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sábado, outubro 03, 2009

O Despertar dos Mágicos e a Divulgação Científica


Inspirado pela fala de Suzana Herculano-Houzel de que disfarçar divulgação científica como auto-ajuda aumenta a venda dos livros, reflito agora sobre a possibilidade de transformar as pseudociências em auxiliares em vez de antagonistas da divulgação científica.
Vou dar alguns exemplos, de caráter pessoal:

1. Quando eu tinha 12 anos eu era, junto com meus amigos Sinézio e Eliabe, era colecionador da Revista Planeta (tudo bem que, na época, o editor era Ignácio de Loyola Brandão). O meu despertar para a vocação científica foi feito por essa revista, e também pelo livro "O Despertar dos Mágicos" de Powels e Bergier. Entre os físicos de minha geração, já constatei que esse livro também os influenciou a darem o passo duvidoso de trocar engenharia ou outra profissão tradicional pela profissão mais "esotérica" de físico. Ah sim, tinha também "O Planeta das Possibilidades Impossíveis", dos mesmos autores, que era um pouquinho mais científico...

2. Aprendi a calcular desvio-padrão e fazer o teste do Qui-quadrado com 14 anos (ou foi 13 anos e meio?). Precisava aprender por causa das experiências de telepatia, clarividência e psicocinésia que eu realizava junto com Sinézio e Eliabe. Alto nível de motivação para aprender estatística, entende?

3. Virei astronomo amador por causa do interesse por OVNIs, de novo junto com Sinézio. Fundamos o C.E.F.A. - Centro de Estudos de Fenômenos Aéreo-Espaciais, que em seu auge teve mais de 100 membros correspondentes em todo Brasil. Será que o vice-prefeito de Três Corações, membro do C.E.F.A., sabia que seus líderes eram dois moleques de 15 e 14 anos? Foi alí que aprendi a escrever: editavamos o boletim UFO Report e a Revista "Novos Horizontes", mimeografados, e vendiamos para os membros do C.E.F.A.
4. Hoje sou cético e ateu, ou pelo menos, adepto da Terceira Via. Mas como conheço a literatura pseudocientífica (devo ter lido cerca de 400 livros de pseudociência durante a juventude), tenho mais recursos para debater com o pessoal New Age do que a maior parte dos meus amigos blogueiros de ciência. Afinal, foi durante esse envolvimento com as pseudociência que comecei a me perguntar sobre o que é ciência afinal, e o que a distingue da pseudociência.
5. A partir daí comecei a ler Filosofia da Ciência, Epistemologia e História da Ciência (mais uns 600 livros, acho, até os 30 anos de idade). É por isso que eu não tenho muita paciência com blogueiro que fica falando do critério de demarcação de Popper sem nunca o ter lido (cita-se o que Carl Sagan disse de Popper!). Bom, eu li todos os livros de Popper (menos o Sociedade Aberta e Seus Inimigos), de modo que eu tenho uma pequena chance de saber o que Popper queria realmente dizer, não acham?

6. O envolvimento com as pseudociencias, e com a religião, não é algo que deforme permanentemente o caráter de uma pessoa. , Faraday era pentecostal fundamentalista, Maxwell era evangélico (e viveu depois de "A Origem das Espécies"), Lord Kelvin era criacionista. Eistein teve experiências religiosas aos 15 anos de idade, escreveu hinos ao Criador, e Godel escreveu artigos de teologia. Inúmeros físicos de renome tem ganho o prêmio Templeton nos últimos anos. Todos foram ou são ótimos cientistas, ou pelo menos, ótimos físicos. Mas como disse John D. Barrow para Richard Dawkins: "Richard, o problema é que você não entende a verdadeira natureza da ciência, afinal você não é cientista, é apenas biólogo..."

6 comentários:

Charles Morphy disse...

