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quinta-feira, dezembro 03, 2009

Previsões para 2010

Previsões para 2010 baseadas em chutes esclarecidos de um físico estatístico:

1. A segunda onda vai produzir mais óbitos do que a primeira, e vai pressionar o sistema de saúde de maneira mais forte.

2. O problema do Tamiflu continuará indefinido, sem que a Roche reabasteça o mercado farmaceutico brasileiro para que as pessoas possam comprar o produto em vez de depender do governo.

3. A curva epidêmica decolará antes do inverno, e da campanha de vacinação.

4. A segunda onda da gripe suína será um dos principais temas da campanha eleitoral: Serra vai dizer que foi um melhor ministro da saúde que Temporão, e Dilma vai minimizar (e o MS esconder) os números de óbitos e as estatísticas.

5. A gripe suína será o verdadeiro apagão do governo Lula.


A volta da gripe


Hélio Schwartsman, 44, é articulista da Folha. Bacharel em filosofia, publicou "Aquilae Titicans - O Segredo de Avicena - Uma Aventura no Afeganistão" em 2001. Escreve para a Folha Online às quintas.

Como de vez em quando ainda recebo mensagens de leitores me cobrando uma explicação para os 35 milhões de infectados pela gripe suína, conforme texto que elaborei para a edição impressa da Folha, acho que chegou o momento de escrever um "como ficou", agora que a sétima cavalaria, ou melhor, os CDCs (a vigilância epidemiológica dos EUA), vieram em meu socorro.

Há duas semanas, a agência norte-americana anunciou ter desenvolvido um modelo que permite estimar o número de pessoas que já contraíram o vírus naquele país: no cenário mais benigno, 14 milhões sucumbiram ao novo H1N1; no pior, 34 milhões; o melhor palpite dos CDCs é de 22 milhões, ou 7,34% da população. As contas abarcam o período que vai do aparecimento do vírus, em abril, até 17 de outubro. Como nas seis semanas que se seguiram todas as unidades de vigilância de gripe dos EUA continentais registraram intensa atividade viral --o pico epidêmico parece ter ocorrido na última semana de outubro--, é certo que o saldo final ainda vai subir consideravelmente.

A menos que acreditemos que entre as realizações do presidente Lula encontra-se a blindagem do Brasil contra o vírus da chamada gripe suína, é razoável supor que algo não muito diferente ocorreu por aqui: na melhor hipótese, muitos milhões foram infectados.

Para os que não acompanharam ou não se lembram, em 19 de julho, a Folha publicou umareportagem de minha autoria na qual mencionava a existência de um estudo de 2006 do Ministério da Saúde intitulado "Plano Brasileiro de Preparação para uma Pandemia de Influenza 3ª versão" que propunha diferentes cenários para a próxima pandemia de gripe. De acordo com o modelo estatístico ministerial, entre 35 milhões e 67 milhões de brasileiros seriam afetados pelo vírus pandêmico (de 17,5% a 33,5% da população). De 3 milhões a 16 milhões desenvolveriam algum tipo de complicação e entre 205 mil e 4,4 milhões necessitariam de hospitalização. O texto dizia que o cenário mais benigno parecia ser o mais provável.

Foi um deus-nos-acuda. O Ministério da Saúde renegou o próprio trabalho; o ombudsman da Folha disse que a matéria era o "pior erro jornalístico" ocorrido durante seu mandato; a vanguarda do movimento lulista viu no texto mais uma tentativa de golpe contra o governo do PT; o ministro da Saúde, José Gomes Temporão, afirmou que a reportagem era patética, pois aplicava ao H1N1 parâmetros válidos apenas para o H5N1, a gripe aviária.

Que o ombudsman e o público leigo não saibam bem qual é a dinâmica das gripes e os números típicos de períodos sazonais e pandêmicos, vá lá. O que me chocou foi a reação da burocracia sanitária. É lamentável que, ao menor sinal de contrariedade, o ministério abjure um estudo seu que era, por sinal, anormalmente bem feito. O mesmo vale para o comentário do ministro, que, ou não sabe bem o que é um modelo estático, ou ignora que os dois dados conhecidos para o H5N1 são 0% de taxa de transmissão entre humanos e mais de 60% de letalidade entre os casos contraídos de animais. Se o estudo tivesse de fato utilizado algum dos parâmetros do H5N1, ou não teríamos uma pandemia, ou, para colocar as coisas de modo positivo, o problema ambiental do planeta estaria em vias de resolver-se.

