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quarta-feira, outubro 07, 2009

Todo cético é um anticientista?



Não, nem todos. Embora a maior parte dos céticos filosóficos tenham posturas anticientíficas, existe um movimento de céticos científicos, ou seja, céticos em relação às crenças não-científicas, mas não em relação às crenças científicas.

Algumas crenças defendidas por alguns cientistas e que não podem ser justificadas cientificamente:

1. Que no longo prazo a atividade científica e a tecnologia baseada na ciência será benéfica à humanidade e não produzirá meios de aniquilação ou colapso da civilização;
2. Que todos os fenômenos do universo são inteligíveis racionalmente pelo cérebro humano atual (que é fruto de uma evolução biológica bem particular).
3. Que a capacidade de auto-correção da ciência realmente tem poder suficiente para ultrapassar barreiras, inércia e tendenciosidades de cunho sociológico dentro da comunidade científica.
4. Que fazer ciência vale a pena enquanto projeto de vida pessoal do cientista.
5. Que o processo de inferência estatística é um método adequado de obter conhecimento, ou seja, que se os métodos de inferência funcionaram bem no passado, eles continuarão a funcionar bem no futuro (isso é uma inferência, e você não pode usar inferências para justificar a validade do processo de inferência).
6. Que, a teoria fundamental da física é única e que o método experimental é capaz de determinar sua unicidade (ou seja, que achar a TOE não é um problema NP-completo).
7. Que o melhor caminho para o desenvolvimento da ciência é evitar fazer afirmações sobre objetos ou processos não acessíveis experimentalmente (por exemplo, evitar trabalhar com a idéia de Multiverso etc).
8. Que o conhecimento científico revela a beleza (ou a feiura) do universo.
9. Que o conhecimento científico demonstra que o universo não tem sentido.
10. E outras coisinhas mais...

Todas essas crenças são filosóficas mas não tem base científica.

Se você tiver, enquanto cientista, outras crenças que você reconhece que não são científicas, escreva aí nos comentários.

Mas se você quiser conhecer a relação entre ceticismo e anticiência, dê uma olhada da página da Wikipédia correspondente.



Antiscience is a position critical of science and the scientific method. People holding antiscientific views are generally skeptical that science is anobjective method, as it purports to be, or that it generates universal knowledge. They also contend that scientific reductionism in particular is an inherently limited means to reach understanding of the complex world we live in. Antiscience proponents also criticize what they perceive as the unquestioned privilege, power and influence science seems to wield in society, industry and politics; they object to what they regard as an arrogant or closed-minded attitude amongst scientists.[1] Antiscience can refer both to the New Age and postmodernist movements associated with the political Left, and to socially conservative and fundamentalist movements associated with the political Right.



Um exemplo de ceticismo anticientífico:


Feyrabend (Wikipedia):

Baseado nestes argumentos, Feyerabend defendeu a idéia de que a ciência deve ser separada do estado da mesma maneira que a religião é separada na moderna sociedade secular. Ele vislumbrou uma "sociedade livre" na qual "todas as tradições têm iguais direitos e igual acesso aos centros de poder". Por exemplo, os pais devem ser capazes de determinar o contexto ideológico da educação de seus filhos, em vez de terem suas opções limitadas pelos padrões científicos. De acordo com Feyerabend, a ciência deve também estar sujeita ao controle democrático: não apenas determinar que assuntos devem ser pesquisados através de eleição popular, as suposições e conclusões científicas também devem ser supervisionadas por comitês de pessoas leigas. Segundo ele os cidadãos devem utilizar seus próprios princípios ao tomar decisões a respeito do que realmente importa. Em sua opinião, a idéia de que as decisões devam ser racionalistas é elitista, pois assume que filósofos ou cientistas estão em posição de determinar os critérios pelos quais as pessoas em geral devem tomar suas decisões.

15 comentários:

Kentaro Mori disse...

Osame, se o ceticismo científico também não se aplicasse recursivamente, sendo cético também com relação a crenças científicas, não seria científico.

