Ocorreu um erro neste gadget

sábado, setembro 27, 2008

Você prefere ser um lobo ou um cão?


O Homem é um animal social, cultural e sexual, e isto é um fato biológico: Humanos colocados em celas solitárias (ou seja, em um estado de repressão da sociabilidade, da cultura e da sexualidade) em geral adoecem.  E a plasticidade do cortex cerebral e do comportamento humano, responsável pela variabilidade cultural, está inscrita em nossos genes. 

Mas o ser humano é um bicho estranho, pois encontramos exemplos de indivíduos que rompem laços familiares de curto alcance em prol de laços culturais de longo alcance, defendem o anarquismo (a não-hierarquização) social, o pacifismo, a defesa de outros animais, o feminismo, o cuidado com os idosos etc, comportamento que contrasta com várias tendências inatas dos primatas. Não está claro se essa luta cultural contra instintos humanos é inglória. Dawkins já mostrou que os memes podem ser mais fortes que os genes, portanto não dá para saber quem vencerá. 

Como eu já comentei em outro post, basta que as mulheres valorizem culturalmente homens mais pacíficos ("faça amor, não faça guerra!") que em breves gerações haveria uma mudança genética em prol da não-violência via coevolução cultura-genes. Isso na verdade já aconteceu: em nossa vida social, somos mais parecidos com cachorros do que com lobos, e homens com cara de bebê, comportamento infantil e maturação tardia foram selecionados ao longo da evolução via seleção sexual, ou como dizem, "os homens crescem mas a única diferença é que seus brinquedos se tornam maiores". Eu imagino que isso visou um maior controle social por parte das fêmeas rumo a uma sociedade mais bonobo-like do que gorila-like.

A busca de transcêndencia em relação aos instintos biológicos, a busca de uma Utopia humana, está presente tanto na Religião como na Ciência, na verdade é seu fator comum. Pois o(a) cientista é um(a) intelectual, e isso significa por definição que ele(a) quer viver usando a Razão e não apenas os instintos. E os líderes religiosos (não o povão) também não rejeitam a Razão, pois durante 99 % da história da humanidade eles foram os intelectuais de suas respectivas comunidades: os pagés e xamãs que guardavam o conhecimento acumulado de seu povo, os astrólogos sumérios, os sacerdotes egípcios, os filósofos pitagóricos, os monges de todos os tipos,  os religiosos fundadores de Oxford, Cambridge e Harvard são os antepassados dos cientistas. 

Sendo assim, não devemos nos impressionar pelo recente debate "irracional" entre alguns cientistas ateus e alguns religiosos fundamentalistas, ou seja, um debate apaixonado onde slogans, falácias tipo Homem de Palha (ver abaixo) etc são usadas livremente com fins retóricos. Devemos apenas lembrar que um discurso falacioso em defesa de uma teoria científica não torna tal discurso ele mesmo científico - o discurso científico, idealmente, é um discurso não falacioso. Um bom curso de lógica faria um bem enorme a certos divulgadores de ciência.

Precisamos também eliminar nossos preconceitos de que líderes religiosos e teólogos sejam anti-intelectualistas ou irracionalistas. Tirando fora os teólogos racionalistas, existencialistas, céticos e mesmo ateus (e eles existem aos montes, escondidos nas faculdades de Teologia),  muitos líderes religiosos apenas divergem do Iluminismo 2.0 sobre a questão de se a Razão é uma condição suficiente para uma vida individual e social satisfatória (condição necessária eles reconhecem que ela o é) . 

Nisso são acompanhados pelos românticos de todos os naipes. Exemplo concreto: a Razão é uma condição necessária e suficiente para você alcançar um relacionamento amoroso satisfatório? Se não, então você pode se entregar à forças irracionais? A paixão romântica humana, dada que é uma força irracional, deveria ser eliminada da face da Terra para glória do Iluminismo 2.0? Apenas porque alguns (na verdade muitos, mas do que religiosos!) apaixonados matam por amor, devemos eliminar a paixão romântica, talvez usando Prozac? 

Eu tenho uma tese de que o aparente antagonismo da Bíblia em relação à ciência (aos "sábios e escribas") é que ela é um conjunto de livros românticos, contraculturais, que contêm as tradições orais de povos marginais semi-nômades (os Habiru), com um forte tom de crítica social ao que eles encaravam como a degradação da sociedade urbana Sumérica, Egípcia e Babilônica. Como os Habiru, aparentemente deram origem aos Hebreus,  me parece que a crítica social romântica (Escola de Frankfurt, Marcuse, Roszack, Rubem Alves etc.) sofreu uma grande influência da cultura bíblica. Sua crítica não é dirigida à ciência em si, mas sim aos "sábios e escribas" enquanto classe intelectual subserviente aos reis, nobres, comerciantes e defensores do status quo

Eu sinceramente acredito que o apoio dos intelectuais aos poderosos (os tais intelectuais orgânicos) tem mais chance de ser a "origem de todos os males" (em conjunção com a busca de poder e capital), do que as religiões em si, como defendido por Dawkins num recente documentário da BBC. Lembremos que os ateus greco-romanos eram aristocratas que não acreditavam que todos os homens eram irmãos e filhos do mesmo Deus pai (e é aqui que a idéia de um Deus Pai se torna politicamente importante). 

