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sábado, fevereiro 28, 2009

Patrulhamento ateísta



Ainda sobre a discussão levantada pelo Reinaldo Lopes, o patrulhamento ateísta que certos cientistas ou divulgadores de ciência têm exercido, ou não, sobre seus colegas. Se você tiver dúvida sobre se é patrulhamento mesmo, basta verificar o grau de "seriedade" que o ateu assume, achando que tal coisa é um assunto decisivo, que 100% dos cientistas deveriam ser ateus (militantes?) e que é impossível ser bom cientista e ter visões religiosas (de qualquer tipo). Isso nao te lembra os chatolinos da LibeLu ou PC do B antes da queda do muro? OK, eu estou usando ad Hominen, mas num sentido humorístico... Mas em todo caso, precisamos avaliar se é patrulhamento mesmo (pressao social para conformidade de opinioes) ou críticas sérias a serem respondidas. Mas quantos ateus leram dois ou três livros de sociologia da religião (Durkhein, Peter Berger ou mesmo O que é religião, Colecao Primeiros Passsos!)? Então, como podem suas críticas desinformadas serem tomadas seriamente? é que nem conversar com New Ager sobre o significado da Mecânica Quântica, nao dá pé!

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Como o debate se ampliou, resolvi ampliar meu comentário sobre incompatibilidade entre ciência e religião.

1. A situação dos defensores do criacionismo/design inteligente/causa eficiente é no mínimo curiosa. Na literatura ocidental, Mefistófeles é “aquele que nega”, e nega especialmente a Divindade. A ironia do estado de negação é que justamente os criacionistas vivem negando os fatos, as teorias científicas que já foram experimentadas etc., assumindo rigorisamente a posição de Mefistófeles. De outro lado, contrariamente, nunca provam absolutamente nada do que afirmam.

2. A ciência está subordinada ao rigor experimental. À possibilidade de repetição e à veracidade dos fatos. Como se demonstra pela conduta dos religiosos, estes não se ocupam com a veracidade, nem mesmo com sinceridade de suas afirmações. Por isso, suas assertivas tendem a ser falsas, inverossímeis ou inverificáveis.

3. O discurso de Darwin é especialmente interessante na medida em que retira Deus e insere o acaso na seleção natural. A partir daí, a ciência evolui. Graças a isso, estuda-se a origem dos homens e dos demais animais. Calcula-se o tempo próximo da vida dos dinossauros etc. Em sentido totalmente oposto, a religião permanece estática e nega, por exemplo, a idade do planeta Terra e, também, a idade do Universo. E continua sustentando que o planeta Terra surgiu há 6.000 anos. Portanto, do meu ponto de vista, o acaso é muito mais relevante que Deus.

4. A Bíblia é só um livro. E minha biblioteca está cheia deles. Normalmente os religiosos nada sabem de literatura e vivem querendo nos dar aula de citação de textos que não conseguem compreender.

5. Os religiosos nunca colaboraram com a formação de sociedades produtivas, criativas e/ou democráticas.

6. Depois de queimar Giordano Bruno na fogueira, pelo que me lembro, o Papa não disse: ups … pisei no tomate!!!!

7. Os métodos mais bárbaros de coerção humana foram criados por religiosos. Por exemplo, a tortura foi inserida no processo medieval como forma de obter a verdade do indivíduo. Após a purificação de sua alma, o indivíduo era queimado para que pudesse subir aos céus. Isso é fato, não é ficção.

8. A religião é dogmática. Ou seja, não permite discussão sobre seus termos. Daí porque se adequa a teocracias. A ciência é dialética. Daí porque se adequa a democracias.


Entao aqui vai meu comentário:

Paulo é um ateu razoavelmente culto. Mas se arvorou como paladino nao apenas do ateismo filosofico, mas sim da ciencia e da modernidade. Entretanto, algumas de suas afirmativas sao primárias, precarias ou, caridosamente falando, inverdades. Outras sao apenas manifestacoes retoricas e falácias (tipo Straw Man ou Ad Hominen).

Cientistas, em principio, nao deveriam se expressar desta forma. Assim, fui dar uma olhada no curriculo Lattes do Paulo, apenas para prevenir (vai que o cara se torne meu proximo parecerista no CNPq!).

