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segunda-feira, outubro 26, 2009

Relatividade não muito relativa


Um Cut and Paste dum texto do Piqueira, via Dulcídio (Física na Veia). Acho que o Piqueira não vai reclamar, qualquer coisa eu falo com ele...

É comum, em nosso cotidiano, que conceitos de teorias científicas passem ao vocabulário usual, com sentido distorcido e aplicado de maneira irresponsável, com apoio pressuposto do argumento de autoridade.

O caso mais gritante é o do “Darwinismo Social” que, ao se valer de teoria científica, procura legitimar preconceitos e mecanismos de dominação entre grupos étnicos e sociais. Felizmente, caiu em merecido descrédito, de modo que sua relevância atual é nula, sendo digna de repúdio.

Entretanto, parece que Darwin hoje incomoda tanto quanto Galileu à sua época. Alguns pretendem dar ao “Criacionismo” status de ciência, colocando-o como teoria alternativa ao “Darwinismo”. Nada mais pobre, do ponto de vista espiritual e intelectual do que confundir a ciência com a fé.

A fé é foro íntimo, e de cada um. As diversas religiões devem ser respeitadas, cada uma com seus dogmas. A ciência não é uma alternativa à religião, porém conhecimento de outro tipo.

Ciências mudam todos os dias, podem questionar-se, aprimorar-se continuamente. A ciência busca o entendimento da natureza e não há nesse ato, qualquer atitude de crença ou descrença em dogmas religiosos.

Assim, Darwin é vítima do obscurantismo, pois suas idéias tendem a ser negadas pelo público, digamos, leigo ou pseudo-científico, como se pertencessem a um lado diabólico da humanidade. Há, entretanto, uma vítima positiva do obscurantismo: Albert Einstein.

Lido por poucos, virou lenda e com isso a ele se atribuem idéias estapafúrdias, com frases repetidas à exaustão, em livros de auto-ajuda. Vamos lá, quer ganhar uma pendenga? Diga sério uma besteira atribuindo-a a Einstein. Quase todos vão acreditar, porque só poucos verificam.

A mais engraçada é a relatividade: “Tudo é relativo”, dizem os leitores descuidados, e um interminável rolo de enganos vai subscrever-se à glória de Einstein.

Galileu, que passou maus bocados nas mãos de obscurantistas, entre seus vários trabalhos, enunciou o “Princípio da Relatividade” que diz: “As leis físicas são as mesmas para qualquer referencial inercial.”. Ou seja, o chamado princípio da relatividade fala de invariância de leis, mesmo que os referenciais produzam medições diferentes para certas grandezas físicas.

O que Einstein procurava, quando enunciou sua “Teoria da Relatividade Especial”, era salvar o princípio de Galileu, quando aplicado às leis do eletromagnetismo, que haviam sido brilhantemente sintetizadas por Maxwell, durante o século XIX. Parecia, inicialmente, que as leis do eletromagnetismo não eram descritas da mesma maneira, quando se mudava de referencial.

Ao unificar os resultados de Michelson e Morley sobre o fato de que a luz não necessita suporte material para se propagar com as equações de Lorentz para cálculo de velocidades relativas e com o fato da velocidade da luz independer do referencial, concluiu que as leis do eletromagnetismo também são as mesmas para todos referenciais inerciais.

Sabe-se que, como todo ser humano, Einstein, ao longo de sua carreira, errou certas coisas, da mecânica quântica, sobretudo. Seu erro maior, contudo, foi ter mantido o nome de “Teoria da Relatividade” para seu trabalho e não mudá-lo para “Teoria da Invariabilidade”. O nome chamaria menos a atenção dos meios comunicativos, mas evitaria o “Einsteinismo Social”.

Todavia, há uma possível analogia entre a noção einsteiniana de “invariabilidade” e os fenômenos sociais. Realmente, há variações de valores de cultura para cultura, mas o que há de essencial para o homem – respeito à liberdade, acesso ao conhecimento e, principalmente, direito à vida com dignidade – independe de qualquer referencial social.

José Roberto Castilho Piqueira

Professor titular da Poli-USP

7 comentários:

Leo disse...

Não acho que universais culturais sejam parecidos com a invariância de Lorenz.