Como que a pôr uma cereja no bolo da desinformação, alguns dias depois da publicação da matéria diferentes lideranças do ministério começaram a dizer que a gripe sazonal mata, no Brasil, todos os anos, 70 mil pessoas. A cifra é tão pandemicamente exagerada que, ato contínuo, escrevi neste espaço uma coluna tentando mostrar que esses número não se sustenta por nenhum critério conhecido.

Bem, voltando ao estudo dos CDCs, além dos 22 milhões de infectados, ele estima que houve nos EUA entre 63 mil e 153 mil hospitalizações, mais provavelmente 98 mil. Já as mortes ficaram entre 2,5 mil e 6,1 mil, com um cenário intermediário de 3,9 mil. A faixa etária mais atingida é, como já se esperava, a dos jovens. Os óbitos pediátricos (menores de 18 anos) associados à gripe, que em períodos não pandêmicos ficam entre 60 e 80, já atingiram 540 até aqui.

É cedo para estimar o impacto da nova gripe sobre causas de morte não respiratórias, como as complicações cardiovasculares. Dado que a população mais idosa (e mais sujeita a esses óbitos) tem sido relativamente poupada pelo H1N1, que, de resto, praticamente tirou de circulação os vírus sazonais da influenza, é possível que o saldo final de mortos não se mostre muito mais elevado que o de um ano não pandêmico. No limite, poderíamos até ter uma situação paradoxal, em que o total de óbitos se reduz em relação a um ano típico. É claro que isso seria quase uma ilusão estatística, que desaparece quando se calculam não as mortes, mas os anos de vida perdidos.

Infelizmente, a metodologia dos CDCs não pode ser replicada no Brasil, pois depende de uma estrutura confiável de vigilância laboratorial dos vírus em circulação e de burocracia conscienciosa na contagem das internações hospitalares e suas causas. E, como a primeira passagem da nova gripe bem o demonstrou, nós não temos nem um nem outro.

De toda maneira, não há motivos para acreditar que o H1N1 de origem suína se comporte aqui de maneira muito diferente da registrada nos EUA. Na verdade, poderíamos até esperar que as coisas no Brasil tenham sido um pouco piores, pois enfrentamos o vírus sem vacina e eles conseguiram, nesta segunda fase, imunizar uma parte não desprezível da população.

O fato de a porção setentrional do Brasil ter clima tropical e não temperado é menos importante do que já se supôs. Até alguns anos atrás, acreditava-se que a gripe era um problema menor em países tropicais e subtropicais. Entretanto, estudos realizados principalmente em Hong Kong (que tem um sistema de saúde público bastante sofisticado, com excelente coleta de dados) sugerem que isso não é verdade. As taxas de óbitos associados à gripe ali são muito parecidas com as registradas nos EUA. Trabalhos feitos na Tailândia corroboraram esses dados. Ao que parece, o clima determina o ritmo das infecções (a estação gripal não é bem delineada em lugares quentes), mas pouco afeta o número de pessoas que acabam contaminadas em algum momento do ano. Alguns pesquisadores apostam que é nos trópicos que os vírus da gripe sofrem as mutações que os tornam pandêmicos.

É uma pena que o Ministério da Saúde tenha recaído no padrão de tentar controlar epidemias no grito, não na preparação. Até compreendo que, no momento mais agudo da crise, eles não desejassem nenhuma notícia que pudesse levar alguém a procurar um pronto-socorro. Queriam diminuir a pressão sobre o sistema (que bateu no limite em Estados como SP e RS) e evitar que pessoas não contaminadas acabassem de fato pegando o vírus em visitas inúteis aos hospitais. Só que a melhor maneira de atingir esses legítimos objetivos não é renegando os bons trabalhos científicos realizados (como o modelo estático para pandemias gripais) nem inventando novas e convenientes categorias estatísticas (como os 70 mil mortos). No longo prazo, surtos e governos passam; instituições ficam: vale mais a pena apostar na credibilidade, sem invencionices nem maquiagens. Vale lembrar que em abril, maio deveremos, no Sul e no Sudeste, enfrentar a segunda onda da gripe.

PS - Faço públicos aqui meus agradecimentos ao professor Osame Kinouchi, físico estatístico, livre-docente da USP, por nossas discussões sobre a numeralha do Ministério da Saúde.

Um comentário:

marta dantas disse...

Engraçadinho, vc não!!!