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quarta-feira, abril 08, 2009

Alguns pensamentos soltos sobre Ciência e Pseudociência


Maria Guimarães do Ciência e Idéias sugeriu no Roda de Ciência (do qual este post faz parte) que eu transformasse meus comentários em um post. Favor deixar os comentários lá! Aqui vai, mas ainda sem muita ponderação, pois estou fazendo meu relatório bianual (o último!) da Comissão de Regime de Trabalho da USP, o relatório trianual de bolsa de pesquisa do CNPq (que será quase o mesmo...), trabalhando no novo artigo sobre medidas de centralidade na rede de ingredientes culinários com Adriano, Roque e Rosa (lembrar de contatar o Peter Riegler) e preparando o seminário Ciência e Religião a ser dado no Espaço de Cultura e Extensão (rua 9 de Julho em ribeirão) no dia 14 de abril, às 17 horas. Ufa!

Vamos definir pseudociência primeiro? Proponho a seguinte definição mínima: uma afirmação ou teoria é pseudocientífica se ela contradiz teorias científicas bem estabelecidas, não dá conta de forma honesta das evidências contrárias (por exemplo, só o faz apelando a teorias conspiratórias) e AO MESMO TEMPO afirma de modo forte que continua a "ser científica".

Assim, se uma corrente filosófica ou escola (ou religião) não afirmam ser científicas, então não são pseudocientíficias por esta definição: ou seja, elas nao tentaram passar por científicas (dai o adjetivo pseudo) quando não o eram.

Neste esquema, a Psicanálise, o Camdomblé e a Teologia da Libertação não são pseudocientíficas, mas a o Criacionismo científico, a Cientologia e o Espiritismo seriam (apenas na medida que afirmam que possuem bases científicas sólidas que na verdade não possuem).

Achei o tom do post do Igor meio rigoroso, ele elimina a Economia e a Meteorologia como campos cientificos (para nao falar das ciencias sociais) pois em tais áreas nao é possivel fazer previsoes. Ou alguém previu (cientificamente) a crise mundial?

E eu aprendi em "Contra o Método" de Feyrabend e "A Estrutura das Revoluções Científicas" de Kuhn que o processo cientifico nao é tão certinho, progressivo e linear assim. Acho que existem práticas metodológicas (usar bons metodos estatísticos, evitar falácias lógicas, argmentar usando evidências etc), mas fica dificil acreditar no Método com M maiúsculo.

Talvez isso ocorra por eu ser um físico teórico que nunca obteve nenhum resultado usando algum "método científico" (afinal, eu sou um cara muito desorganizado!). O meu "método" é ler muito, conversar muito com colegas, ficar antenado com a literatura, perseguir certas idéias fixas com muiiiiiiita persistência - por exemplo que criticalidade é um conceito importante no processamento neural, por anos a fio (mais de 12 anos) - sem que haja evidência ou motivação empírica, mas apenas pela curiosidade de verificar se realmente seria possível obter tais resultados e pela intuição de que seria bonito e intrigante se realmente tal fosse o caso.

Ou seja, os físicos estatísticos computacionais como eu fazem modelos baseados em idéias e programas de pesquisas anteriores, que têm sua própria história e seus próprios problemas, tal como Inre Lakatos descreveu. Fazemos modelos para desenvolver idéias e questões já colocadas na área, ou novas questões que aparecem naturalmente, ou então alguma idéia criativa de algum colega que precisa ser melhor examinada. A motivação certamente não é o empirismo puro de cartilha, ou mesmo o método Popperiano: fenômeno - hipótese - teste - refutação - nova hipótese etc.

O método na física teórico-computacional é mais ou menos assim: idéias e modelos cujo comportamento precisam ser melhor conhecidos - uso de simulações ("experimentos") para:

1. Ver se tudo vai de acordo com nossos preconceitos (expectativas teóricas);
2. Se tudo bater, ficou um trabalho fraco, pois não tem novidade;
3. Mas se surgir algum comportamento inesperado ou curioso, existe a possibilidade de publicá-lo (a ciência é uma atividade pública, conhecimento privado existe mas não é ciência, chama-se patente ou copyright);
4. No paper é necessário discutir e tentar explicar o comportamento observado: OK, neste estágio faz-se hipóteses e as testamos, não de forma exaustiva mas apenas o suficiente para convencer os referees - afinal o tempo e a vida são finitos, o tamanho dos papers são finitos e a paciência nossa e dos referees também!
5. Não têm problema se esta falta de rigor signifique que o paper se mostrará errado ou obsoleto no futuro. No futuro, quase todos estarão! O importante é transmitir novas idéias, criticar antigas, servir de andaime (e não de ponto final) na caminhada da área de pesquisa. Um paper com erros pode ser seminal, um paper perfeito pode ser perfeitamente inútil também!