E realmente não acredito que respeito à liberdade, acesso ao conhecimento e direito à vida com dignidade sejam valores universais em todas as culturas. Se muito são valores mais ou menos consensuais na nossa cultura. O que de fato há de invariante entre culturas é a natureza humana, a base inata que caracteriza nossa espécie e suas propriedades emergentes, que inclui nossas emoções, nossa aptidão cultural, linguística, moral, etc, ainda que cada cultura molde estas faculdades da sua maneira.

Também acho estranha a posição de que religião e ciência não tem sobreposição, pelo menos as que eu conheço tem sim, e fazem uma porção de afirmações sobre o mundo, o universo e tudo mais que não são corroboradas pelas teorias científicas atualmente aceitas. Religião e ciência certamente tem naturezas e finalidades diferentes mas tem conflitos sim, o criacionismo é só um caso mais óbvio e na moda. É claro que se pode ignorar os aspectos conflitantes e desprezar esta parte das religiões como meras metáforas, o que me soa como um remendo ad hoc.

Osame Kinouchi disse...

Leo, você está correto. Nietszche defende uma sociedade aristocrática, no limite uma sociedade de castas, onde esses tais "direitos humanos" se revelam apenas como mitologia judaico-cristã. Ele mostra que o Código de Manu, de valores nobres, onde os fortes dominam os fracos, é um código de moral coerente, consistente, e que deveria ser adotado pelos ateus em geral...

Leo disse...

Não conheço o código de Manu. Por que você acha que ele deveria ser adotado por ateus em geral?

Osame Kinouchi disse...

Eu não acho isso! Quem acha é Nietzsche! Ver "A Genealogia da Moral", "Aurora", "Anticristo" e "A Vontade de Poder".

Serpsico disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Serpsico disse...

Eu já li sobre isso no livro Introdução a Filosofia da Marilena Chaui, para o Nietzsche tanto a moral moral cristã como a moral defendida pelos filósofos gregos baseada na razão foi criada pelos fracos para dominar os fortes, entendi que para o Nietzsche qualquer forma de controle da natureza se opõe a liberdade, mas ai fiquei sem saber se para ele as pessoas devem fazer tudo que desejam, seguir seus instintos ou se a moral deve ser relativa cada um construindo a sua (as duas opções são estranhas). Agora, se ele propôs uma nova moral em que os fortes (ateus) dominariam os fracos isso seria com base em que? Pergunto pq Nietzsche criticou tanto a moral baseada na razão quanto a moral baseada em supostas revelações divinas.

Osame Kinouchi disse...

Luciana, leia a "Genealogis da Moral", não leia Nietszche de segunda mão!

O que ele defende é a moral dos nobres, a moral dos poderosos, dos aristocratas, dos que desprezam os plebeus e escravos e "chandalas" ("intocáveis").

Ele despreza a moral cristã porque é uma moral de "escravos e mulherzinhas", segundo ele, uma moral dos chandalas (intocáveis).

Ele defende a moral dos homens brancos, dos "guerreiros louros superiores".

Leia Nietzsche, não leia os discipulos de Nietzsche que gastam dez paginas pra mostrar que ele não queria dizer aquiloo que efetivamente disse.

O que Nietzsche combate em seus livros, principalmente, são os valores democraticos (em contraste com a os valores aristocraticos). Ataca os judeus e cristãos porque acredita que foram os valores judaico-cristão que prepararam a mente das pessoas para a ideia de que todos os seres humanos sao iguais ("filhos do mesmo Pai"), o que gerou séculos mais tarde a Revolução Francesa e a Modernidade.

Nietzsche despreza a Modernidade, ele quer valores pré-modernos. Como foi muito usado por Heidegger e seus discipulos (o pessoal da pos-modernidade), o pessoal fica tentando "recuperar" suas ideias e minimizar as declarações aristocráticas, anti-feministas, anti-socialistas, homofóbicas e racistas que ele fez (em abundancia) nos seus livros...

Tudo porque Nietzsche é um ateu que despreza a Ciencia ("Judaico-Cristã-Ociedental"), e esses filosofos pos-modernos também não gostam da ciência (por que ela tirou o poder e o status de "intelectuais" que eles tinham antes.

Ou seja, é tudo uma questão de briguinha pelo poder (intelctual, academico, etc). É preciso ser menos ingenuo nesta história toda...