Uma definição de ciência imperfeita, claro, talvez ingênua e vinda ainda de um não-cientista como eu, mas que talvez seja simples e relevante à questão aqui pode ser a de que ciência é a aplicação iterativa ininterrupta e irrestrita do ceticismo (mas sem buscar atalhos, tentando derivar limites de forma injustificada, como o ceticismo filosófico, enfatizando que o processo de iteração é em si mesmo valioso em cada um de seus passos).

A não-ciência e a pseudociência seriam a aplicação arbitrariamente limitada do método científico. "Duvido da crença dos outros, não das minhas".

Para indicar que o ceticismo científico sim questiona crenças científicas, por exemplo, eu não acredito nas crenças 1, 2, 3, 5, 6, 9.

Tenho reservas com as crenças 4 e 8 (ciência *pode* ajudar em um projeto de vida pessoal, conhecimento científico *pode* auxiliar em novas formas de apreciar a estética), e a única crença listada com que concordo é a 7.

Mas, como repito, não sou cientista, embora seja um entusiasta, um ativista do ceticismo científico.

Osame Kinouchi disse...

Pois é, Kentaro, eu não falei que todos os cientistas tem tais crenças (filosoficas ou ideologicas, mas nao cientificas), mas que muitos tem. Por exemplo, um MONTE de colegas meus!

Acho que uma coisa importante a observar é que visão da ciencia e da comunidade cientifica passada por alguns divulgadores como Sagan e Asimov é muito idealista, nao bate com a realidade. É necessario aprofundar nosso conhecimento da questao, e para isso, precisamos ler mais sobre historia e filosofia da ciencia...

Osame Kinouchi disse...

E, principalmente, lembrar que ceticismo cientifico não é igual a cientismo (ver cientismo na Wikipedia)

Kentaro Mori disse...

Sempre me aventurando como leigo, mas ainda que Sagan e Asimov fossem divulgadores, popularizadores de ciência e como tal geralmente vendessem ideais e sonhos, não sei se se poderia classificá-los como excessivamente idealista e distante da realidade quando há trabalho em que, dada a oportunidade e audiência, eles tenham feito várias ressalvas sobre os aspectos práticos da questão.

Eu sou suspeito, e repito pela enésima vez, talvez pouco qualificado para opinar, mas tendo a considerar a análise crítica da pseudociência como um dos terrenos mais interessantes para aplicar e testar na prática aspectos metodológicos e principalmente filosóficos da ciência.

Nisto, o próprio Sagan me pareceu um dos que mais acertaram e que mais alertou para como na prática mesmo a parapsicologia ou a ufologia não devem ser descartadas de pronto como simples pseudociências, e que a questão é mais complexa.

Alguns mais empolgados com ciência podem ficar indignados com a idéia de que Newton fosse ocultista; com a lembrança de que a URSS e diversas outras experiências não apenas no século 20 tentaram aplicar entusiasticamente o cientificismo com resultados catastróficos; que a ciência não prove que deus existe e tanto mais.

Mas essa visão sem nuances do que "é" ou "não é" bom, científico e progressista não é o que captei do trabalho de Sagan e Asimov.

Claro que talvez eles pudessem ter escrito algumas obras mais específicas, e o próprio Sagan poderia escrever sobre os erros que cometeu como no caso em que previu consequências similares a um Inverno Nuclear após a queima de poços de petrólego na primeira Guerra do Golfo.

O deus sagrado que popularizou talvez mais do que ninguém (quantitativamente) e lado a lado com os maiores (qualitativamente) a ciência também errou, e várias vezes. Como seria esperado, e como, ainda que de forma não específica, ele mesmo tenha alertado ser comum e natural.

O Varieties of Scientific Experience do Sagan é de uma sutileza fascinante, nesta época em que Dawkins -- este sim -- acredite que peque ao por vezes exagerar no idealismo e no escopo da ciência.

Ainda que mesmo Dawkins também não seja um maniqueísta, uma leitura atenta a seus argumentos revela suas nuances e como seu radicalismo não é tão radical assim.

Karl disse...