Uma melhor descrição do processo científico é a idéia de que cientistas seguem "programas de pesquisa" (Inre Lakatos). E nesses programas existe um núcleo duro de afirmações que não serão submetidas a refutações (o que equivaleria a dogmas, sim), ou talvez a uma "formulação mínima teológica, tipo Concílio de Nicéia). O tal cinturão protetor de hipóteses (ad hoc ou não) de Lakatos visa proteger, defender e estender o núcleo. Se você mudar o núcleo duro, você muda o programa de pesquisa , o que seria análogo a mutações religiosas (aparecimento de novas seitas, etc).

Ou seja, a ciência evolui através da morte de antigas idéias (e seus defensores, segundo Plank) e o surgimento de novas "seitas" na nova geração de pesquisadores. O mesmo ocorre dentro da Religião, de modo que não é nesse carater sociológico de mutação e substituição que Religião e Ciência diferem. Elas diferem mais sobre no que conta no processo de seleção, na função de fitness da "seita": compatibilidade com outras teorias teológicas, características sociológicas, econômicas, mercadológicas e psicoterapêuticas no caso das religiões e características argumentativas, compatibilidade com outras teorias, características sociológicas , econômicas e maior peso para evidências (nem sempre decisivo, porém essencial!) no caso das ciências.

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Achei também a igualdade natureza = ciência que o Igor propôs meio esquisita, porque os dois lados da equação deveriam ser da mesma natureza, mas de um lado temos ontologia e do outro lado temos epistemologia...

Dêem uma olhada em:
http://paginasdefilosofia.blogspot.com/2009/03/onde-esta-verdade.html

Eu acho que se queremos combater a pseudociência de forma eficaz, como querem os céticos, precisamos ter uma epistemologia e uma filosofia da ciência mais sofisticadas. Não adianta argumentar que os filósofos da ciência não eram cientistas (o que não é verdade no caso de Kuhn (físico) e Poincaré (matemático)).

Murray Gell-Mann (inventor da teoria dos quarks) critica o movimento cético em seu livro O Quark e o Jaguar pois acha que o movimento pode degringolar em patrulhamento cientifico. Dado que Gell-Mann é um WASP conservador (meu herói ficaria mais para o anarquista Feynman), essa crítica me parece muito séria!

Finalmente, pelo que me lembro, o Ceticismo filosófico (Hume e cia) é um movimento que lança dúvidas sobre o conhecimento científico. Céticos (filosóficos), desde os gregos antigos, não "acreditam" na Ciência, vamos dizer assim. Será que o movimento cético precisa mudar de nome ou é a corrente filosófica (antiga!) que precisaria revisar o seu?

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Pois é, se um Astrólogo disser que o Horóscopo de jornal é apenas um método simbólico de introspecção ou auto-ajuda que usa um procedimento tradicional apenas gerar novos padrões de pensamentos e perspectivas para o dia, evitando pensamentos rotineiros - ou seja, um método de brain storming individual - não vejo como acusá-lo de pseudociência (pois ele não afirmou que horóscopo era ciência!). Eu conheço pesquisadores que usam I Ching ou drogas para terem novas idéias científicas - o grande matemático Paul Erdos, por exemplo, recomendava fortes doses de café com Ritalina. Esses métodos de aleatorização do pensamento são usados na fase criativa da ciência (mutação e crossover), não na fase de avaliação crítica (seleção), e nessa fase "vale tudo".

Mas se o astrólogo afirmar que existem sim conexões fisicas entre os astros e o psiquismo humano (sejam campos físicos seja o emaranhamento quântico tao na moda depois de Quem Somos Nós 2), então ele será um pseudocientista (na minha definição).

