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domingo, outubro 25, 2009

"Temporada" de mentiras estatísticas

UuDate: Carlos Hotta também está começando a ficar nervoso com as estratégias de "Comunicação Social" do Ministério da Saúde e do jornalismo brasileiro. Como sempre, ele continua um gentleman (ou isso é fleugma nipônica?), o que faz a gente se preocupar ainda mais, não é mesmo? "Se até o Carlos Hotta está desconfiando do MS, então..."

Trinta e três dias depois do último boletim (e da conivência da Folha em não divulgar os totais das Secretarias da Educação), é emitida a nota à imprensa sobre a gripe suína do Ministério da Saúde. É interessante ver a manipulação e maquiação das informações pelo MS, seguindo o preceito jornalístico de contar mentiras dizendo apenas verdades...

Em vermelho, minhas observações (sem análise detalhada) sobre as afirmativas estatisticamente falaciosas do MS:

19/10/2009 , às 18h30

Influenza A(H1N1)


MINISTÉRIO DA SAÚDE
GABINETE PERMANENTE DE EMERGÊNCIAS
NOTA À IMPRENSA

Situação epidemiológica da influenza pandêmica (H1N1) 2009

1. SITUAÇÃO NO BRASIL

CASOS GRAVES

• O número de casos de síndrome respiratória aguda grave (SRAG) no Brasil – ou casos graves – causados pela influenza pandêmica (H1N1) 2009 (nova gripe) caiu 97,3%, passando de 2.828 registros para 78, entre as Semanas Epidemiológicas (SE) 31, encerrada em 8 de agosto, e a 40, encerrada em 10 de outubro. [Dado que o último boletim é de 16 de setembro, deveria se fazer uma comparação com essa data, e não com o pico da epidemia em 8 de agosto, escolhido a dedo para impressionar o leitor (97,3% !). Comparando semana por semana, da SE 35 até a SE 39 para ver a variação semanal em setembro, temos quedas semanais de 24%, 21%, 43% e 42% nas últimas semanas (o que é bem menos impresionante!). Não se deve usar os dados da semana 40 porque tais dados não são confiáveis, já que casos graves e mortes ocorridas no período ainda serão confirmadas no futuro. É possível que os dados das semanas 38 e 39 também ainda sofram desse efeito subestimador, o que explicaria as "quedas" observadas].

• No acumulado entre 25 de abril e 10 de outubro, foram notificados 68.806 casos graves de algum tipo de doença respiratória no país. Do total, 18.973 foram confirmados para algum tipo de influenza, dos quais 17.219 (90,7%) tiveram confirmação laboratorial para a nova gripe. [Por que insistir em comparar com os casos de algum tipo de doença respiratória em geral - inclusive as cronicas? O que deve se comparar é a tão propalada equivalência entre a gripe sazonal e a gripe suína. Verifica-se que 90,7% foi da suína, e a questão é se 90,7% das mortes (de adultos jovens!) foram da suína também, ou não. Aposto que foi mais, pois a gripe sazonal não mata em geral adultos jovens (a taxa de mortalidade da gripe sazonal nesta faixa etária é de 0,0001%), ou seja, as duas gripes não são equivalentes, nem epidemiologicamente nem nosologicamente: esta é a afirmação falaciosa do MS, este é o ponto que os jornalistas deveriam enfatizar, se quisessem fazer jornalismo investigativo...].

Distribuição de casos de SRAG, por semana epidemiológica de início dos sintomas, segundo classificação etiológica. Brasil, até SE 40/2009 [Interessante como os casos de gripe sazonal desaparecem nas últimas semnas epidemiológicas. Isso não mereceria um comentário? E cadê as tão propaladas 70 mil mortes por gripe sazonal que o Temporão divulgou de boca cheia?]

Gráfico

ÓBITOS

• Foram registrados, entre 25 de abril e 10 de outubro, 1.368 óbitos por influenza A (H1N1), o que corresponde a uma taxa de mortalidade de 0,7 por 100.000 habitantes. [Quantos óbitos por gripe sazonal, para podermos verificar a afirmação do ministro de que as duas gripes matam da mesma forma? Como se compara esse número com a média mundial? Porque incluir os estados do Norte e Nordeste, onde o pico epidemico ainda não foi atingido, nessa estatística?] A estratégia do MS evitou que o número mágico de 1000 mortes desse manchete na TV... Logo, a política de desinformação funcionou...