Parodiando a frase de Bill Clinton: "It is the sociopolitics, stupid!" O reino de Deus não se refere ao após-morte, mas como viver aqui e agora: numa sociedade sem castas nem nacionalismos, como proposta pelos primeiros anarquistas (os judeus) ou numa sociedade aristocrática Nietzscheniana, como proposta pelos brâmanes e cientistas darwinistas sociais. E, para quem tiver muito medo de islâmicos terroristas, sugiro que assistam o segundo episódio da terceira temporada da série Galáctica...  

Agora, voltando ao tema da seleção artificial de humanos, via cultura, eu fico pensando se as dramáticas mudanças já conseguidas na evolução canina (ver este artigo do Reinaldo Lopes no G1) não sinalizam o potencial inexplorado de uma evolução humana onde o homem deixe de ser o lobo do homem para se tornar o seu cão, ou seja, o seu melhor amigo. Why not?

Nota: falácia do homem de palha (também falácia do espantalho) é um argumento informal baseado na representação enganosa das posições defendidas por um oponente. "Armar um 'homem de palha'" ou "tramar um argumento 'homem de palha'" é criar uma posição que seja fácil de refutar, e em seguida, atribuir essa posição ao adversário. Uma falácia do homem de palha pode ser de facto uma técnica de retórica bem-sucedida (isto é, pode conseguir convencer as pessoas) mas, é realmente uma falácia desinformativa porque a argumentação real do oponente não é refutada.

O nome da falácia deriva da prática de se usar espantalhos no treinamento de combate. Em tal prática, um "homem de palha" representa o inimigo, e é criado apenas para que possa ser atacado.[1]

5 comentários:

João Carlos disse...

Todo lobo solitário sonha em ser um cão doméstico, gordo e paparicado. E todo cão doméstico, preso a uma coleira, sonha em ser um lobo, caçando livre na estepe...

Dentro de cada cão doméstico, existe um lobo latente. Mas até o lobos selvagens, devidamente abordados, brincam com os humanos como dóceis cachorrinhos.

Falácia é "o homem é o lobo do homem". Os herbívoros também se tornam violentos e agressivos quando seus "territórios" são invadidos pelos da mesma espécie. Mas o comportamento humano está bem mais para "manada" do que para "matilha".

KNX disse...

Meus dois cents:

A estrutura social de cães selvagens é extremamente exitosa. Os cães selvagens africanos são os mamíferos carnívoros com maior taxa de sucesso na criação de filhotes. Parece que cães são "bons pais".

Por falar nisso, na Argentina há um zoo que domestica tigres, leões e demais grandes felinos, tornando-os tão mansos a ponto de qualquer pessoa poder acariciá-los. Qual o segredo do sucesso? Os bichanos são criados junto com cães mais velhos, que os ensinam a se comportar na presença de humanos.

Para finalizar, frase do Carlos Heitor Cony:

Se o seu pior cão não gosta de seu melhor amigo, livre-se de seu amigo.

R.

Osame Kinouchi disse...

Renato, por que não continua o Blog/ Assim, posso colocar um link para ele no Portal ABC.

Embora os caes selvagens sejam bem adaptados, os caes domesticos, por sua simbiose mutualista com os humanos, estão dominando o mundo. Inclusive, muitos humanos estão preferindo ter cães a ter filhos!

Os cães domésticos estão usando os humanos para se reproduzirem...

João Carlos disse...

(Não resisto a "dar uma alfineitada" sobre o comentário do Osame: "Os cães domésticos estão usando os humanos para se reproduzirem...")

Ponto para eles! Se eles servem como "sucedâneo" para pessoas desajustadas a ponto de preferirem a companhia de outra espécie, não terem uma prole igualmente desajustada, tanto melhor!

Vantagem adicional: o sistema simbiótico é auto-regulatório. Quando o número de pessoas anti-sociais que preferem cães a humanos diminuir, pelo processo da seleção natural, menos cães de estimação existirão. Com a situação da crise de alimentos que se avizinha, a formação de uma nova "raça" de Dingos é extremamente improvável: os cães vira-latas nas ruas são cada dia mais raros; estão virando alimento...

KNX disse...

Humanos que preferem cães a pessoas não necessariamente são anti-sociais. Pelo contrário, muitas vezes dão mostras de serem mais procupados com os outros indivíduos (incluindo o cão). Em geral são pessoas que passeiam mais e fazem amizades com outros donos (e donas...) de cães.


Talvez o verdadeiro desajuste seja colocar mais crianças inocentes num mundo que pelo visto se tornará catastrófico. Talvez a Razão oriente certas pessoas a pensar que o melhor para a humanidade é não ter filhos, já que nossa espécie não corre nenhum perigo de escassez populacional.