Osame,
Não entendi onde você quis chegar com essa postagem. Como usar a pseudo-ciência a favor da ciência?
Sim, há muita gente que partiu de um interesse juvenil por OVNIS e afins e acabou por seguir carreiras científicas mais interessantes (eu mesmo comprava a UFO quando adolescente!) - isso, é óbvio, não signfica que transcender os clichês da pseudo-ciência é o caminho natural...
Também não entendi o último comentário provocativo: "Todos foram ou são ótimos cientistas, ou pelo menos, ótimos físicos. Mas como disse John D. Barrow para Richard Dawkins: 'Richard, o problema é que você não entende a verdadeira natureza da ciência, afinal você não é cientista, é apenas biólogo...'". Sei que você tem um grande respeito pela biologia - sempre citada aqui - mas esse comentário me pareceu um pouco jocoso.
Por último, realmente tem muita gente que cita Popper sem nunca tê-lo lido (ou entendido) de fato. Da mesma forma, há muita gente que faz um monte de referências estapafúrdias sobre evolução baseadas em concepções bem particulares (para não dizer carentes de substância) sobre a teoria evolutiva! E também tem muitos blogueiros, muitos jornalistas, e muitos cientistas que discutem a respeito de coisas que pouco entendem, tomando para si uma posição de autoridade que é quase cômica (se não fosse trágica).
Por isso às vezes me pergunto qual é o ideal da divulgação científica...
Abraço!

Osame Kinouchi disse...

Charles, o comentário sobre Dawkins não é jocoso, é divertido. Obviamente Barrwow estava brincando com ele, talvez tirando um sarrinho da arrogância de Dawkins, colocando o menino no devido lugar, digamos assim.

É claro que eu respeito os biólogos, afinal eu trabalho mais em biologia do que em física atualmente e ultimamente me chamam de neurocientista, nao de físico. Acho que o que o Barrow quis dizer é que a filosofia da ciência de Dawkins era um pouco (Popperianamente) ingenua, de que ele não entende, por exemplo, como se faz física. E se alguem não entende como se faz física (note, eu não disse entender fisica, mas entender a filosofia da ciencia e aepistemologia que vem da física), então a pessoa não deveria se colocar como porta-voz dos cientistas, como faz Dawkins, não é mesmo?

Em termos de reputaçao cientifica ou contribuição para a ciência - para a ciencia de verdade, não para a divulgação cientifica - (numero e qualidade dos papers, profundidade dos trabalhos etc), acho que não podemos colocar Dawkins acima de Barrow. Lembremos que livros de divulgação não passam por peer review!

Uma curiosidade: qual você considera o melhor paper de Dawkins? Vamos comparar com o melhor paper de Barrow em termos de impacto científico?

Osame Kinouchi disse...

Quanto ao fato de que, por décadas no Brasil, o estímulo para as carreiras cientificas veio de livros sensacionalistas e pseudocientificos, acho que isso é consenso. Afinal, fora Sagan e Asimov, praticamente não se tinha acesso a livros de divulgação.

Mas concordo com você que isso talvez seja um retrato da minha geração (que foi influenciada pela geração de contracultura anticientifica de 68), e não das gerações posteriores.

Quanto ao uso de temas pseudocientificos para estimular o ensino, acho que tem um artigo ou dois sobre isso por ai, vou procurar. Um exemplo seria ensinar estatistica com experimentos de psicocinésia (jogar dadinhos tentando tirar um numero desproporciional de 6, por exemplo).

Os adolescentes, e mesmo universitários, acabam aprendendo testes estatisticos e, de quebra, ficam mais ceticos, pois eu te garanto: eles não conseguem uma proporção de seis a mais de forma estatisticamente significativa. Você duvida?

PS: Discordo fortemente de Barrow com suas ilações religiosas baseadas em principio antropico, mas sou forçado a reconhecer que ele é um bom cientista. Isso me faz lembrar o orientador do meu orientador, que é judeu ortodoxo e mesmo assim considerado o melhor fisico-matematico de sua geração.

Osame Kinouchi disse...

Acho que transcender os cliches da pseudociencia é um caminho natural - para os cientistas. Lembro-me de Feynman, na sua biografia, relatando seus experimentos em telepatia ou força do pensamento. Ou seja, tais coisas não impediram o desenvolvimento cientifico desses jovens, muito pelo contrario, o estimulou. As pessoas que ficam permanentemente em pseudociencias nuca se tornariam cientistas, mesmo que não tivessem tido contado com as pseudociencias. Você entende agora o meu ponto?