Distribuição de óbitos por Influenza A(H1N1)2009 Pandêmica por região e Unidade Federada de residência. SE 40/2009.

Região/UF

Confirmado para Influenza Pandêmica

Estimativa populacional
(IBGE, 2009)

Taxa de mortalidade
(por 100 mil hab.)

n

%

Região Sul

577

41,3

27.718.997

2,08

.. Paraná

278

19,9

10.686.228

2,60

.. Rio Grande do Sul

200

14,3

10.914.042

1,83

.. Santa Catarina

99

7,1

6.118.727

1,62

Região Sudeste

663

49,6

80.915.637

0,86

.. São Paulo

432

30,9

41.384.089

1,04

.. Rio de Janeiro

122

8,7

16.010.386

0,76

.. Minas Gerais

107

7,7

20.034.068

0,53

.. Espírito Santo

2

0,1

3.487.094

0,06

Região Centro-Oeste

98

7,0

13.895.467

0,71

.. Goiás

61

4,4

5.926.308

1,03

.. Mato Grosso do Sul

17

1,2

2.360.550

0,72

.. Distrito Federal

10

0,7

2.606.884

0,38

.. Mato Grosso

10

0,7

3.001.725

0,33

Região Norte

14

1,0

15.359.645

0,09

.. Roraima

2

0,1

421.497

0,47

.. Tocantins

3

0,2

1.292.063

0,23

.. Acre

1

0,1

691.169

0,14

.. Pará

5

0,4

7.431.041

0,07

.. Rondônia

1

0,1

1.503.911

0,07

.. Amazonas

2

0,1

3.393.357

0,06

.. Amapá

---

---

626.607

---

Região Nordeste

16

1,1

53.591.299

0,03

.. Bahia

10

0,7

14.637.500

0,07

.. Paraíba

2

0,1

3.769.954

0,05

.. Pernambuco

2

0,1

8.810.318

0,02

.. Piauí

1

0,1

3.145.164

0,03

.. Rio Grande do Norte

1

0,1

3.137.646

0,03

.. Maranhão

---

---

6.367.111

---

.. Ceará

---

---

8.547.750

---

.. Alagoas

---

---

3.156.101

---

.. Sergipe

---

---

2.019.755

---

Total

1368

100,0

191.481.045

0,71

Fonte: Sinan/MS


IMPORTANTE:

- Com relação à taxa de mortalidade, a comparação entre os países fica prejudicada porque a atualização dos dados não tem ocorrido de maneira uniforme. Além disso, os Estados Unidos, um dos países com maior número de óbitos, mudaram seu critério de classificação de mortes. Em 30 de agosto, o país zerou as estatísticas e, desde então, o Centro de Controle de Doenças conta os óbitos causados não apenas pelo vírus A(H1N1) pandêmico 2009, mas também as mortes associadas a qualquer tipo de influenza, mais a combinação pneumonia+influenza. Pela nova definição de caso adotada pelo governo americano, de 30 de agosto a 3 de outubro, houve 240 mortes associadas a qualquer tipo de influenza mais 1.544 mortes por pneumonia e influenza. As informações estão no site http://www.cdc.gov/flu/weekly/ [Ou seja, as novas estatisticas dos EUA superestimam as mortes se comparadas com os critérios brasileiros, de modo que estamos MUITO pior que os EUA].

- Reitera-se que o cálculo da taxa de letalidade em relação ao total de casos de influenza não é mais utilizado como parâmetro para monitorar o comportamento da doença, uma vez que os casos leves não são mais notificados, exceto em surtos. Esta conduta tem sido preconizada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) desde julho e seguida pela maioria dos países, com priorização para o monitoramento de casos graves por influenza. [Isso quer dizer que perdemos qualquer conhecimento sobre o R0 epidemiológico e que não temos a menor noção da porcentagem de população brasileira que foi infectada na primeira onda]
.
- O acréscimo no número de óbitos em relação ao último boletim (divulgado em 16 de setembro)NÃO SE REFERE A CASOS NOVOS DE PESSOAS QUE MORRERAM NO PERÍODO ANALISADO, mas aos casos que tiveram resultado de teste laboratorial concluído entre 12 de setembro e 10 de outubro (SE 36 e SE 40, respectivamente). [Ou seja, os dados de óbitos estão subestimados e atrasados].