Osame, parabéns pelo post. Em especial por enumerar de forma tão categórica algumas "crendices"dos cientistas. Ninguém vive 24 h por dia "baseado em evidências científicas". Até acho que a fé que temos em algumas coisa foi selecionada durante nossa evolução, mas isso é outra história.

Kentaro, sua definição científica não é nada ingênua ou simplista, como vc faz supor. Lembra muito a posição cartesiana da dúvida primordial. Quem inaugurou essa atitude na ciência foi René Descartes, as consequências dela são hoje plenamente conhecidas, bem como as críticas.

A anticientificidade da posição cética acontece quando a ciência extrapola os limites de uma linguagem de interpretação da realidade com fins tecnológicos - dobradinha rapidamente incorporada ao capitalismo tardio. Como Feyrabend, a anticientificidade se traveste de roupagens políticas para disparar contra ciência.

Junto com a acusação de anticientificismo quando se critica a ciência, sempre vem a lembrança de que pseudociências adotarão as críticas e as reverterão em discurso criacionista ou religioso de uma forma geral. Bem, que adotem! Apesar da agressividade de algumas posturas, discutir é dar-lhes um espaço que nos é muito caro, como disse Gould.

Parabéns pela discussão.

Osame Kinouchi disse...

Bom, em termos de divulgação da Teoria da Evolução, acho que deveriamos ler mais Wilson do que Dawkins, a profundidade cientifica é melhor (e o estilo também!).

Deixemos Asimov e mesmo Sagan para os adolescentes. Porque não ler livros de divulgação que sejam realmente profundos em conteudo e elegantes em estilo? Sugestão: The trouble with physics, de Lee Smolin.

Alessandra disse...

Prof. Osame, ótimo continuar a discussão no espaço dos cientistas. Lá no meu blog, o meu foco era o do selo de qualidade e da hierarquia.. enfim... Eu, como jornalista, não sustento uma discussão profunda sobre anticiência. Mesmo tendo lido diversas obras sobre ciência e filosofia, jamais chego aos pés dos especialistas. Mas eu discordo de você sobre a sugestão: "deixemos Asimov e mesmo Sagan para os adolescentes". Divulgação científica não tem idade. Eu conheço adultos, velhos, que jamais ouviram falar em ambos. Deixemos, pois, os preciosismos de lado. Que tal começar com o básico para os básicos?

Kentaro Mori disse...

Karl:

"A anticientificidade da posição cética acontece quando a ciência extrapola os limites de uma linguagem de interpretação da realidade com fins tecnológicos".

Wôw. Agora finalmente entendi seu ponto com o "funciona" lá da outra discussão.

Eu... concordo. E vou refletir melhor.

Mas continuo te achando um Gandhi no meio da Alemanha nazista. Pedindo uma exceção à Lei De Godwin (que proíbe analogias com o nazismo).

Osame:

Tu és um dos hereges que rejeitaria a inscrição de Sagan à Academia Nacional de Ciências! Já estou organizando um protesto por suas heresias contra os dogmas Saganistas. Caso veja um pentágono queimando na frente da sua casa, saberá de onde veio.

A sério: sim, há livros mais rigorosos, mais profundos em temas específicos e mesmo mais elegantes que os de Asimov e Sagan.

Agora, quanto à crítica de que eles fossem excessivamente idealistas em sua apresentação da ciência, que ela não bateria com a realidade, fico com o que escrevi lá em cima; Sagan principalmente sim enfatizou as limitações a mencionou alguns dos problemas da prática científica. Varieties of Scientific Experience, lidando com questões religiosas, é penso eu uma boa evidência de tal.

E essa de deixá-los apenas para os adolescentes, magoou! Feynman também chegou a popularizar ciência com argumentos e idéias simples, imagens poéticas de que alguns fariam pouco caso, mas acredito que devo apreciá-las por um bom tempo.

Salve Sagan.

Eli Vieira disse...

Olá a todos.

