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sábado, dezembro 26, 2009

Divulgando ciências cientificamente (3)


Pois é, acho que esqueci de mandar um neutro "Boas Festas" para todos os meus amigos religiosos, semi-religiosos e não-religiosos, mas envio hoje aqui, junto com um Feliz Ano Novo!

A cada dia que passa eu fico sinceramente admirado com a paciência, a lógica e o tempo livre do Takata (por falar nisso, Roberto, eu sei que sou velhinho mas você pode me chamar simplesmente de Osame, não precisa escrever "prof. Kinouchi", OK?). Ele compilou toda a nossa discussão e os comentários recebido em uma única página, que pode ser acessada aqui.

Uma questão que me surgiu é se esse debate sobre a relação entre mídias de entretenimento e divulgação científica já ocorreu entre o pessoal mais escolado em Divulgação/difusão Científica (DC) em nosso país, ou seja, nos diversos encontros e livros publicados sobre a área. Imagino que o Roberto vai descobri um simpósio sobre o tema com uma ou duas Googladas...

Em todo caso, acho que com o desenrolar dos debates e comentários dos outros participantes (Tatiane Nahas, Lacy Barca) as coisas ficaram mais claras. Pelo que entendi, Roberto defende que:

1. Mídias propriamente educativas possuem maior qualidade educacional do que mídias de entretenimento: um documentário da BBC sobre buracos negros é ordens de magnitude mais correto do que o recente filme Star Trek (no que tange a buracos negros, claro!).

2. Nesse sentido, não faz sentido propor que mídias de entretenimento constituam uma etapa anterior necessária no processo de DV: game especificamente educativo pode, Spore não pode; livro de DV pode, de FC não pode; documentário pode, blockbuster não pode; "Cosmos" de Carl Sagan pode, "The Big Bang Theory" não pode. Ou seja, acho que a tese do Roberto seria a de que mídias de entretenimento não são ambientes adequados para o processo de DC.

3. Na discussão, com a participação de Tati e Lacy, ficou mais claro de que estamos discutindo três pólos, e não dois: Educação, Arte e Entretenimento. Neste post, não discutirei a questão da Arte enquanto mídia (A literatura de Borges contribui para a DV? A "Arte Fractal" contribui para a DV? O papel do Teatro, da Poesia ou da Fotografia na DV?) e nem mesmo a questão da arte popular (Literatura de Cordel e DV?) mas sim o caso mais espinhoso dos objetos culturais da indústria de entretenimento e a DV. Pois acho que é em relação a isso que Roberto quer aplicar sua tese de que "Melhor divulgação/difusão nenhuma do que divulgação/difusão errada!", pois conceitos erroneamente aprendidos seriam de difícil desaprendizagem e competem com a educação escolar ainda me parece por demais radical.

Vou insistir no debate porque pretendo fazer um grande agradecimento ao Roberto Takata (e os outros comentaristas) no artigo que estou escrevendo sobre Linguagem cotidiana e metáforas científicas.

Acho que uma frase ambígua minha foi o motivo principal com que Roberto "encalacrou":

Mas chamo a atenção que a frase "divulgação/difusão ruim é pior do que divulgação/difusão alguma" não se refere a isso. Ela se refere à proposta de usar esses produtos culturais como forma de divulgação/difusão per se: "Música, mangás, humor, stand-up comedy são mídias populares entre os jovens que recebem pouca (nenhuma?) atenção em termos de torná-las mídias de divulgação científica. Talvez o campo da DV sofra da doença de textolatria, talvez por causa de nossa papirolatria como cientistas. No máximo, usamos formatos de alta-cultura tipo museus e exposições de fotografia científica", "é um trabalho anterior necessário ao ato de divulgação e educação científica (que correspondem a outros momentos de um processo)." (aqui, negritos meus).

O uso pedagógico de filmes é o próprio ato de educação científica. Se se vai exibir filmes em sala não há uma necessidade exposição anterior deles.

Aliás, dado psicológico que se constata nos estudos que citei nas postagens anteriores: professores não devem exibir os filmes - especialmente os ruins - para comentar depois, vai ter mais trabalho... Devem apresentar a aula antes, enfatizar as armadilhas e depois exibir os filmes, fazendo os alunos buscarem os erros. Podem ainda intercalar trechos - com comentários imediatos (e ainda assim é arriscado).

Note-se que há uma diferença entre usar filmes como recursos didáticos - como contraexemplos, digamos - e produzir tais filmes (ou outros produtos culturais) como uma estratégia de difusão/divulgação.

Fazer limonada dado que lhes atiraram limões é diferente de provocar guerras de limões para ter suco depois.