MULHERES E GESTANTES

• Um total de 5.369 mulheres em idade fértil (15 a 49 anos) tiveram resultado positivo para o novo vírus A(H1N1) e desenvolveram a forma grave da doença.

• Destas, 1.414 mulheres estavam grávidas. Entre as gestantes, 135 morreram, [ou seja, quase 10% das grávidas em estado grave morreram! E embora a proporção de gravidas na população de mulheres seja pequena (menor que 5% ?), houve um número desproporcional de casos graves e óbitos nessa classe. Por que? A gripe H1N1 não é igual ou mesmo mais fraca que uma gripe sazonal?

2. SITUAÇÃO NO MUNDO

• Com a proximidade do inverno nas regiões temperadas do hemisfério Norte, observa-se, nas últimas três semanas epidemiológicas, aumento nas taxas de transmissão de doença respiratória na América do Norte, Europa Ocidental e Norte da Ásia.

• No link abaixo, observa-se o mapa de tendência de doenças respiratórias no mundo, com dados até 4 de outubro. A tendência é de crescimento em diversos países do Hemisfério Norte, incluindo Estados Unidos, México, Canadá, Reino Unido e Espanha; e de queda em alguns países do Hemisfério Sul, incluindo o Brasil. [O que essa informação é relevante para o Brasil? O aumento nos outros países não justifica os números absurdos de óbitos no Brasil!]

http://gamapserver.who.int/h1n1/trend-resp-diseases/h1n1_trend-resp-diseases.html

• Com relação à resistência ao antiviral fosfato de oseltamivir, até 4 de outubro, foi informada à OMS a ocorrência de 31 casos – nenhum no Brasil, até o momento. [Ou seja, a desculpa do MS com relação ao Tamiflu era história pra boi dormir, que alguns blogueiros de ciência compraram sem questionar].

• Outras informações estão disponíveis, em inglês, no site
http://www.who.int/csr/don/2009_10_16/en/index.html


Assessoria de Imprensa
(61) 3315-2351/3580

3 comentários:

cienciadoispontozero disse...

Pois é, Osame, a resistência ao antiviral foi o motivo alegado pelo Ministério da Saúde para recolher o medicamento das farmácias... Agora escuta (leia) essa..

Eu tenho mãe e irmã radicadas na Italia há 20 mais de anos e às vezes esquecem de como as coisas funcionam por aqui.

Quando minha mãe soube de toda essa situação já comentada por mim em posts anteriores e bem esclarecida nesse seu post, ficou preocupada com os netos (eu e um dos meus filhos temos bronquite asmática) e teve a mais normal das atitudes para uma avó: resolveu comprar uma caixa de Tamiflu pra cada um de nós e enviar pelo correio, como sempre faz com presentes nos aniversários dos netos.

Comprou o Tamiflu e pediu ao meu cunhado que postasse no correio italiano. Ele achou mais fácil usar uma empresa de remessa que sempre usa no trabalho, a UPS.

Passados 15 dias avisei que não havia recebido a encomenda. Depois de muitas ligações da minha irmã e do meu cunhado para a filial italiana da UPS, enfim, recebi o primeiro de uma série de e-mails da empresa. A encomenda havia sido retida pela ANVISA e eu teria um longo caminho burocrático a percorrer...

Resumindo muito o que me exigiram aqui: “declaração de uso e finalidade (ANVISA) para do produto com firma reconhecida (modelo anexo), a cópia de seu CPF (...) receita médica original completa assinada por profissional competente, informando a quantidade de caixas, número de cápsulas e o prazo a ser consumido, que não pode, em nenhuma circunstancia, ultrapassar 6 meses. 3 vias da declaração de uso e finalidade (1 original com assinatura reconhecida em cartório e 2 cópias). 2 cópias do CPF do destinatário. A RECEITA MÉDICA ORIGINAL COMPLETA deve ser enviada em 1 via original e 2 cópias, com o carimbo do CRM e assinatura legível do médico, detalhando quantidades e prazos do tratamento, bem como as substâncias a que se destinam.”

Claro que me irritei muito, mas cumpri a burocracia, do contrário, seria “aberto processo internacional junto ao remetente para que ele manifeste seu interesse quanto ao seu envio parado no Brasil”.