Então, por exemplo, eu acho que o misticismo quantico de Nova Era é uma oprtunidade para nós: se fizermos livros interessantes e corretos sobre quantica, o publico comprador é maior agora do que antes desse modismo. É uma oportunidade, que não devemos perder. É nesses sentido que eu disse que a pseudociencia nos ajuda, por preparar o interesse do publico. Talvez o fato de colocarem os livros de divulgação misturados entre os livros de pseudociencia, nas livrarias, ajude a atingir um publico, é melhor do que colocar os livros de divulgação na prateleira dos livros tecnicos. Bom, essa é minha tese, sei que é controversa, sei que é heresia, mas... eu gosto de controversias!

Charles Morphy disse...

Guardadas as proporções, todo mundo que se propõe a escrever um blog de ciências se coloca na posição de porta-voz da área, não? Se vamos colocar o Dawkins "no seu devido lugar", temos que fazer isso com um monte de outros autores!
Acho que a dose cavalar de críticas sobre o Dawkins tem menos a ver com a qualidade do seu trabalho e mais com a penetração do mesmo na comunidade fora da academia. Não há tanta gente descendo o pau em divulgadores da ciência que vendem menos. Vender muito não significa que o trabalho do Dawkins é ruim (ou que as obras dos outros são, necessariamente, boas).
De qualquer forma, meu comentário não procurou fazer referência ao Dawkins. A biologia é vista por muitos cientistas não-biólogos como apenas um amontoado de curisodades (se não é física, é coleção de selos?) e me pareceu que seu comentário reforçou essa perspectiva...
Quanto à pseudo-ciência, ela pode ser uma arma a ser utilizada a nosso favor, desde que tomemos uma série de cuidados. Acho que um documentário como o "Quem somos nós?", com suas extraploções esotéricas a respeito da física de partículas, da mecânica quântica, etc, etc, são mais prejudiciais do que vantajosas. Por que começar ensinando errado? Por que já não introduzir a ciência do modo correto?
Acho que grande parte das pseudo-ciências atrai por lidarem com os medos e anseios da nossa espécie, com sua incerteza em relação ao futuro e com nossa total falta de controle da realidade que nos cerca. Não sei até que ponto o interesse de alguém pelo princípio da incerteza se dá a partir de um desejo real de entender a natureza ou como uma maneira de justificar o quão imprevisíveis são nossas vidas...
Abraço!

Osame disse...

Charles,

Eu sou meio cético: acho que as pessoas se tornam religiosas ou ateias, gostam de ciencia ou desgostam, etc, mais por motivos geneticos e biologicos do que por influencia cultural.

Essas coisas tem a ver com personalidade, e a personalidade é, pelo menos, 50% genetica.

Foi por isso que aventei a hipotese de que, para pessoas com tendencias de personalidade cientifica, um namoro com a pseudociencia não implica em adesão continuada às mesmas. Por outro lado, uma pessoa com tendencias espiritualistas, mesmo se imersa em uma sociedade e educação fortemente laica, ou mesmo atéia, acabará mais cedo ou mais tarde aderindo à uma religião, ou mesmo criando uma.

Ou seja, acho que estas coisas estão mais em nossos neurotransmissores (ou falta de) do que em opções conscientes e educação cientifica.

O papel da educação cientifica é outro, ligado ao cultivo e desenvolvimento das pessoas predispostas biologicamente ao pensamento racional, não é o de formatação da personalidade...

Sei que é uma tese controversa. Mas você já tinha pensado nisso dessa forma? Que o ateismo ou a religiosidade podem ser acidentes geneticos em vez de escolhas conscientes? Ou você acredita no livre-arbítrio? Eu sou meio cetico quanto a tudo isso, acho que temos pequenas liberdades, pequenos arbitrios, mas o resto é fruto da biologia e do acaso...