Gostaria de lembrar que mesmo os dentes do lobo não são tão afiados. Feyerabend, em 1992, disse

"Como pode um empreendimento [a ciência] depender da cultura de tantas maneiras e, no entanto, produzir tão sólidos resultados? ... A maioria das respostas a esta questão é incompleta ou incoerente. Os físicos admitem o fato como verdadeiro. Movimentos que consideram a mecânica quântica uma virada decisiva no pensamento humano - e isto inclui a mística charlatanesca, profetas da Nova Era e relativistas de todo tipo - ficam excitados pelo componente cultural e esquecem predições e tecnologia."

Isso foi no final da carreira dele.

Enquanto isso, Karl Popper e Thomas Kuhn, no final de suas carreiras (e vidas) se voltavam para a teoria da evolução para entender como as teorias científicas se construíam com o tempo (ou como acontecia o acúmulo de resoluções de problemas na sucessão de períodos de ciência normal e de revoluções científicas, em termos kuhnianos).

Três grandes filósofos da ciência apontando para algum tipo de síntese no final de suas carreiras.

Osame Kinouchi disse...

Ok, talvez eu tenha exagerado ao falar que Asimov e Sagan eram para adolescentes. Foi mais no sentido similar ao de Ficção Cientifica: Asimov e Clark são da golden age da FC (e o Contato, de Sagan, não é exatamente "literatura"), mas depois disso tem Philip . Dick, Ursula Le Guin, e, mestre dos mestres, Stanislaw Lem.

Ou seja, pra quem já leu Dick e Lem na FC (ou Wilson e Smolin na divulgação cientifica), Asimov e Sagan apenas trazem boas reminiscencias da adolescencia. Será que consegui me expressar melhor agora?

Charles Morphy disse...

Osame,
Talvez você tenha exagerado, não, meu caro amigo. Você exagerou mesmo. Se Sagan e Asimov são para adolescentes, não sei qual pode ser o público de muitos blogs de ciências, que muitas vezes não são nem profundos em conteúdo nem elegantes em estilo!
Abraço

Kentaro Mori disse...

Ah, em FC sim, OK, entendo que diga que Asimov e Sagan não sejam os mais profundos ou elegantes. Mas é muito questão de gosto.

Asimov escreveu mais do que ninguém, se ele dedicasse mais tempo a cada uma de suas obras talvez escrevesse obras-primas. E ele não se encabulava de escrever para ganhar dinheiro.

De certa forma, o mesmo vale para o único romance de FC de Sagan. Foi graças a "Contato" que Sagan ficou milionário, e embora não seja também nenhuma grande obra-prima, não são poucas obras de FC que podem dizer ter influenciado de forma importante a física da viagem superluminal e de quebra a viagem no tempo, já que o desenvolvimento da história incentivou Kip Thorne a estudar melhor a idéia de buracos de minhoca (ou pelo menos é a lenda que conheço a respeito, se não me engano contada pelo próprio Sagan em entrevista).

Sim, eu sou um fanboy de Sagan e Asimov.

Osame Kinouchi disse...

"Se Sagan e Asimov são para adolescentes, não sei qual pode ser o público de muitos blogs de ciências, que muitas vezes não são nem profundos em conteúdo nem elegantes em estilo!"

Charles, concordo com você! risos

Karl disse...

Ghandi na alemanha nazista! XD. Essa foi demais. Por que, Mahatma Mori?

Kentaro Mori disse...

Grande Karl, sugeri a idéia de Gandhi na Alemanha Nazista porque vejo que seu posicionamento é nobree correto, mas que os oponentes não possuem escrúpulos e usarão isso contra você, e a favor deles.

Gandhi chegou a sugerir de fato que os judeus na Alemanha Nazista se oferecessem em sacrifício, em atos de não-violência, ao invés de fugir por suas vidas.

É possível que funcionasse, e gostaria de acreditar que se as atrocidades nazistas fossem melhor conhecidas durante ou mesmo antes da guerra, o curso da história teria sido diferente.

Mas temo que na prática seja um tanto evidente que se os judeus tivessem se oferecido de forma organizada ao sacrifício, isso só teria acelerado seu extermínio. Havia uma enorme diferença entre o Império Britânico e o Terceiro Reich.

Como penso que há uma enorme diferença entre a ciência e a pseudociência, entre cientistas e charlatães.