Burocracia cumprida, recebo o último dos 8 e-mails trocados com a UPS: “Prezado Cliente UPS, Gostaríamos de informar a chegada da remessa em referência em seu nome. Quanto ao pagamento (...)”

O pagamento se referia a imposto de importação (!!!!).

Valor do imposto: 115,00 reais por caixa de Tamiflu adquirida na farmácia italiana por 29 euros.

Cansada (pra usar uma expressão suave) me queixei com a funcionária da UPS da tremenda burocracia, do valor do imposto e de toda a amolação que eu não supunha que teria que passar para receber uma encomenda de uma avó preocupada.

A funcionária, talvez neta da velhinha de Taubaté, me respondeu que eu deveria entender que todos os cuidados são em favor do cidadão brasileiro, pois, tais procedimentos garantem que não entrem substâncias ilegais no país.

Sem mais comentários, né? :)

cienciadoispontozero disse...

Pois é, Osame, a resistência ao antiviral foi o motivo alegado pelo Ministério da Saúde para recolher o medicamento das farmácias... Agora escuta (leia) essa..

Eu tenho mãe e irmã radicadas na Italia há mais de 20 e às vezes esquecem de como as coisas funcionam por aqui.

Quando minha mãe soube de toda essa situação já comentada por mim em posts anteriores e bem esclarecida nesse seu post, ficou preocupada com os netos (eu e um dos meus filhos temos bronquite asmática) e teve a mais normal das atitudes para uma avó: resolveu comprar uma caixa de Tamiflu pra cada um de nós e enviar pelo correio, como sempre faz com presentes nos aniversários dos netos.

Comprou o Tamiflu e pediu ao meu cunhado que postasse no correio italiano. Ele achou mais fácil usar uma empresa de remessa que sempre usa no trabalho, a UPS.

Passados 15 dias avisei que não havia recebido a encomenda. Depois de muitas ligações da minha irmã e do meu cunhado para a filial italiana da UPS, enfim, recebi o primeiro de uma série de e-mails da empresa. A encomenda havia sido retida pela ANVISA e eu teria um longo caminho burocrático a percorrer...

Resumindo muito o que me exigiram aqui: “declaração de uso e finalidade (ANVISA) para do produto com firma reconhecida (modelo anexo), a cópia de seu CPF (...) receita médica original completa assinada por profissional competente, informando a quantidade de caixas, número de cápsulas e o prazo a ser consumido, que não pode, em nenhuma circunstancia, ultrapassar 6 meses. 3 vias da declaração de uso e finalidade (1 original com assinatura reconhecida em cartório e 2 cópias). 2 cópias do CPF do destinatário. A RECEITA MÉDICA ORIGINAL COMPLETA deve ser enviada em 1 via original e 2 cópias, com o carimbo do CRM e assinatura legível do médico, detalhando quantidades e prazos do tratamento, bem como as substâncias a que se destinam.”

Claro que me irritei muito, mas cumpri a burocracia, do contrário, seria “aberto processo internacional junto ao remetente para que ele manifeste seu interesse quanto ao seu envio parado no Brasil”.

Burocracia cumprida, recebo o último dos 8 e-mails trocados com a UPS: “Prezado Cliente UPS, Gostaríamos de informar a chegada da remessa em referência em seu nome. Quanto ao pagamento (...)”

O pagamento se referia a imposto de importação (!!!!).

Valor do imposto: 115,00 reais por caixa de Tamiflu adquirida na farmácia italiana por 29 euros.

Cansada (pra usar uma expressão suave) me queixei com a funcionária da UPS da tremenda burocracia, do valor do imposto e de toda a amolação que eu não supunha que teria que passar para receber uma encomenda de uma avó preocupada.

A funcionária, talvez neta da velhinha de Taubaté, me respondeu que eu deveria entender que todos os cuidados são em favor do cidadão brasileiro, pois, tais procedimentos garantem que não entre no país, substâncias ilegais ou drogas ilícitas.

Melhor não escrever o que pensei e respondi para a neta da velhinha de Taubaté...

Anônimo disse...

Osame, parabéns pela lucidez e franqueza na análise das mentiras propagadas pelo Ministério da Saúde.

É importante que pessoas com grande conhecimento científico elaborem críticas bem fundamentadas ao MS, tendo em vista que quase todo mundo está aceitando passivamente o discurso furado do nosso ministro.

Continue com esses textos, pois eles podem conscientizar muita gente!