Nao encontrei o nome lá. Acho que Paulo nao é cientista, e portanto nao deveria se colocar como porta-voz dos cientistas praticantes (eu sou um deles). O Google apena me informa que Paulo parece ser um (ótimo) advogado, e isso explicaria sua capacidade de argumentacao e articulacao. Explicaria tambem sua tendencia em usar retorica e falacias (desde que passem despercebidas) pois imagino que para um advogado o importante é ganhar a discussao (advogados sao sofistas) e nao ganha-la usando apenas raciocinios logicos com pouca retórica (como no ideal cientificio).

Espero que Paulo me entenda: nao estou querendo desqualifica-lo, seus argumentos devem ser respondidos pelo que sao, nao estou apelando a argumento de autoridade. Mas estou questionando sua aparente autoproclamacao como defensor da pratica cientifica, pratica da qual ele nao é praticante, nao tem experiencia nem é perito. Paulo nunca seria chamado em um tribunal para emitir pareceres sobre filosofia da ciencia, metodo cientifico ou história da ciência.

Assim, gostaria de arrolar aqui quatro afirmacoes de Paulo que sao historicamente ou logicamente falsas, o que suscita a dúvida sobre se outras de suas colocacoes, tao taxativas, tambem poderiam sê-lo:

0. Paulo expressa nos itens 1 e 2 a filosofia da ciencia chamada de Verificacionismo ou Positivismo Lógico, que foi totalmente derrubada e superada pelo Falseonismo de Popper, Lakatos e seguidores. E mesmo o Popperianismo foi parcialmente refutado por Thomas Kuhn, Feyrabend e outros filósofos e sociologos da ciência (gente como Bruno Latour que realmente estudaram a prática da ciância in vivo. Conclusão: Paulo nao tem a menor idéia sobre o método científico como realmente praticado pelos cientistas...

1. Giordano Bruno nao era cientista nem pode ser considerado martir da ciencia. Era um mago renascentista que acreditava que a religiao egipcia de Aton (o Deus Sol) iria renascer na Europa e superar o Cristianismo. Era por isso que defendia Copérnico (O deus SOL-Aton deveria estar no centro do Universo!). Hoje, Giordano seria considerado um New Ager, um Erick von Daniken ou coisa pior (sua frase sobre muitos mundos habitados é mais do tipo de um ufólogo do que de um cientista). Foi queimado em uma era de intolerancia contra opinioes radicais, especialmente politicas como as dele. Mas nao creio que Paulo, com seu racionalismo cientifico, apoiaria ou defenderia Giordano hoje. Talvez pudesse ser o advogado de acusacao, dadas suas antipatias com a pseudociência (da qual Giordano era e ainda é um expoente).

2. - ”Os religiosos nunca colaboraram com a formação de sociedades produtivas, criativas e/ou democráticas.”
Acho que o livro “A ética protestante e o espírito do capitalismo", de Max Weber refuta a tese de Paulo. Mas se Paulo for anti-capitalista, podemos lembrar que Nietzsche afirma que foi o judeo-cristianismo que constituiu no Ocidente a raiz ideológica de todos os males (para Nietzsche, claro!), ou seja, do iluminismo, socialismo, do feminismo, do anarquismo e da idéia de que todos os seres humanos são irmãos, filhos do mesmo Pai, e que divisões em sociedades de castas ou fortes classes (como na Índia, Japão, Inglaterra, ou no código de Manu que Nietszche adorava) são contrárias a uma autoridade que está acima de qualquer autoridade ou poder terreno.

3. “O discurso de Darwin é especialmente interessante na medida em que retira Deus e insere o acaso na seleção natural. A partir daí, a ciência evolui. Graças a isso, estuda-se a origem dos homens e dos demais animais. Calcula-se o tempo próximo da vida dos dinossauros etc. Em sentido totalmente oposto, a religião permanece estática e nega, por exemplo, a idade do planeta Terra e, também, a idade do Universo. E continua sustentando que o planeta Terra surgiu há 6.000 anos. Portanto, do meu ponto de vista, o acaso é muito mais relevante que Deus.”

