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segunda-feira, outubro 05, 2009

Dawkins e o Beijo de Juliana (II)



15/Fevereiro/1999

Caros amigos,

A Pati manda lembranças...

Vocês devem estar se perguntando porque insisto em citar a minha querida cachorra nesses e-mails. Deve estar ficando claro agora... Minha relação de amor e ódio com a Pati exemplifica aquela idéia sobre emergência do amor e da cooperação a partir de motivações egoístas. Não que eu tenha planejado isso tudo. Aconteceu, simplesmente, e só me dei conta do que estava acontecendo nesse final de semana. Talvez meu inconsciente tenha preparado isso: ele é muito mais inteligente que eu...

Em todo caso, está bastante claro agora: em vez de discutir o beijo de Juliana, exemplo que foi escolhido de propósito para provocar vocês, parece ser muito mais produtivo discutir o abanar de rabo da Pati. Além disso, eu já notei que vocês, em especial o Richard por também ter filhos, não conseguem discutir o exemplo da Juliana objetivamente (creio que apenas o Jean consegue pensar nisso com o distanciamento necessário).

Assim, vamos lá. É incrível como a Pati abana o rabo e faz festa para mim, mesmo após eu lhe dar a maior bronca por ter fuçado na lata de lixo, espalhando tudo pelo chão. Ando meio nervoso tentando calcular qual a quantidade de coliformes fecais que estou ingerindo ultimamente, dado que não consigo manter o chão da cozinha limpo, sem pelos ou urina. E, mesmo assim, hoje vou à pracinha com a Pati, e vivo comprando doces para ela. Por que?

Existem vários motivos: a Pati vigia a casa à noite e quando estou fora. E desconfio de que ela talvez seja útil para caçar escorpiões... Os vizinhos aqui da rua dizem que existem muitos, devido aos terrenos baldios em volta; dizem que onde há baratas, há escorpiões, que as caçam. Bom, baratas é o que não falta aqui em casa...

Enquanto me mostrava um belo exemplar de escorpião amarelo dentro de um pote de vidro, o vizinho me falou também que os escorpiões costumam se aninhar dentro dos sapatos. É claro que não acredito nessas histórias, mas outro dia fiquei bastante intrigado com a insistência da Pati em entrar dentro do armário e ficar fuçando meus sapatos. Tudo bem, eu reconheço que não encontrei escorpião algum, e que provavelmente a Pati queria apenas roer meus sapatos...

Mas esses motivos iniciais de natureza egoísta (“Eu compro Pedigree pra você e você fica de olho nos escorpiões, ok?”) que formam a base de todo mutualismo, vão pouco a pouco gerando motivos menos e menos egoístas. Companhia na solidão, a diversão mútua com as brincadeiras (o Pitchuco é engraçadinho...), o aprendizado mútuo e... o carinho: o que a Pati mais gosta é colocar a cabeça no meu colo enquanto leio um livro.

Ou seja, o que estou tentando dizer é que sobre a base forte dos interesses mútuos e do egoísmo, daquele esterco tão fértil, é que nascem as flores da amizade e do amor. São plantas viçosas, reais, não são uma ilusão. Ou vocês acham que o mutualismo simbiótico é uma ilusão? Os liquens serão ilusões???

Talvez eu escute algum de vocês resmungando que estou confundindo a esfera da realidade e dos sentimentos humanos com a esfera biológica. “Simbiose nada tem a ver com amor!” Só posso replicar que aqueles que querem entender o humano sem entender de biologia é que são os verdadeiros iludidos.

Uma coisa a levar em conta é a questão da “consciência do egoísmo”. Uma pessoa que pratica um crime inconscientemente tem alguma culpa? Claro que sei que o abanar de rabo da Pati foi evolucionariamente gerado, assim como o sorriso dos bebês, mas será que ela sabe? É um fato a ser lembrado que os genes, mesmo sendo egoístas, não sabem que o são. As crianças e os cachorros também... Nós, homens, somos os maiores exploradores inconscientes! Quem realmente conhece e detecta o egoísmo são as mulheres (elas têm um módulo cognitivo especialmente evoluído para isso, vem da época em que a gente ia caçar e pescar enquanto elas ficavam cuidando das crianças).

Ou seja, o egoísmo moral (não o egoísmo da Teoria de Jogos) está nos olhos de quem o vê, e na vida cotidiana estamos quase todos cegos. Só é um problema real quando uma das partes não está recebendo o suficiente, uma troca injusta. Quando o mutualismo virou parasitismo. O que é uma linha difícil de ser traçada com precisão, mas que em todo caso precisa ser traçada.

Lembram aquela piada (ou será uma idéia séria?) de que as bactérias são todas fêmeas e que os machos são parasitas que descobriram como injetar seu DNA e deixar o resto do serviço com elas? Mas isso era um parasitismo ineficiente porque eliminava as hospedeiras: daí apareceu um processo aleatório que fez com que esse processo gerasse apenas uma fração dos parasitas (50% é o máximo?), de modo que isso permitia um relacionamento simbiôntico entre as duas espécies (embora eu não entenda o que as fêmeas ganharam com isso...).

Assim, tenham cautela com pessoas que não gostam de crianças ou animais.Tais pessoas não sabem o que é transformar o egoísmo em amor, criar o amor a partir do egoísmo. Na sua decepção na busca do amor puro e desinteressado, tornam-se amargas e acabam por parasitar os outros. Busca que estava condenada ao fracasso desde o início, pela biologia, pela teoria de jogos e pelo mito do pecado original (ou “defeito original de fabricação”, o egoísmo).

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