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terça-feira, dezembro 15, 2009

Mídias mal exploradas pela divulgação científica


A busca por uma aura de "respeitabilidade" talvez seja prejudicial à divulgação científica: o alvo principal da DC deveria ser as crianças e os jovens, para os quais a palavra respeitabilidade nada significa.

Música, mangás, humor, stand-up comedy são mídias populares entre os jovens que recebem pouca (nenhuma?) atenção em termos de torná-las mídias de divulgação científica. Talvez o campo da DV sofra da doença de textolatria, talvez por causa de nossa papirolatria como cientistas. No máximo, usamos formatos de alta-cultura tipo museus e exposições de fotografia científica.

Excesso de conservadorismo, timidez de propostas? Talvez algo mais básico: me parece que, em vez de perguntarmos sobre o que é mais eficiente (em termos de DV para jovens), sempre perguntamos primeiro "O que os meus colegas vão pensar de mim?" quando elaboramos nossos projetos de divulgação científica para as agências de fomento.

Talvez o problema seja uma visão limitada do que seja "divulgação". Acredito que divulgar o vocabulário científico, "acostumar o ouvido" como meus professores do IFSC diziam, como faz o sit-com The Big Bang Theory, é um trabalho anterior necessário ao ato de divulgação e educação científica (que correspondem a outros momentos de um processo). Primeiro a pessoa precisa ter ouvido falar em Big Bang ou Caos ou Fractais, depois se surgir a curiosidade ela irá atrás destes conceitos.

Aumentar o vocabulário científico de uma pessoa implica em aumentar seu seu vocabulário metafórico e poder de expressão: em vez dela dizer que "O PMDB fica em um movimento pendular entre o PT e o PSDB" (o que é uma metáfora bastante pobre), ela dirá que "O PMDB fica em um movimento caótico entre o PT e o PSDB (o que é bem mais descritivo). E a expressão jornalística absurda "Serra oscilou para cima três pontos" seria varrida do mapa, sendo substituída por "Serra flutuou três pontos" ou algo do tipo.

Ano que vem o Laboratório de Divulgação Científica e Cientometria irá patrocinar o I Festival de Música Popular Científica - uma espécie de American Idol Científico para a garotada. Custo total do evento? R$ 3000, se tanto.


Existe um teorema que diz que humoristas são inteligentes e mentalmente rápidos. Havia o mesmo teorema sobre cientistas, mas não sei se ainda é válido (respeitabilidade e humor não combinam muito bem).

OK, OK, eu sei que você não conseguiu aquela bolsa de pós-doc. Mas, se você se considera rápido e inteligente, talvez possa iniciar uma carreira em stand-up comedy mesmo sem patrocínio do CNPq. Em tempos de The Big Bang Theory, você terá um público enorme e fiel no Brasil.

PS: Youtubes do cientista comediante aqui.


12 comentários:

none disse...

O problema é que nesse de "ouvir falar", acabam aprendendo o vocabulário errado. Qtas vezes não ouvimos a expressão "código genético" como sinônimo de "material genético", "ADN" ou "genoma"?

"Está no meu código genético cantar". Cientista meio mal humorado: "Seu código genético é o mesmo das bactérias. Bactérias, ao que se sabe, não cantam."

E os pseudos muitas vezes se valem de vocabulários científicos (ou imitando o vocabulário científico) para impressionar a patuléia (sensu Elio Gaspari)

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Takata,

Como eu disse, é um trabalho anterior. Inclusive, as más interpretações dão ótimos ganchos para um aprofundamento do assunto.

Ou seja, minha tese é que os conceitos cientificos precisam primeiro entrar dentro da cultura popular (pop culture) antes de serem elaborados em um nível de alta cultura universitária.

Minha tese seria que um conceito cientifico, para se difundir, segue o caminho:
1. Nem ao menos errado.
2. Errado.
3. Mais ou menos errado.
4. Menos errado.

Por exemplo, 99,9% das pessoas tem uma visão equivocada do conceito de energia: a visão de que energia seja uma substancia ou materia sutil, tipo Calorico, que pode ser armazenada (no sentido que se armazena agua) ou passada de uma pessoa para outra por imposição de mãos.

Ficam fascinadas quando se explica que energia não é uma substância mas um numero que se conserva nas interações fisicas, ou seja, que a melhor analogia seria o conceito de "dinheiro" (valor monetário) em uma economia ficticia onde a soma do valor se conserva.

Assim, energia cinética seria o análogo ao dinheiro no bolso, os vários tipos de energia potencial seriam os varios tipos de dinheiro potencial "armazenado em caixas eletronicos, aplicações financeiras etc).

Mas para prover este tipo de esclarecimento, primeiro a pessoa precisa ter ouvido a palavra "energia" alguma vez na sua vida, mesmo que de forma equivocada.

Acho que é por isso que as pessoas não percebem que o problema do desenvolvimento sustentável não é o "gasto de energia" (afinal energia se conserva) mas sim o "aumento de entropia". A palavra "entropia" não caiu ainda no vocabulario corrente da mesma forma que energia, talvez porque justamente ela não tenha caido na cultura popular.

none disse...

Sou reticente quanto a esse caminho.

