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domingo, outubro 04, 2009

Nietszche estava errado? Animais reagem contra injustiça.


O Bem e o Mal são relativos. O conceito de injustiça é cultural: em uma sociedade dominada por nobres, é possível educar (treinar behavioristicamente) os plebeus para que acreditem que o status quo é justo, e se alegrar com a boa vida dos dominadores, e festejar sua própria miséria. Assim falava Zaratustra.

Mas no mundo animal, onde o efeito da cultura é menor, parece que o Bem e o Mal, ou pelo menos o cerne da moralidade que é o conceito de injustiça, não é tão fácil de ser relativizado. Chimpanzés e cães (e certamente outros animais como golfinhos, elefantes e talvez cefalópodes) não se deixam enganar: o que é justo, é justo, o que é injusto, é injusto. Talvez seja possível fazer um treinamento behaviorista com eles também, ensinar algum tipo de sado-masoquismo moral. Mas isso seria sempre a exceção, não a regra.

A partir de hoje vou tomar mais cuidado com meus cut and paste de notícias. Os comentários serão maiores, e sempre colocarei o link e o abstract do artigo original, algo que os jornais não fazem.


RICARDO BONALUME NETO
da
Folha de S.Paulo

Quem tem mais de um cachorro sabe o óbvio: que na hora de dar um biscoito ou um osso, todos têm que ter o seu próprio. Mas o "óbvio" do dono de um animal doméstico não é o mesmo da ciência. Foi preciso uma equipe de pesquisadores na Áustria testar se existe "inveja" entre cães para deixar claro que isso não só existe, como faz parte de um mecanismo biológico vinculado à evolução da cooperação em indivíduos de uma mesma espécie.

Testados, os cães deixaram claro que possuem uma natural "aversão à iniqüidade", e que fazem "greve" se não forem tratados do mesmo modo como seus semelhantes, algo já descoberto em macacos.

O estudo, liderado por Friederike Range, da Universidade de Viena (Áustria), está na edição de hoje da revista "PNAS".

Os experimentos parecem mais adestramento canino doméstico do que algo associado a um laboratório universitário. Foram testados 29 cães capazes de "dar a patinha". Os cachorros selecionados eram já adestrados nesse comando com seus donos, mas o teste envolvia "dar a patinha" para um experimentador desconhecido, acompanhados pelo dono e por um outro cachorro logo ao lado.

Leve-se em conta que são cachorros austríacos, acostumados à dieta local. Ao obedecer ao comando, o cachorro poderia receber uma recompensa boa --um pedaço de salsicha--, ou uma nem tanto --um pedaço de pão preto. Pior, poderiam não receber nada pelo "trabalho" de dar a pata.

Os testes foram planejados de modo a excluir interpretações alternativas. Os cães foram testados, por exemplo, sem receber recompensa; ou sem o cão parceiro; ou com ambos recebendo o prêmio.

"Cães têm uma forma de ciúme, e todo dono de mais de um cão sabe que se faz carinho em um, o outro vem pedir", diz Cesar Ades, especialista em comportamento animal do Instituto de Psicologia da USP, que elogia o experimento. "É um trabalho cuidadoso, eles mostram a recompensa ao cachorro, feita com vários controles. Se um recebe e o outro não, ele pára de dar a pata até antes daquele que não recebe recompensa sem contato social."

Ao contrário dos experimentos com chimpanzés, os cães não davam importância à qualidade da recompensa (salsicha ou pão preto). Já os macacos eram mais discriminantes quanto ao tipo de recompensas que ganhavam.

Os cães também sempre comiam o que recebiam; os macacos podiam rejeitar a comida se achavam que estavam sendo injustamente tratados. Só não há explicação clara no estudo para o fato de um cão não fazer distinção entre salsicha e pão, diz Ades.

Experimentos anteriores mostraram que os cães cansam da brincadeira e param de dar a pata depois de 15 a 20 vezes sem receber nenhuma recompensa.

O resultado do novo teste foi o que os donos de cães poderiam prever: animais sem prêmio pelo mesmo "trabalho" do colega ao lado logo pararam de "cumprimentar" o experimentador, e mostravam sinais de "indignação" --ficavam se coçando, bocejando, lambendo a boca ou desviando o olhar.

PS: Esta notícia me fez lembrar um aforismo, não me lembro de quem: "Dizem que o homem é o lobo do homem. Não, na verdade, o homem é o cão do homem".

The absence of reward induces inequity aversion in dogs

  1. Friederike Rangea,b,1,
  2. Lisa Horna,
  3. Zsófia Viranyib,c, and
  4. Ludwig Hubera

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Author Affiliations

  1. aDepartment of Neurobiology and Cognition Research, University of Vienna, A-1091 Wien, Austria;
  2. cKonrad Lorenz Institute for Evolution and Cognition Research, A-3422 Altenberg, Austria; and
  3. bWolf Science Center, 4645 Grünau, Austria
  1. Communicated by Frans B. M. de Waal, Emory University, Atlanta, GA, October 30, 2008 (received for review July 21, 2008)

Abstract

One crucial element for the evolution of cooperation may be the sensitivity to others' efforts and payoffs compared with one's own costs and gains. Inequity aversion is thought to be the driving force behind unselfish motivated punishment in humans constituting a powerful device for the enforcement of cooperation. Recent research indicates that non-human primates refuse to participate in cooperative problem-solving tasks if they witness a conspecific obtaining a more attractive reward for the same effort. However, little is known about non-primate species, although inequity aversion may also be expected in other cooperative species. Here, we investigated whether domestic dogs show sensitivity toward the inequity of rewards received for giving the paw to an experimenter on command in pairs of dogs. We found differences in dogs tested without food reward in the presence of a rewarded partner compared with both a baseline condition (both partners rewarded) and an asocial control situation (no reward, no partner), indicating that the presence of a rewarded partner matters. Furthermore, we showed that it was not the presence of the second dog but the fact that the partner received the food that was responsible for the change in the subjects' behavior. In contrast to primate studies, dogs did not react to differences in the quality of food or effort. Our results suggest that species other than primates show at least a primitive version of inequity aversion, which may be a precursor of a more sophisticated sensitivity to efforts and payoffs of joint interactions.

Um comentário:

Luciana disse...

Tenho 4 gatinhos, quando faço carinho em um todos vem a até mim para ganhar carinho tb. Tem um, o Policarpo, que não gosta muito de colo, mas é só eu pegar um dos seus irmãos para ele se esfregar em minhas pernas miando. O Policarpo é o mais ciumento em todos ele toma bastante leite, ai depois eu coloco para outro gato e o Policarpo que já está satisfeito vai lá e derrama o leite que o outro está tomando.