acredita em sua existência, mas é contra Deus, contra seus mandamentos, ou então que não lhe dá qualquer crédito, o desacredita, o difama, fato este que, não raro, dá origem a vários preconceitos em relação à posição ateísta [Exato: teístas que apenas acreditam em Deus mas não seguem seus mandamentos - especialmente o mandamento da justiça para os oprimidos - são chamado na Bíblia de "Filhos de Satanás", em vez de ateus, com a ênfase de que Satanás crê em (acredita na existência de) Deus. Ou seja, basicamente, um católico ou evangélico que apóia ditaduras, torturas e mesmo um capitalismo selvagem, é um satanista, não um ateísta. Já um ateu pode apoiar ditaduras e opressões sem problema de consciência algum, pois o ateísmo não é uma filosofia de vida que propõe princípios morais ou políticos. Se fosse, seria uma espécie de religião secular ou científica]. Esclarecido este ponto, vejamos quais são os tipos de
ateísmo existentes.

Há várias modalidades de
ateísmo, as quais diferem fundamentalmente quanto à atitude do indivíduo para com a ideia de uma divindade. Vale lembrar que tais classificações são meramente didáticas, feitas apenas para delinear as circunstâncias mais comuns em que oateísmo pode ser encontrado. As duas modalidades-tronco são: 1.0) – ateísmo implícito; 2.0) –ateísmo explícito. A primeira, filosoficamente, é pouco relevante, e subdivide-se em: 1.1) –ateísmo puro; 1.2) – ateísmo prático. A segunda subdivide-se em outras duas variedades que são comumente denominadas: 2.1) – ateísmo passivo ou ateísmo cético; 2.2) – ateísmo ativo ouateísmo crítico.

1.0) – O
ateísmo implícito, como o próprio nome indica, é a variedade de ateísmo que existe tacitamente. Neste caso, o ateísmo não se fundamenta na rejeição consciente e deliberada da ideia de deus, baseada em conceitos filosóficos e/ou científicos, mas simplesmente existe enquanto um estilo de vida que não leva em consideração a hipótese da existência de algum deus para se guiar. O ateísmo implícito pode ser dividido em ateísmo puro e ateísmo prático.

1.1) – O
ateísmo puro é o estado de ausência de crença devido à ignorância ou à incapacidade intelectual para posicionar-se ante a noção da existência de uma divindade. Nesta categoria entram todos os indivíduos que nunca tiveram contato com a ideia de um deus; por exemplo, alguma tribo, grupo ou povo que se encontre isolado da civilização e que seja alheio à ideia de um deus. Também se enquadram nesta categoria os indivíduos incapazes de conceber a ideia de um deus – seja isto por imaturidade intelectual ou por deficiências mentais; por exemplo, poderíamos citar crianças de pouca idade; pessoas que sofrem de alguma enfermidade mental incapacitante também se enquadram nesta categoria. [Todos os animais que não tem nenhum tipo de comportamento religioso são ateus puros. A possível exceção são os elefantes - se os relatos de que fazem cerimônias fúnebres for verdadeiro.]

1.2) – O
ateísmo prático enquadra aqueles que tiveram contato com a ideia de deus, ou seja, que conhecem as teorias sobre as divindades, mas não tomam qualquer atitude no sentido de negá-la, rejeitá-la ou afirmá-la, permanecendo, deste modo, neutros sobre o assunto. Os integrantes desta categoria comumente se classificam como agnósticos, isto é, aqueles que julgam impossível saber com certeza se há ou não uma divindade. Sob esta ótica, devido a essa impossibilidade, afirmam que seria inútil qualquer esforço intelectual no sentido de comprovar ou refutar a existência de um deus. Qualquer pessoa que tem conhecimento da existência das religiões e de suas teorias, mas vive sem se preocupar se há ou não algum deus ou julga impossível sabê-lo com certeza, sem rejeitar ou afirmar explicitamente a ideia de deus, é classificada como pertencente ao ateísmo prático. [Exemplo: aquelas pessoas que você pergunta se são atéias e elas respodem: "Não, na verdade eu sou atoa...".]

2.0) – O
ateísmo explícito é a rejeição consciente da ideia de deus. A causa desta rejeição frequentemente é fruto de uma deliberação filosófica; contudo, não é possível fazer qualquer espécie de generalização quanto à causa específica da descrença, pois cada pessoa julga individualmente quais razões são válidas ou inválidas para corroborar ou refutar a ideia da existência de um deus. O ateísmo explícito pode ser dividido em duas outras categorias.

2.1) – O
ateísmo passivo ou cético é a descrença na existência de deus(es) devido à ausência de evidências em seu favor. Esta variedade também pode ser encontrada sob a denominação de “posição cética padrão”, pois reflete um dos axiomas mais fundamentais do pensamento cético, que é: não devemos aceitar uma proposição como verdadeira se não tivermos motivos para fazê-lo; ou, em sua versão lacônica: sem evidência, sem crença [Como eu já discorri longamente em postagens anteriores, a posição cética padrão é boa filosofia para ´ceticos e filósofos, mas não é um bom conselho para jovens cientistas: todo cientista tem que "acreditar" em suas idéias - no sentido de gastar tempo e esforço com elas, não exatamente no sentido de crença filosófica. E isso deve acontecer mesmo se as evidências não forem suficientes (ainda). Obter essas evidências (a seu favor ou a favor de sua escola de pensamento) e derrotar as evidências contrárias das hipóteses ou teorias concorrentes é o trabalho do dia a dia do cientista. Mas para isso é preciso muita perseverança, muita fé e crença, mais emocional do que intelectual, em suas idéias...]. O ateu desta categoria limita-se a encontrar motivos para justificar sua rejeição da ideia de deus, por vezes esforçando-se em demonstrar por que as supostas provas da existência divina são inválidas, mas sem se preocupar com a negação da possibilidade da existência de um deus.