Atualmente, com excessao de uma minoria (dentro do próprio criacionismo), nenhum teólogo defende a Teoria da Young Earth (6000 anos). Entao, a afirmativa é falsa. (Importante, sou um físico que nao acredita nem em criacionismo nem em Inteligente Design, mas sim no Darwinismo Cosmológico de Lee Smolin).

Outro problema com esse tipo de afirmativa de colocar Darwin com divisor de aguas é que fica a pergunta: antes de Darwin os ateus eram irracionais ou pseudocientíficos por defenderem o ateismo, já que não havia resposta para os argumentos de desígnio de Thomas Paley na evolucão?

E talvez toda a discussão entre religiosos e ateus seja apenas que os religiosos personificam o acaso (por exemplo afirmando que ele não é totalmente desfavorável aos humanos mas é uma forca criativa, todo-poderosa (em princípio qualquer coisa pode ocorrer por acaso, tipo o Big-Bang), importante na história do universo e em nossas pequenas histórias individuais - o espírito mágico e mesmo a ciência se originam desse desejo de se proteger ou controlar o deus-acaso).

4. “A religião é dogmática. Ou seja, não permite discussão sobre seus termos.” eu nao sei nao, atá nas Escolas Dominicais existe muita discussao… e certamente nas faculdades de Teologia a coisa pega fogo (basta ver a diferenca entre Tradicionalismo, Teologia da Libertacao e Movimento Carismático).

Segundo o físico e filósofo da ciência Thomas Kunh, existe mais liberdade de debate em uma aula de Teologia do que em uma aula de Física (ver A Estrutura das Revolucoes Científicas). E o debate dentro da própria comunidade é muito lento, é preciso um grande acúmulo de anomalias antes que uma visão estabelecida (um paradigma) seja superado. É por isso que a evolucão das idéias cientéficas é bastante lenta, especialmente na Biologia, menos na Física onde se cultiva certa liberdade especulativa, não é qualquer experimento ou evidência que derruba teorias estabelecidas.

E não podemos dizer que tais teorias foram estabelecidas apenas por fatores cognitivos, pois fatores sociais modulam a velocidade de aceitacão das mesmas (sem o interesse de Bohr pelo Orientalismo e de Heisenbeg pelo Positivismo Lógico, talvez a visão de Copenhagen nao teria se estabelecido como “dogma” entre as interpreacões da mecânica quântica (e o livro de MQ do Cohen Tanoudji teria outro formato).

Mentes dogmáticas aparecem em todos os lugares, seja na ciência, seja na religião. Para quem tem experiencia prática no convívio do dia a dia com cientistas, eu não saberia dizer se eles são realmente não-dogmáticos (cada um se aferra a suas idéias preferidas!). A comunidade como um todo, por ser grande e feita de pessoas inteligentes, tende a ser menos dogmática (e olha que nem artigo em Science e Nature na década de 60 conseguiram convencer os neurocientistas   de que gap junctios eram importantes (isso foi feito 40 anos depois).

Ou seja, filosofia não pode ser reduzida a ciência. Muito do que existe nas religiões é filosofia (filosofia de vida, filosofia política, ética, auto-terapia e terapia de grupo etc). Da mesma forma, existe muita filosofia na ciência (na Epistemologia, na filosofia da física, biologia, matemática, lógica), e muitas posicões são filosóficas, nao podem ser decididas empiricamente (por exemplo, o longo debate entre Probabilistas Bayesianos e Probabilistas tradicionais, ou a discussão se a base do universo é feita por grandezas contínuas ou discretas… As pessoas podem tomar posicão, sem ter argumentos ou evidências científicas decisivas, apenas por gosto estético ou filosófico, e isso não as prejudica como cientistas (até ajuda!).

Eu acho que foi isso que o Reinaldo quis dizer: cientistas religiosos tem argumentos filosóficos para se manterem religiosos, mas não tem argumentos científicos decisivos e portanto preferem manter suas crencas em foro privado (ao contrário de certos neo-ateus…)


Um comentário:

Reinaldo José Lopes disse...

Oi professor, obrigado mesmo pelo apoio. Só acrescentando: outra coisa que eu acho preocupante é a raiva, pura e simples, dos New Atheists. Muitos deles não se contentam em dizer "vc está errado, o que vc diz não tem nada a ver", eles têm de fazer isso com o fígado. E ódio nunca é bom, e tem de ser combatido. Abraço!