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segunda-feira, abril 21, 2008

O poder do Anel


Luis Brudna, do Glúon Blog, coloca o seguinte comentário no post ABC do LDC, onde afirmei que os critérios de inclusão seguem uma "lógica fuzzy" pois se nem Popper conseguiu definir o que é Ciência, como poderíamos querer definir o que é um blog científico:

luisbr said...

Isso é um problema.
Como manter a qualidade sem fazer patrulha texto a texto?
Vai que algum blogueiro surta e passa a escrever sobre astrologia e leitura das mãos! hehe
Conhecendo a mania pseudocientífica que brasileiro tem, eu ainda acho que isso vai ocorrer cedo ou tarde.

Luís, acho que você levantou um ponto importante: dado que o ABC é um portal patrocinado pelo Departamento de Física e Matemática da FFCLRP - USP, seria o caso de que a inclusão de um link para um blog seria uma expécie de aval ou selo de qualidade IMETRO da cientificidade do blog?


Não tenho respostas prontas para isso. É de comum acordo que blogs específicos sobre pseudociências (entendidas como práticas ou teorias que se dizem fundamentadas cientificamente mas que não são avalizadas pela comunidade científica) e paraciências (entendidas como práticas ou teorias que não afirmam serem fundamentadas cientificamente) não são o objeto primordial do portal (lembrar a letra C do ABC). Assim, existe uma triagem, mas é uma triagem grossa.

Por exemplo, eu imagino que muitos psicanalistas se sentem desconfortáveis caso fossem chamados de cientístas (embora Freud não), pois afinal "todo mundo sabe" que a Psicanálise é maior e mais ampla que uma disciplina científica. Sendo assim, caso um blogueiro psicanalista como o Rogério Silva, do Freud Explica, participante da Roda da Ciência, quiser se inscrever no Portal, ele seria filtrado fora?

Por outro lado, eu tenho visto textos e comentários tão fracos (do ponto de vista científico - ou seja, cheios de falácias e pensamento sofismático) em blogs "céticos" ou de "ateísmo militante", que pretendem "defender a ciência", que uma filtragem estrita em termos de qualidade também deveria excluí-los...

Ou seja, em que sentido a Blogosfera pode divulgar ciência ou cultura científica? Será que não seria melhor dizer que o que a Blogosfera Científica faz é uma "conversação sobre ciência", como o Science Blogs da SEED afirma? Ou seja, assim como a USP não avaliza nossas conversas (na cantina) sobre ciência e filosofia, também o portal ABC não o faria. Mas patrocinar essas conversas ajudaria principalmente a enfraquecer estereótipos sobre a ciência. Isso já seria um grande feito.

Quem vai dar o selo de qualidade final de cada blog é o "mercado" (hummmm, quem diria que um dia eu me expressaria deste modo!), ou seja, os leitores e blogueiros, com as avaliações em forma de comentários, número de visitas, autoridade Technorati de cada blog etc. OK, OK, não apenas o "mercado" leitor, pois sempre estaremos "puxando a sardinha" para propósitos educativos...

O objetivo de um portal de blogs científicos poderia ser patrocinar um elenco selecionado de blogs científicos strictu sensu. Ou talvez apenas blogs pedagógicos. Talvez outros portais o façam, mas no presente estágio, o objetivo do ABC é outro: um mapeamento extensivo da blogosfera científica latu senso (até agora localizamos 130 blogs, que estão sendo convidados), uma facilitação de acesso visando catalizar sua expansão, pois acreditamos que a qualidade vai emergir da quantidade: a blogosfera científica brasileira talvez ainda não tenha massa crítica para esse salto qualitativo.

Bom, essas são tentativas de respostas, mas o problema colocado é intrigante. Assim, no I EWCLiPo - Encontro de Weblogs Científicos em Língua Portuguesa, uma das mesas redondas será dedicada à essa questão.

3 comentários:

luisbr disse...

Gostei das considerações que foram feitas.
Acho que você está no caminho certo do equilíbrio.
É só tentando que vamos saber se vai dar certo. :-)

João Carlos disse...

Interessante que o comentário sobre pseudo-ciência parta para o ataque exatamente sobre a astrologia e a quiromancia... Por que os "cientistas ortodoxos" têm tanto empenho em atacar "ocultismos" cujo "embasamento científico" é fraco (sobre quiromancia: a papiloscopia é ciência; será que nada na quiromancia é aproveitável?...), mas quando se trata de medicina ninguém admite que é uma pseudo-ciência?...

Médicos podem afirmar peremptoriamente a asneira que quiserem e manipular escandalosamente os dados de suas "pesquisas", mas ninguém tem coragem de admitir que uma anamnese tem o mesmo grau de precisão das cartas do Tarot...

Cientistas dizem asneiras, principalmente quando se trata de lidar com "crendices populares".

OK disse...

João, acho que você tem certa razão nisso: tanto a medicina como a engenharia, ou a cosmetologia por exemplo (dá pra acreditar no que os shampoos prometem?) se baseiam em práticas com grau diverso de credibilidade e, é claro, poucas são sujeitas a testes exaustivos (é por isso que existe uma nova abordagem da medicina chamada "medicina baseada em evidências"). Mas acho que poderiamos definir pseudociencia uma prática-teoria que ignora ou contesta conhecimentos cientificos, sem dar justificativas convincentes para tanto. Assim, talvez o problema com as pseudociencias ou mesmo paraciencias não é o que afirmam, mas o que negam: elas negam conhecimento estabelecido sem se basear em novas evidencias, por exemplo, quando um ufolatra fala que os ETs trouxeram os humanos de outro planeta, sem se preocupar em explicar porque somos fisiologicamente parentes dos primatas... Um reparo: existem cientistas (ou leigos) que estudam UFOs cientificamente, alguns são céticos e outros não. Nesse caso, a "Ufologia cientifica" realmente o é, no mesmo sentido que o Programa SETI é cientifico (pois ambos não conseguiram evidencias conclusivas até agora sobre suas alegações, mas não fazem afirmações que contrariam fatos bem estabelecidos).