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quarta-feira, abril 04, 2007

Pais fizeram homem perder pêlos, diz estudo


Acho que isso pode interessar ao Caio de Gaia. Tive que colocar o texto inteiro aqui porque o mesmo sumiu do portal G1.


Genitores de bebês teriam preferido os 'pelados' como bonitos ao longo da evolução.Perda de 'cobertura' só teria acontecido nos últimos 200 mil anos, com Homo sapiens.


Reinaldo José Lopes, do G1: Uma pesquisadora americana decidiu usar uma abordagem radical para tentar explicar um dos enigmas mais antigos da biologia humana: por que diabos nós somos primatas "nus", com pouquíssimos pêlos no corpo. Para ela, nossa aparência comparativamente bizarra é o resultado de gerações e gerações de mamães pré-humanas que tendiam a preferir os bebês com poucos pêlos, os quais acabaram se tornando campeões de sobrevivência.



O estudo da psicóloga Judith Rich Harris está numa edição recente da revista científica "Medical Hypotheses" e acaba de ganhar um prêmio organizado pela publicação para as melhores teorias na área médica. Harris, autora de diversos livros sobre o desenvolvimento humano, postula um novo mecanismo para a evolução da pele pelada, a chamada seleção parental. A analogia traçada pela pesquisadora para justificar essa terminologia é com a seleção sexual, um processo bem conhecido e muito comum na evolução das espécies animais. A seleção sexual lembra superficialmente as modas ou manias coletivas humanas. Por algum motivo difícil de precisar, as fêmeas (ou os machos) de uma espécie passam a usar alguma característica marcante do sexo oposto como indício de desejabilidade. Esse traço vira um sinal de que aquele indivíduo que a possui é um partidão como possível parceiro. Como exibir a característica favorece as chances de um indivíduo se reproduzir, a tendência é que ele se torne pai de muitos filhotes e acabe passando o chamariz de parceiros para as gerações futuras. E, ao longo de muitas gerações, o traço ligado à seleção sexual tende a se acentuar. É dessa forma que os biólogos evolutivos tentam explicar coisas extravagantes como a cauda dos pavões ou os enormes chifres de certas espécies de veado.

Mamãe seletiva

Para Harris, esse mesmo tipo de motivação arbitrária –- uma tendência cultural a preferir filhotes com menos pêlos, por exemplo -- teria surgido relativamente tarde na evolução humana, talvez há apenas 200 mil anos (data-consenso para o aparecimento do Homo sapiens em algum lugar da África, talvez perto da atual Etiópia). À primeira vista, ficar escolhendo entre bebês com base num critério tão arbitrário pode soar como burrice pura. Afinal, agüentar nove meses de gravidez e as agruras do parto exige um bocado de energia de uma mãe humana, e eliminar o rebento depois disso seria jogar todo esse esforço no lixo. Harris, no entanto, lembra que o infanticídio, sob certas circunstâncias, foi amplamente praticado entre os povos antigos, e ainda o é entre os caçadores-coletores de hoje. “Criar uma criança impunha um custo pesado sobre a mãe”, afirmou ela ao G1. “Quando a gravidez acontecia quando um filho anterior ainda não tinha desmamado, ou durante um período de escassez grave, não seria incomum o abandono do novo bebê.”

Nesses casos, porém, certas características poderiam fazer a mãe desistir do infanticídio. Bebês particularmente robustos ou bonitos –- caso dos com menos pêlos, segundo a hipótese da psicológa –- teriam mais chance de escapar, e o oposto valeria para os fracos, disformes ou muito peludos. Ao longo de gerações, o processo acabaria finalmente produzido a primeira espécie de primatas pelados da história da Terra. Outros pesquisadores da área receberam a tese com reservas, contudo. "A minha reação geral é que a quantidade de seleção necessária para fazer esses genes [ligados à pelagem] mudarem tão rápido quanto mudaram é forte demais para ser explicada como resultado de seleção sexual ou parental", disse ao G1 o paleoantropólogo John Hawks, da Universidade de Wisconsin em Madison (Estados Unidos).

O fato é que a falta de pêlos é um enigma dos grandes e já impulsionou todo tipo de teorias. Entre elas: seria uma adaptação ao calor da savana africana (errado, diz Harris, já que outros animais de tamanho parecido com o do homem são peludos e vivem ali muito bem, obrigado); maneira de se defender de parasitas que se escondem na pelagem; e até adaptação à vida semi-aquática numa fase antiga de nossa evolução. A pesquisadora americana cita outros indícios que apoiariam sua hipótese. Cientistas dataram recentemente a origem de uma espécie de piolho que se esconde nas roupas: cerca de 50 mil anos atrás. Assim, os humanos teriam começado a usar roupas há pouco tempo, e só um bicho sem pêlos precisaria de roupas.