Eu acho que a minha definição é uma definição mínima, que questiona as afirmativas ontológicas das religiões mas deixa de fora as afirmativas não ontológicas (ou pelo menos as afirmativas que se querem científicas), as diversas filosofias de vida, a arte, muito do senso comum, muito da medicina (não "baseada em evidências" mas em práticas que funcionam como tomar aspirina antes de descobrirem porque aspirina funciona), das engenharias, das técnicas, know hows, teoria de marketing, administração, economia, e mesmo das terapias com cheiro New Age ou não (psicoterapias ou terapias corporais). Basta que essas terapias não afirmem que são (ou já são) científicas, basta que elas não peçam selo ANVISA. Basta apenas reconhecer isso: que elas não são científicas e que talvez nem precisem ser...

Mesmo assim, a minha definição pega o Criacionismo, o Inteligent Design e muito da New Age tipo Quem Somos Nós como pseudocientíficas. E se o cara acredita que a reencarnação ou UFOs já foi "comprovada científicamente" mas tudo está escondino no ArXiv (digo, Arquivo X), então também ele será um pseudocientista, e não apenas um religioso...

Acho que essa delimitação é importante, porque embora a religião seja um grande concorrente da ciência em termos de ocupar memeticamente os corações e mentes da população, são as crenças pseudocientíficas tipo Homeopatia "científica", Ufologia, Deuses Astronautas e Criacionismo "Científico" etc que concorrem com as práticas científicas em seu própio campo, e é aí que a coisa pega ou deveria pegar...

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The basic theorem of interdisciplinary research states: Physicists not only know everything;
they know everything better. This theorem is wrong; it is valid only for computational statistical physicists like me - Dietrich Stauffer.

7 comentários:

Vitor Pamplona disse...

Só lembrando que uma pseudociência pode se transformar em ciência na medida em que seus defensores apresentem evidências e validações científicas de suas crenças.

Anônimo disse...

Acho que não há nada melhor do que filosofia da ciencia feita por cientistas. Cansaria de citar nomes.

Mas, na minha opinião, a boa filosofia da ciencia chega a ser normativa, enquanto que a ciencia, ela mesma, é quase um vale-tudo (fraudes, falta de "lastro" empírico, paper-makers, etc.).

E não adianta cobater a pseudo-ciencia. É fenômeno psicologico. As pessoas precisam de crenças (beliefs).

R.

Gilberto Miranda Jr. disse...

Tenho que puxar a sardinha para o meu lado, eu sou postulante a filósofo e não cientista no termo clássico da palavra. Não existe, a meu ver, prevalência sobre "quem deveria” fazer a Filosofia da Ciência, desde que essa Filosofia da Ciência cerque-se de uma argumentação plausível que coloque em causa o que realmente pode trazer de avanço e eliminação de incoerências na prática científica.

Embora seja de se esperar que um filósofo também cientista fale com mais propriedade sobre ciências que um filósofo não cientista, a exigência sine qua non desse pré-requisito é apenas pré-conceito probabilístico e incorre no risco do filósofo cientista redundar seus argumentos sem que veja fora do círculo em que está circunscrito. Não é necessário ter medo. Necessário é apenas o rigor com que se debruce sobre o que se fala, independente das credenciais envolvidas.

Gostaria, porém, de comentar a definição de pseudociência do Osame. Foi muito bem usado o termo “AO MESMO TEMPO” nos itens relacionados que definiram uma pseudociência. No entanto é bom lembrar que uma teoria que contradiga as teorias científicas bem estabelecidas, se não cumpre os outros requisitos, ela não deixa, de forma alguma, de ser ciência, se o que ela prediz a partir de seus postulados puder ser corroborado empiricamente em ambiente controlado.

Por outro lado concordo um cientista tachar como pseudociência linhas de pensamento que não reivindicam status científicos é perda de tempo e invasão de campos epistemológicos feito tanto quanto os pseudocientistas fazem em relação à ciência. Esse ponto levantado no texto é de muita relevância.

Além de postulante a filósofo sou economista de formação e o nome do meu curso é Ciências Econômicas. A Economia não é capaz de prever crise mundial tanto quanto a neurociências não é capaz de prever o comportamento de um ser sem que ele esteja encerrado num laboratório imobilizado e cheio de eletrodos na cabeça. As variáveis de um ambiente natural do qual fazemos um recorte modelar para prever os efeitos da confluência de certos elementos teóricos possuem uma tendência a ocorrer conforme o previsto, porém precisam satisfazer certas condições que, no caso de ciências humanas, é impossível de controlar e estabelecer.

