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quarta-feira, março 19, 2008

Neolamarckismo




Não tenho muito tempo mas gostaria de contribuir para o Blog Carnival do Transferência Horizontal sobre Lamarck. Coloco aqui uma curiosa referência ao neolamarckismo que achei fazendo a busca por este termo.








Que é a teoria materialista? Diz-se que a vida consiste num incessante crescimento e desenvolvimento, e isso é verdadeiro: a vida social não é algo de imutável e cristalizado, não se detém nunca no mesmo nível, está em eterno movimento, num eterno processo de destruição e de criação. Não era por acaso que Marx dizia que o eterno movimento e a eterna destruição-criação são a substância da vida. Por isso na vida existe sempre o ‘novo’ e o ‘velho’, o que cresce e o que morre e, ao mesmo tempo, incessantemente, sempre, algo nasce... O método dialético diz que é preciso considerar a vida como ela é na realidade. A vida encontra-se em incessante movimento, por conseguinte devemos também considerar a vida no seu movimento, na sua destruição e criação. Para onde vai a vida, que é que morre, que é que nasce na vida, que é que se destrói, que é que se cria, eis que espécie de questões devem antes de mais nada interessar-nos. Tal é a primeira conclusão do método dialético.


(...)


Assim o método dialético considera o movimento da vida. Mas há movimento e movimento. Havia um movimento social nas "jornadas de dezembro", quando o proletariado ergueu a cabeça, assaltou os depósitos de armas e atacou a reação. Mas, se deve chamar movimento social também o movimento dos anos anteriores, quando o proletariado, num período de desenvolvimento "pacífico", limitava-se a greves parciais e à fundação de pequenos sindicatos. É evidente que o movimento possui diversas formas. E o método dialético diz que o movimento tem uma forma dupla: evolução e revolução. O movimento tem a forma de evolução quando os elementos progressistas continuam espontaneamente seu trabalho cotidiano e introduzem na velha ordem pequenas modificações "quantitativas". O movimento é revolucionário quando esses mesmos elementos, dominados por uma só idéia, unem-se e lançam-se contra o campo inimigo, para destruir pela raiz a velha ordem com as suas caraterísticas "qualitativas" e instaurar uma nova ordem. A evolução prepara a revolução e cria o terreno para esta, e a revolução coroa a evolução e contribui para o seu trabalho ulterior.




O mesmos processos ocorrem também na vida da natureza. A história da ciência demonstra que o método dialético é um método efetivamente científico: por toda a parte - da astronomia à sociologia - encontra confirmação a idéia de que no mundo não há nada de eterno, que tudo se modifica, tudo se desenvolve. Por conseguinte, na natureza, tudo deve ser considerado do ponto de vista do movimento, do desenvolvimento. E isso significa que o espírito da dialética penetra toda a ciência moderna. No que diz respeito às formas do movimento, no que diz respeito ao fato de que, de conformidade com a dialética, as pequenas mudanças "quantitativas" conduzem no final a grandes mudanças "qualitativas", essa lei possui igual valor também na história natural. O "sistema periódico dos elementos" de Mendeleiev demonstra claramente a grande importância que tem na historia natural o fato de surgirem das mudanças quantitativas, mudanças qualitativas.




Na biologia, a teoria do neolamarckismo, a que cede lugar o neodarwinismo, atesta a mesma coisa. Dispensamo-nos de referir outros fatos esclarecidos de maneira assaz exaustiva por F. Engels no seu "Anti-Duhring". Assim, conhecemos agora o método dialético. Sabemos que, segundo esse método, o mundo se encontra em perpétuo movimento, num perpétuo processo de destruição e de criação e que, por conseguinte, todo fenômeno, seja na natureza como na sociedade, deve ser considerado no seu movimento, no processo de destruição e de criação e não como algo cristalizado e imóvel. Sabemos também que esse mesmo movimento possui uma forma dupla: evolução e revolução.




Vladimir Ilyich Lenin
O Materialismo Dialético e o Anarquismo


É interessante que a totalidade de meus amigos físicos concordam com esta visão dinâmica de mundo: ninguém defende o Universo de Estado Estacionário, por exemplo, mas sim uma cosmologia extremamente dinâmica. Mas torcem o nariz quando percebem que isso foi dito por Lenin (e portanto deve estar errado, por definição...). Note que Lenin não deixa claro onde o Neolamarckismo seria mais revolucionário do que o Neodarwinismo, parece apenas aceitá-lo como uma nova tendência da época. Talvez tenha simpatizado com o Neolamarckismo apenas porque os darwinistas da época enfatizavam exageradamente o gradualismo na evolução, sem enfatizar suas fases revolucionárias.


Hoje, provavelmente Lenin citaria as idéias de equilíbrio puntuado de Eldredge e Gould, mas na verdade, historicamente, essas idéias foram inspiradas pelo marxismo (Gould, não sei se Eldredge, era de esquerda). Citaria também Thomas Kuhn e suas revoluções científicas, mas Kuhn também se inspirou no Engel-Marxismo. Finalmente, acho que ele citaria as idéias de avalanches históricas discutidas por Per Bak e Mark Buchanan (Ubiquity), mas Bak reconheceu em seu livro que Engel-Marx tinha dito isso antes... Não me lembro se Buchanan disse isso também, mas sei que ele certamente pensou nisso, afinal é um cara bastante culto.


Engraçado que muitos defensores do livre mercado o defendem hoje justamente porque ele favorece as revoluções tecnológicas (informática, genômica etc), Ou seja, o capitalismo é inerentemente revolucionário, não gradualista. O gradualismo social que Popper defendia em sua "Sociedade Aberta e seus inimigos" está morto: Bill Gates fez experiências sociológicas drásticas, sem controle nem comitê de ética: ele nunca respeitou nem a ordem estabelecida nem as tradições (e muito menos o livre mercado competitivo - a Microsoft oligopolista que o diga!).


Em termos de evolução tecnológica, Gates não é gradualista nem Darwiniano, mas Lamarckista (o lamarckismo funciona para a memética tecnológica) e revolucionário-Leninista: afinal, nunca foi eleito nem aceitou democracia interna dentro da Microsoft, foi uma espécie de Fidel comandando o destino de milhões de pessoas e um PIB muitas vezes maior que o de Cuba. Matou (economicamente) um sem número de adversários e concorrentes. Bill Gates foi o Lenin de nossa época...

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