Como os neandertais, que só separaram de nós há 500 mil anos, não sabiam costurar roupas mas viviam num clima glacial na Europa, ela aposta que eles eram peludos, diferentemente do H. sapiens, nativo da calorenta África. Ela aposta até que a preferência estética pela falta de pêlos possa ter levado à extinção dos neandertais. Conforme o traço se fixava, ele teria servido para dividir o mundo entre “nós” (pelados) e “eles” (peludos). “Nós acabamos matando e comendo os neandertais”, afirma. Segundo ela, alguns restos normalmente atribuídos a canibalismo entre neandertais na Europa poderiam, na verdade, ser restos desses banquetes. “Até onde sei, só é possível demonstrar que esses neandertais foram retalhados como se fossem animais. Não se pode afirmar quem fez o serviço”, argumenta. Resta saber se mais estudos darão força à tese. Harris diz esperar que estudos sobre o genoma humano mostrem que a ausência de pêlos é controlada por poucos genes ou até um só gene, os quais poderiam ser alvo da chamada seleção parental de forma relativamente rápida. O problema, por enquanto, continua cabeludo.

4 comentários:

Caio de Gaia disse...

A data disso não seria primeiro de Abril?

Caio de Gaia disse...

Nada como verificar as fontes originais. Esse jornal é uma espécie de vanity press para "crackpots".

“Medical Hypotheses takes a deliberately different approach to peer review. Most contemporary practice tends to discriminate against radical ideas that conflict with current theory and practice. Medical Hypotheses will publish radical ideas, so long as they are coherent and clearly expressed. Furthermore, traditional peer review can oblige authors to distort their true views to satisfy referees, and so diminish authorial responsibility and accountability. In Medical Hypotheses, the authors' responsibility for integrity, precision and accuracy of their work is paramount. The editor sees his role as a "chooser", and not a "changer": choosing to publish what are judged to be the best papers from those submitted.”

OK disse...

Caio, pare se ser tao conservador... A Medical Hypothesis fez uma opção de estar aberta, sim, a crackpots. Acho que isso visa dar uma oportunidade para aquelas ideias nao mainstream. Acredito que os verdadeiros crackpots, sao filtrados pelos referees da revista.
Na verdade, existe um problema de cultura cientifica aqui. Entre os fisicos, fazer uma hipotese (ou seja, uma ideia logicamente coerente que de conta de explicar algo, mesmo que nao tenha ainda sido testada ou tenha evidencia empirica forte a favor) é o pão com manteiga da fisica teorica. Ja os biologos, pelo desbalanço que existe na area entre teoria e experimento (com o dominio da ingenua filosofia empirista dos experimentais), não gostam de hipoteses. É por isso que uma revista assim se faz necessaria. Ah sim, ao contrario da propaganda que Newton fazia do empirismo ingles (hypothesis non fingo), ele fazia hipoteses sim, e das boas...
Da medical hypotesis até hoje li poucos artigos, por exemplo um sobre a aplicação da Hipotese de Unlearning de Crick-Mitchison (hummm, bons biologos fazem hipoteses!) para explicar a eficacia do tratamento de EMDR para stress pos-traumatico. O artigo era razoavel, nada a reclamar, tanto é que o usei como referencia...
Exemplo de crackpot (pelos criterios do detetor de crackpots de Gardner): Luca Turin e sua teoria de vibracional da deteccao do odor. Esta na wikipedia como pseudociencia. Mas um artigo recente do Physica Review Letter mostra que a ideia faz sentido e pode funcionar...
Assim, se os criterios de Gardner nao sao suficientes para separar os crackpots dos genios obsessivo-compulsivos (Wegener, Kepler etc.) entao pra que que serve?
Entao a pergunta nao deveria ser: o artigo se mantem por si mesmo, por suas ideias e evidencias? Bom, eu nao li o artigo, mas a ideia de selecao parental parece boa. Porem, parece que nao existe como decidir se ela é melhor ou pior que a hipotese dos piolhos, por exemplo. Na verdade, talvez as duas, e outras, sejam corretas, eo processo foi multifatorial. Ou sera que achar bebe bonito quando sem pelo é a tradução consciente do instinto inconsciente relacionado com uma avaliação da possibilidade dele ter parasitas ou não?
Pra finalizar, é interessante notar que pode haver um fator memetico tambem: desde as tribos brasileiras, passando pelos japoneses e egipcios antigos, nao ter pelo é sinal de maior humanidade, de distinção em relacao aos animais (os egipcios se depilavam totalmente). Entao, talvez um caminho de pesquisa seria determinar porque praticas de depilacao sao tao universais, e qual a razão biologica e cultural delas...

Caio de Gaia disse...

O problema é que o artigo está cheio de erros de facto. Quanto à teoria em si, é mais uma daquelas coisas que não se podem verificar. Curioso que fale na fase semi-aquática, é nesta revista que todos eles publicam.

Quanto ao pêlo, é em grande parte cultural. Quando eu era mais novo, homem que era homem tinha pêlos no peito, agora a criançada arranca-os. Não deixa de ser curioso que me cause um certo desconforto ver um homem adulto sem pêlos no peito.