Acho que Roberto não gostou da frase grifada em vermelho, em especial às palavras "trabalho anterior necessário". Para ele, o trabalho que proponho (aumentar a qualidade das informações científicas difundidas dentro dos objetos de entretenimento, sejam filmes, sit-coms, desenhos animados, mangás ou games) não seria nem anterior nem necessário.

Acho que o Roberto está certo nisso (em termos estritos de lógica Aristotélica). Acho que tenho que fazer um "mea culpa" por usar tal frase retórica. O que eu quis dizer, em termos mais explícitos, é:
  • As crianças entram em contato com tais objetos da indústria de entretenimento de forma "anterior" à educação científica formal. O mesmo pode se dizer para a maior parte dos adultos. Ou seja, o primeiro contato que as pessoas têm com a ciência é via a industria cultural e não via a mídia educativa ou a educação formal.
  • Sendo assim, o processo de contato com conceitos científicos se passa segundo as etapas de absorção no Ambiente Cultural (AC), depois Divulgação Científica (DC) e talvez Educação Científica (EC), de forma descritiva, sem julgamento de valor, e não de forma prescritiva-normativa, ou seja, eu descrevo o que acontece e não o que deveria acontecer). Foi a sequência AC -> DC -> EC que eu chamei de etapas de um processo.
Então, a minha tese pode ser resumida assim: tanto a etapa EC como a etapa DC têm sido estudadas e trabalhos importantes têm sido implementados. Mas existe uma oportunidade praticamente inexplorada de educadores e divulgadores de intervirem na etapa AC (por exemplo, como consultores, quem sabe, e talvez como produtores) e essa intervenção seria um "trabalho anterior" (no sentido de que AC é anterior à DC) e "necessário" (não como necessidade lógica, mas como necessidade prática, dado que grande parcela da população só tem acesso à AC e não à DC ou EC).

Ou seja, o que eu quis destacar é que existe um nicho, uma oportunidade. Takata diz que tal nicho não deveria ser explorado porque o resultado final seria deseducativo. Meu argumento principal é um experimento de pensamento (gedanken experiment) contrafctual:

Dado que 99% da Ficção Científica é lixo, vamos rodar de novo o tape da história do século XX (fazendo uma simulação) e eliminar completamente a FC da indústria cultural. Na sua opinião, isso teria produzido uma população mais educada cientificamente ou menos educada? A má difusão de conceitos científicos realmente é pior que difusão nenhuma?
PS: Acho que isso poderia ser pesquisado de forma mais objetiva entrevistando-se cientistas atuantes e perguntando qual o papel que a FC teve (se teve algum) na sua vocação e formação científica. Eu acredito que, para muitos, o esquema FC -> DC -> EC irá se manifestar, ou seja, a FC atuou como mediador anterior ao processo de divulgação/educação científica.

2 comentários:

none disse...

O "tempo livre" é postagem de noite. Não ter família pra sustentar ajuda.

Dito isso, acho que há ainda coisas que eu não disse nem sugeri que está sendo atribuída a mim ou implicada como consequência do que eu realmente disse.

Não falei que FC seja lixo - muito menos que 99% o seja. FC deve ser tratada como ficção. (A maior parte nem FC é, mas enfim.)

Não falei tampouco que tal nicho não deva ser utilizado. Destaquei que sou reticente quanto aos resultados - necessariamente esses meios não são permissíveis a uma divulgação correta: e.g. Enterprise que não faz barulho ao explodir no espaço não tem graça. É possível que se faça consultoria, etc. Mas não como *estratégia* de difusão cultural. Se se abarca tais produtos dentro de um contexto de um programa de difusão estará passando a mensagem: "este produto não é apenas entretenimento, ele é um edutainment e seu conteúdo foi certificado". O que seria uma propaganda enganosa.

O "The Core" *teve* consultoria científica - e não foi um qq, foi um pesquisador do Jet Lab. (Embora não possamos atirar todas as culpas aos ombros do consultor - sabemos que ele não tem a palavra final, mas ele tomou parte do circo.)

Aí o diretor vende o filme como "science faction" em vez de "science fiction"...

Ou seja, contra seu gedanken temos dados concretos.

[]s,

Roberto Takata

none disse...

Ah! Também não é necessariamente verdade que as crianças entrem em contato com os produtos culturais que podem portar elementos científicos antes do que com a educação formal.

No Brasil, apenas uma minoria dos municípios possuem salas de projeção. Bibliotecas então... E, embora seja verdade que mais de 90% das residências possuam aparelhos de TV, crianças antes da idade escolar não vão se beneficiar de ouvir antes a palavra 'entropia' - ainda mais com grandes riscos de ouvi-la em um contexto errado.

[]s,

Roberto Takata