2.2) – O
ateísmo ativo ou crítico é a variedade mais difícil de ser defendida, pois é uma descrença que envolve a negação da possibilidade da existência de um deus. Os ateus desta categoria tipicamente se intitulam racionalistas e seguem o princípio de que o ataque é a melhor defesa. Ou seja, literalmente atacam a ideia de deus, evidenciando as contradições e as incongruências presentes neste conceito, empenhando-se em demonstrar, através de argumentos racionais, por que a existência de um deus – como definido pelas religiões – é logicamente impossível. [Este é o tipo de ateísmo mais radical que apresenta, a meu ver, conflitos com os objetivos da divulgação científica padrão- aquela financiada pelas agências de fomento].
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À primeira vista, talvez pareça que tais definições são demasiado singelas para serem capazes de abarcar todas as possibilidades, mas não são. Isso porque a posição ateísta, em si mesma, não é positiva, não possui qualquer conteú
do, pois não representa algo, mas apenas a ausência de algo [o ateísmo crítico quase viola isso, pois afirmativas gerais de impossibilidade são científicas e "positivas": ver, por exemplo, a formulação da segunda lei da termodinâmica como "É impossível construir um moto-perpétuo do qual possa se extrair trabalho líquido por ciclo". ]; em suas categorias mais elaboradas, o ateísmo é uma ausência vinculada a uma rejeição ou a uma negação de algo largamente aceito, que, no caso, é o teísmo, em suas variadas formas.

Deste modo, a definição de ateísmo não subentende qualquer espécie de descrição prática do indivíduo. Nesta classificação, aquilo que os ateus fazem de suas vidas não é levado em consideração absolutamente. Ao contrário de outros ismos – como cristianismo, judaísmo, espiritismo, xintoísmo, hinduísmo, islamismo –, o ateísmo não é um estilo de vida nem uma doutrina dotada de um corpo de conhecimentos ou princípios [ou seja, não é equivalente às escolas filosófico-políticas do secularismo ou do humanismo secular, que possuem valores e princípios], mas somente uma classificação acerca do posicionamento ou estado intelectual do indivíduo em relação à ideia de deus. Portanto, o ateísmo não possui natureza análoga às religiões teístas [ou mesmo às religiões não-teístas, deistas, panteístas, panenteístas e mesmo religiões ateístas].

Uma vez que o
ateísmo é apenas uma classificação – e não uma doutrina ou uma cosmovisão –, logicamente não incorpora qualquer espécie de valores, princípios morais ou noções de ética. É exatamente devido a esse fato que muitos indivíduos, inadvertidamente, classificam os ateus como imorais [Exato: o ateísmo não é imoral, ele é "amoral". Ateus, enquanto indivíduos, podem ser imorais, amorais ou morais. O mesmo acontece com os religiosos: hoje, o número de religiosos imorais ou amorais supera o de religiosos morais provavelmente numa proporção de dez para um]. Deve ficar claro, entretanto, que a ausência de um conjunto de valores morais, na verdade, refere-se somente ao ateísmo em si mesmo, de modo que, na prática, isso não implica qualquer incompatibilidade entre os dois absolutamente.

(Como o texto é longo, vou comentando-o em pequenos posts, OK?)

Minha resposta para Luciana, do Serpsico:

Lu,

Eu acho que minha crença num possivel Universo-Mae é uma especie de terceira via:

1. Para o Ateismo, não apenas a ausencia de Deus, mas a ausencia de sentido, de proposito, a questao da origem da vida e do universo por puro acaso, é importante, é enfatizada.

2. No meu caso, na ideia do Demiurgo, embora ele possa ter criado o universo por acaso, pode tambem ter criado propositalmente. Ou seja, nosso universo nao teria sido fruto do puro acaso, a vida e a complexidade deste universo estavam previstas desde o Big Bang, e este Universo teria um proposito: gerar novas civilizações, novas mentes, um novo universo-mae, que geraria novos universos-bebes. Logo, na visão do Demiurgo, que nao é o Deus Cristao, existe proposito e planejamento na formação do Universo-Bebe.

3. Entretanto, isto é apenas uma possibilidade teórica. Ou seja, eu não posso afirmar que "SEI" isso, é apenas uma hipótese. E, atualmente, não é possivel demonstrar que o Demiurgo existe, é uma hipótese filosofica, assim como o Atomismo era uma hipotese filosofica até meados do seculo XIX.

Portanto, dado que não posso afirmar que o Demiurgo (o Universo-Mãe) existe, e não posso afirmar que nao-existe, dado que no presente momento não sei e não posso saber isso cientificamente, considero que este estado de agnose pode ser descrito como sendo um agnosticismo. Eu tenho uma crença numa possibilidade teorica da Cosmologia Moderna, mas isso não equivale a saber (ou a não saber). Ou seja = Agnosticismo!

Osame

Sobre o Demiurgo.

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