Sou testemunha de como, uma vez fixado o conceito errado de um termo, é extremamente difícil modificá-lo. Testemunha tanto como agente quanto como paciente: tem coisas q me foram passadas de modo errado q, qdo menos me dou conta, estou usando de maneira errada.

[]s,

Roberto Takata

ciencianamidia disse...

Gostei do argumento, Osame! Em especial a ótima complementação no exemplo energia/dinheiro que vc deu ao Roberto!

Davi Barreto disse...

Eu um dia resolvi fazer um post sobre humor e ciência no meu blog e acabei achando esse cara chamado Brian Mallow no youtube que trabalha exatamente com Stand-up Comedy..
O cara é muito engraçado..

http://bioconnection.blogspot.com/2009/08/humorciencia-nem-tudo-esta-perdido.html

Aí tem um vídeo que eu mesmo legendei por isso ficou meio ruim.. mas dá pra ter uma idéia do trabalho do cara

Soninha Francine disse...

Um conceito pode ser aprendido de forma errada ainda que ou principalmente se não houver nenhum esforço para difundi-lo... Se o uso correto ficar restrito à comunidade científica, poderemos continuar falando de energia de um modo todo torto (ou de modo análogo, metafórico, sem purismos, oras. Muitas palavras mudam de sentido quando caem no popular, não só as expressões científicas). Então, se para evitar a difusão errada a gente tentar evitar a difusão em si, vamos acabar só com a parte ruim da coisa (o erro) e ficar sem a boa (a difusão de uma ideia!)

none disse...

Soninha,

Mas ideia *não* é *não* fazer a divulgação.

E sim fazer a divulgação *com* a preocupação de se usar os termos corretamente.

E divulgação ruim é pior do que divulgação alguma.

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Takata,

Acho que essa é a sua tese:

E divulgação ruim é pior do que divulgação alguma.

E você precisa arranjar argumentos a favor. Ela é uma tese muito certinha, muito "razoável", muito alinhada com a idéia de cultura universitária ou alta cultura.

A minha tese é justamente o oposto: a má divulgação produz o gancho para a boa divulgação. Exemplo: acho que tem muito mais gente hoje disposta a ler um artigo sobre Mecanica Quantica depois do infeliz filme-livro "Quem Somos Nós". E, claro, The Big Bang Theory é muito melhor (e cientifico!).

O gancho agora já existe, é necessário que os divulgadores cientificos aproveitem a oportunidade. Antes, se voce falasse em Quantica ou Supercordas, as pessoas responderiam "O que?"

Hoje voce vai ter um publico interessado. Vc não precisa criar o publico para a divulgação, ele já "acostumou os ouvidos" com o jargão.

Então a minha tese é contraintuitiva, ela vai na contramão do viés educacional tradicional. Não é, porém, uma tese ingênua: ela se baseia em estudos de como as pessoas realmente aprendem conceitos, como conceitos novos são incorporados na rede e no vocabulario das pessoas, como se formam mapas conceituais, o papel das metáforas na capacidade de expressão de idéias das pessoas etc.

Ou seja, estou argumentando, de forma bem camarada (é dificil expressar aqui que estou sorrindo), que a sua tese não é óbvia a priori: é "razoável", ou até mesmo é uma radicalização de um lugar comum (deveriamos extinguir a SuperInteressante e matar todos os jornalistas que fazem má divulgação científica?) mas, no final, não corresponde ao processo real de absorção de conceitos cientificos pelo público.

none disse...

Kino,

Eu *apresentei* argumentos. Ok, podem contar meio na base do "indícios anedóticos", mas é muito mais difícil desarraigar um conceito errôneo.

Podemos listar um número muito grande de conceitos errados, que há muito se sabe que estão errados, mas persistem.

Citei o caso do código genético. Cito, então, o caso da Amazônia como pulmão do mundo. Cito a ideia de que o espermatozoide não introduz mitocôndrios no óvulo. Cito a evolução como "sobrevivência dos mais fortes". Cito o vácuo como puxando a matéria.

E podemos citar a situação atual do conhecimento científico não só da população em geral como dos alunos treinados em áreas de ciências.

A situação atual *não* é da divulgação correta, mas sim da divulgação incorreta. Nós já experimentamos essa tese de que divulgação ruim é melhor do que nenhuma. Nós *temos* divulgação ruim - a começar nas escolas. E nós temos uma cultura científica que é desastrosa para danosa: podemos contabiilzar a quantidade de vidas perdidas pelo mau conhecimento científico.

De outro modo, como você diz: seria uma tese mainstream. Então, o ônus da prova é invertido: a tese não-óbvia é que precisaria mostrar sua validade (ou a invalidade da tese supostamente atual).

[]s,

Roberto Takata

none disse...

Aqui um estudo que mostra como a preconcepção errônea de conceitos biológicos prejudica a compreensão correta pós-treinamento.

http://delivery.acm.org/10.1145/1160000/1150198/p958-manzey.pdf
-----------

[]s,

Roberto Takata

none disse...

Desenvolvi melhor em uma postagem:
http://genereporter.blogspot.com/2009/12/divagacao-cientifica-divulgando.html

[]s,

Roberto Takata

Osame Kinouchi disse...

Roberto, vou pensar melhor no assunto (e ler o seu post!). Mas vai ter réplica... risos.