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quarta-feira, janeiro 21, 2009

Provavelmente ateus fundamentalistas não existem


OK, OK, eu sabia que isso ia dar discussão. Vitor e Luciana, não me entendam mal...


Eu me considero um cientista agnóstico fã de ficção científica (ou seja, alguém com muita imaginação) que não tem medo nem trauma de religião. Mas eu acho importante defender os agnósticos e ateus pois eles são uma minoria oprimida na sociedade atual: nenhum ateu declarado vai chegar a presidente do Brasil e os teólogos ateus são muito discriminados dentro da Igreja. Eu até defendo cotas para eles em partidos políticos e sites de relacionamentos (dado que 99% das mulheres quer um companheiro com pelo menos "um lado espiritual").


Mas não é sobre os agnósticos que o Reinaldo reclamou no seu recente post no G1. Afinal, ele também é um agnóstico, ou seja, ele sabe que não sabe, que não tem certezas e por isso precisa de fé e esperança. Reinaldo reclama é dos ateus mal humorados (não usarei a palavra fundamentalista porque fundamentalista sempre é o outro...) com tendências autoritárias, tipo o Richard Dawkins que quer botar na cadeia, usando leis de proteção ao consumidor, qualquer um que faça promessas mas não cumpra, ou apenas minta para as criancinhas (em particular os astrólogos, os pastores e o próprio Deus, caso a probabilidade dele exitir aumente). Mas daí teríamos que por na cadeia todos os políticos, 99% dos cientístas que escrevem projetos de pesquisa para agências de financiamento, todos os pais que se vestem de papai noel e 90% dos conjuges que fazem votos matrimoniais... É muita gente prá pouco Gulag, sir Dawkins!


Ou seja, Reinaldo se dá bem com agnósticos e ateus não (verbalmente) violentos, livre-pensadores que pensam em vez de repetir slogans. Agora, é preciso ter paciência de Jó para aguentar salsinhas em sua caixa de comentários sem um mínimo de cultura histórica e que fazem declarações peremptórias absurdas tipo "a religião é a origem de todas as guerras" (mesmo da I e II Guerras Mundiais?) ou "centenas de ateus foram mortos pela Inquisição" (faça uma lista de três que eu dou um livro de presente prá você! Não adianta citar o mago New Age adorador de do deus-sol Aton chamado Giordano Bruno). Ou ainda "os religiosos sempre defendem o status quo" (ué, Gandhi, Martin Luter King e a Teologia da Libertação não contam mais?). Eu acho que quem defende o status quo é o PSDB!


Pior ainda é usar como título de um documentário "The Root of all Evil". Acho que o apóstolo Paulo era mais sensato ao afirmar que a origem de todos os males (ou pelo menos de todas as crises econômicas) era o amor ao dinheiro... É o Capital, meu filho, o Capital!


Eu também ando meio cansado desses pseudo-ateus (pois acho que um verdadeiro ateu deveria ser racional e não usar falácias) que são também pseudo-cientístas: nunca leram um livrinho de sociologia da religião (prá começar, que tal o "O que é Religião?" da coleção Primeiros Passos?), esquecem que existe mesmo a disciplina de ciências da religião, e ficam emitindo opiniões bombásticas na base do achismo, do anedótico, da filosofia de barzinho. São como os pseudocientístas New Age que acham que sabem tudo de Mecânica Quântica sem nunca ter aberto um livrinho que não seja um livro New Age sobre Mecânica Quântica...

Preciso comprovar isso? Bom, no próximo post listarei todas as falácias anti-religiosas usadas nos 160 comentários que o Reinaldo recebeu até agora. Não adianta listar as falácias religiosas, porque por definição o raciocínio religioso é falacioso (Ops, isso também é uma falácia, sorry!).


Ou seja, o problema dos ateus não esclarecidos é que nada no seu ateísmo difere do ateísmo dos marxistas ingênuos (e olha que eu sou fã de Engels!). E se esse ateísmo ingênuo gerou no passado perseguições e violências contra os religiosos, então seria importante que cada neo-ateu esclarecesse quais são as garantias e salvaguardas que ele dá para que a perseguição religiosa não se repita. Agora, se ele acha que a religião é a raiz de todos os males, então a conclusão lógica e racional é que se queremos extirpar os males da humanidade pela raiz, devemos eliminar a religião. Daí para uma política de queima de livros religiosos, atentados terroristas contra igrejas e Gulags religiosos é apenas um passo. Como evitar este passo?


PS: O último parágrafo é um claro exemplo de raciocínio falacioso, o assim chamado argumento da rampa deslizante. Evite usá-lo em suas discussões, OK?

7 comentários:

luisbr disse...

Explico "como evitar esse passo" quando algum religioso conseguir explicar o mesmo para o seu lado. ;-)
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Sim. É um problema.

Osame Kinouchi disse...

Luis, não dá para explicar, pois o parágrafo é falacioso (como observei). Entretanto, pedir que o outro lado explique primeiro é um exemplo de "tu quoque", acho eu.

luisbr disse...

Hehe.
Eu captei a idéia do aspecto falacioso.
Além disso não é bem ´explicar primeiro´, é ´explicar também´.
Muitos milhões de pessoas a milhares de anos já concordavam com que eu disse. [ironia]
;-)

Serpsico disse...

Outro exemplo de afirmativa falaciosa seria: Sem as religiões as pessoas não teriam valores morais, roubariam, matariam. Só a religião é capaz de controlar os instintos mais selvagens dos homens.

A última frase pode ser substituída pela ciência, pelo conhecimento assim:
Só o conhecimento é capaz de controlar (ou civilizar) os homens.

São exemplos de afirmativas falaciosas professor Osame?

Osame Kinouchi disse...

Acho que são afirmativas erradas. Uma afirmativa falaciosa é quando envolve algum erro de inferência lógica...

Reinaldo José Lopes disse...

Oi professor,

Só agora, zapeando seu blog, dei de cara com a defesa ao meu post. Brigadão ;-) Mas, só uma correçãozinha: de agnóstico eu não tenho nada. Sou católico praticante.

Abração!

Osame Kinouchi disse...

Reinaldo, a frase dizia o seguinte:

"Afinal, ele também é um agnóstico, ou seja, ele sabe que não sabe, que não tem certezas e por isso precisa de fé e esperança".

Não acredito que os catolicos progressistas como você acreditem que se chegam a Deus através de evidencias empiricas ou raciocínio lógico. Tais coisas teriam no máximo um papel auxiliar, limitrofe. Acho que, para um cristão, a "evidencia interior" ou a "experência religiosa" é fruto da Graça, talvez com um pouco de auto-entrega = fé = confiança no grande Outro. Você não "sabe" (ou seja, é a-gnóstico) racionalmente que Deus existe, não acho que você se baseie na Razão para ser um católico. Me parece que o cristianismo, para você, é mais uma filosofia de vida e de valores (talvez com alguma pitada de experiencias misticas), não um exercício de teologia racional ou demonstrações lógicas...