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quarta-feira, janeiro 06, 2010

Minhas previsões para 2012



Continuando com o meu debate com o Gene Repórter, defendo agora uma relação mais tranquila (eu diria oportunista) com os milhões de sites dedicados a 2012 e filmes derivados tipo "2012'. Explicarei melhor a seguir.

Se você analisar bem, esse tipo de clima apocalíptico, paranóico, conspiratório, é um grande fenômeno cultural de massa e que não vem de hoje. Provavelmente é um reflexo psicológico das ameaças ecológicas e econômicas que pairam sobre nosso modo de vida - os atentados de 2001 e a crise econômica de 2008 foram apocalípticos para muita gente. Imagino que seja parecido com o clima cultural pós I Guerra, na década de 20 de uma Alemanha hiperinflacionária (e deu no que deu...). Esse clima me lembra também os anos 1844-1848, com expectativas tanto revolucionárias como apocaliptico-religiosas.

Talvez tudo se resuma ao fato de que a humanidade seja um grande meio excitável e que, de tempos em tempos, ondas de excitação político-religiosa contagiosa se propagam nesse meio, pois as pessoas perderam a imunidade memética da onda anterior. Outra analogia poderia ser uma espécie de bolha sociopsicológicas similar às bolhas econômicas (que também têm seu lado sociopsicológico!). Eu acredito que a conexão político-revolucionária e religiosa se dê porque ambos são aspectos do pensamento utópico. Eu até chutaria um período médio de 30 anos (uma geração cultural?) para esse tipo de ciclo de Lotka-Volterra estocástico similar aos ciclos Romantismo-Realismo examinados por Stephen Brush no curioso livro "A Temperatura da História".

Ou seja, os educadores e cientistas podem espernear a vontade, e devem fazer a sua parte para esclarecer o público (ver abaixo), mas o clima apocalíptico de 2012 só vai realmente desaparecer em 2013, digamos assim.

Mas isso é uma grande oportunidade, afinal de contas! Assim como 1844 foi o Ano da Grande Desapontamento dos Milleristas, 2012 será o Ano da Grande Decepção da Nova Era. O ano de 2013 é o estouro dessa bolha sociopsicológica. É claro que o pessoal já está preparando explicações via dissonância cognitiva para explicar por que a grande mudança terá acontecido apenas espiritualmente, mas tudo bem. O efeito pós-bolha de 2012 ainda continuará sendo ótimo para uma crítica (e auto-crítica) desse nosso desejo irracional e talvez egoísta de que o mundo acabe antes que nossa vida termine...

Enquanto isso, eu me contento pragmaticamente com a difusão (mesmo que deturpada) de vocabulário e conceitos científicos como "neutrinos", "ciclo de atividade solar", "tempestades solares" e "placas tectônicas" promovidos pelo filme (embora não exista conexão entre tempestades solares e emissão de neutrinos...). Sim, o filme podia ser melhor, tanto em roteiro (por que não explorar melhor os dilemas éticos no enfrentamento de uma extinção coletiva?) como cientificamente. Mas ainda acho que, por um simples efeito estatístico, o número de preconceitos formados é contrabalançado pelo fato de que existem agora muito mais pessoas que podem se interessar em ler sobre esses temas se baterem o olho em alguma manchete de jornalismo científico ou reportagem da Scientific American...

Cientistas criticam proposta de "2012" e indicam cenários de fim do mundo

(Assinalo em vermelho o vocabulário científico difundido)

Filme

O burburinho em torno do fim dos dias atingiu o auge com o lançamento do filme "2012", dirigido por Roland Emmerich, que já trouxe desgraças fictícias para a Terra anteriormente, com alienígenas e geleiras, em "Independence Day" e "O Dia Depois de Amanhã".

No filme, o alinhamento entre o Sol e o centro da galáxia, no dia 21 de dezembro de 2012, faz com que o astro fique ensandecido e lance na superfície da Terra inúmeras partículas subatômicas ambíguas conhecidas como neutrinos.

De alguma forma, os neutrinos se transformam em outras partículas [imagino que isso foi vagamente inspirado pelo fenômeno de oscilação entre diferentes tipos de neutrinos] e aquecem o centro da Terra. A crosta terrestre perde suas amarras e começa a se enfraquecer e deslizar por aí.

Los Angeles cai no oceano; Yellowstone explode, causando uma chuva de cinzas no continente. Ondas gigantes varrem o Himalaia, onde governos do planeta tinham construído em segredo uma frota de arcas, nas quais 400 mil pessoas selecionadas poderiam se abrigar das águas.

Porém, essa é apenas uma versão do apocalipse. Em outras variações, um planeta chamado Nibiru colide com o nosso ou o campo magnético da Terra enlouquece.

Existem centenas de livros dedicados a 2012, e milhões de sites, dependendo de que combinação de "2012" e "fim do mundo" você digite no Google.

"Tolices"

Segundo astrônomos, tudo isso é besteira.

"Grande parte do que se alega que irá ocorrer em 2012 está baseada em desejos, grandes tolices pseudocientíficas, ignorância de astronomia e um alto nível de paranoia", afirmou Ed Krupp, diretor do Griffith Observatory, em Los Angeles, e especialista em astronomia antiga, em um artigo publicado na edição de novembro da revista "Sky & Telescope".

Pessoalmente, adoro histórias sobre o fim do mundo desde que comecei a consumir ficção científica, quando era uma criança. Fazer o público se borrar nas calças é o grande lance, desde que Orson Welles transmitiu a "Guerra dos Mundos", uma notícia falsa sobre uma invasão de marcianos em Nova Jersey, em 1938.

No entanto, essa tendência tem ido longe demais, disse David Morrison, astrônomo do Ames Research Center da NASA, em Moffett Field, Califórnia. Ele é autor do vídeo no YouTube refutando a catástrofe e um dos principais pontos de contato da agência sobre a questão das profecias maias prevendo o fim dos dias.

"Fico com raiva de ver como as pessoas estão sendo manipuladas e aterrorizadas para alguém ganhar dinheiro", disse Morrison. "Não há direito ético que permita assustar crianças para ganhar dinheiro".




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