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quarta-feira, janeiro 21, 2009

Por que criticar falácias é importante?


OK, OK, eu explico. Eu não sou um chato de galochas que gosta de catar ciscos de falácias nos olhos dos outros. Afinal, devido aos bias cognitivos implementados em nós pela evolução, somos todos em princípio irracionais (e só a muito custo e treinamento, racionais). Não, não é esse o ponto.

O ponto é que os divulgadores de ciência, quando não estão a par das discussões de filosofia da ciência do século XX, tendem a acreditar que a questão de delimitar o que é ciência e o que é pseudociência é algo fácil e auto-evidente. Às vezes apelam para algum catecismo de método científico (método que nenhum cientista praticante usa) ou uma frase de algum cientísta famoso definindo ciência (ao mesmo tempo que afirmam que a ciência não se baseia em argumentos de autoridade).

Quando você examina a questão com cuidado, quando você vai ao fundo do poço, você percebe que não dá para definir ciência, mas apenas criticar más práticas argumentativas e/ou métodos empíricos. Ou seja, no discurso científico, é mais importante a forma do que o conteúdo. Explico.

Em ciência, o que importa não é a verdade, mas o método de obter as evidências e o tipo de argumentação lógica. Swift, no livro as viagens de Gulliver, afirma que Marte possui dois satélites, uma afirmativa verdadeira mas cientificamente inválida nos termos da argumentação que ele usou: que Vênus tinha zero satélites, a Terra tinha 2^0 = 1 e Jupiter tinha 2^2 = 4, logo Marte deveria ter 2^1= 2 satélites por estar entre a Terra e Jupiter. Sim, que Marte tenha dois satélites é uma afirmativa verdadeira mas, na época, não científica. Que Swift sabia disso porque algum ET lhe contou é uma afirmativa falsa e não científica.

Por outro lado, se você faz um experimento com cuidado, usa estatística adequada, quadros teóricos inteligíveis, raciocínios lógicos sem falácias ou retórica excessiva (um pouquinho de retórica talvez seja necessária para "vender o peixe científico"), então você é um cientísta embora as conclusões do seu paper podem estar completamente erradas ou pelo menos ele ser totalmente irrelevante: 90% dos artigos científicos nunca são citados, nem mesmo pelos próprios autores...

De novo, o que distingue a ciência é a forma da argumentação, o tipo de evidência que conta. Mas se você começa a usar falácias, a não notar que seu discurso é falacioso, a baixar a guarda apenas porque você está discutindo política ou religião (e assim acha que os padrões intelectuais podem ser menores), bem... OK, você pode fazer isso, mas a sua opinião terá tanto valor quanto a do Zezinho da esquina, e você usar seu título de PhD para impressionar alguém é, além de falacioso, realmente desonesto...

Um comentário:

KNX disse...

Osame,

No youtube há uma animação muito instrutiva sobre o Monty Hall Problem. ver:

http://www.youtube.com/watch?v=mhlc7peGlGg

Embora o ponto importante não seja o fato de sermos, em geral, "psicologicamente irracionais", no que concerne os cientistas, em particular, a falta de um treinamento mínimo a respeito de cognitive biases me parece extremamente prejudicial.

Aliás, uma vez vi um PhD (em Química) tendo dificuldade com raciocínio contrafactual. Ele simplesmente não conseguia raciocinar "contra" a realidade. Era de dar pena...

R.