Sem as informações que dão conta da totalidade desses elementos, as previsões “tendem” mas não se concretizam recorrentemente. Não existia a informação de que as famílias americanas estavam impulsionando a construção civil através de créditos que foram concedidos sem lastro em suas gerações de renda. O fato, acontecido, cria a possibilidade de se construir mecanismos de controle que a debelem no futuro. Isso é ciência, pois o desdobramento empírico daquilo que se teorizar para resolver a situação dará credibilidade à teoria ou não.

Cada ciência, dentro de suas peculiaridades, parece ter seu próprio método, que entra em vigor e é testado constantemente a partir dos resultados obtidos. Esse é o grande balizador da ciência enquanto prática e que David Hume, embora cético em relação à segurança do conhecimento real das coisas, jamais negou e lançou bases para que ela fosse assim.

Grande abraço a todos e parabéns pelo artigo.

Gilberto Miranda Júnior
http://miranda-filosofia.blogspot.com

Guilherme de Carvalho disse...

Oi Osame!

Curioso perceber sua inclinação por Lakatos. Ian Barbour (o cara do livro que vc mostra no post seguinte)está mais para o realismo crítico no que tange à relação entre religião e ciência. Por outro lado, muita gente anda mesmo estabelecendo analogias Lakatosianas entre a religião e a ciência (tipo Nancey Murphy).

Um ponto: não vejo como a sua definição questione as afirmações ontológicas das religiões. Só para dar um exemplo: a discussão sobre as relações Eu-Tu em Martin Buber (o filósofo judeu) é ontológica (e não meramente ética), mas perfeitamente além de qualquer acesso científico. E a discussão é sobre um fato bastante concreto da experiência - mas por demais particular para ser cientificamente analisável.

E a não ser que alguns estejam preparados para incluir a história entre as ciências (?), o mesmo valeria para boa parte da história das religiões.

Afinal, por "afirmações ontológicas" vc quer dizer "afirmações factuais" ou a "afirmações sobre a estrutura fundamental da realidade" (aproximando-se mais de uma ontologia filosófica)?

abr,

Guilherme

Gilberto Miranda Jr. disse...

Prezado Osame fiz um artigo em duas partes que fala sobre Teoria Científica e sua demarcação. Se puder dar uma olhadinha agradeceria demais e me sentiria muito honrado. Não poupe críticas e contrapontos se os tiver.

Abraços

Gilberto

http://miranda-filosofia.blogspot.com/2009/04/teoria-evolucao-fato-e-cientificidade.html

http://miranda-filosofia.blogspot.com/2009/04/teoria-evolucao-fato-e-cientificidade_12.html

Osame Kinouchi disse...

Ok, Gilberto, sou leigo em filosofia... risos
Para saber o que é ontologia preciso consultar a wikipedia...

Mas acho que deu pra entender: o potencial de conflito entre ciencia e religiao surge quando a religiao afirma ter evidencias cientificas a seu favor. Eu não sei nao, desconfio que John Wesley estava certo quando dizia que não é possivel chegar a Deus usando a Razão: o ateismo é uma posição filosófica com boas bases filosoficas e científicas...

Osame Kinouchi disse...

Vou colocar de outro modo. Um grande neurocientista brasileiro amigo meu me disse o seguinte: "Eu era ateu... daí experimentei maconha e meu ateismo ficou meio balançado... depois experimentei o Daime o hoje tenho altares na minha casa..." OK, a teologia afro-brasileira dele é baseada no livro "A Mente Bicameral", de Jaynes, não é nada ortodoxa... deuses e espiritos seriam entes que nos habitam, nossos cérebros seriam os "templos de carne" desses deuses e precisamos nos relacionar bem com eles para ter uma vida saudável. Uma teologia que lembra a teologia cristã do "Corpo de Cristo", da comunidade ser o local (do desenvolvimento) da "Mente de Cristo". Uma espécie de consciencia ou propriedade coletiva seguindo os moldes do livro "A Inteligencia Coletiva" de Levy.