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domingo, fevereiro 15, 2009

Blogar vicia?



Revista Mente e Cérebro


edição 192 - Janeiro 2009
Quando o remédio é escrever

Efeitos terapêuticos de manter blogs atraem atenção de pesquisadores por Jessica Wapner

A busca por uma vida mais saudável pode ser um dos motivos do enorme aumento do número de blogs. Estima-se que sejam cerca de 3 milhões por todo o planeta. Cientistas e escritores há anos conhecem os benefícios terapêuticos de escrever sobre experiências pessoais, pensamentos e sentimentos. Mas, além de servir como um mecanismo para aliviar o stress, expressar-se por meio da escrita traz muitos benefícios fisiológicos. Pesquisas mostram que com a prática da escrita é possível aprimorar a memória e o sono, estimular a atividade dos leucócitos e reduzir a carga viral de pacientes com aids e até mesmo acelerar a cicatrização após uma cirurgia. Um estudo publicado na revista científica Oncologist mostra que pessoas com câncer que escreviam para relatar seus sentimentos logo depois, se sentiam muito melhor, tanto mental quanto fisicamente, em comparação a pacientes que não se deram a esse trabalho.

Pesquisadores empenham-se agora em explorar as bases neurológicas em jogo, especialmente levando em conta a explosão dos blogs. De acordo com a neurocientista Alice Flaherty, da Universidade Harvard e do Hospital Geral de Massachusetts, a teoria do placebo para o sofrimento pode ser aplicada a esse caso. Como criaturas sociais, recorremos a uma variedade de comportamentos relacionados à dor. A reclamação, por exemplo, funciona como um “placebo para conseguir satisfação”, afirma Flaherty. Usar o blog para “botar a boca no mundo”, expressar insatisfações e partilhar experiências estressantes pode funcionar da mesma forma.

Flaherty, que estuda casos como a hipergrafia (desejo incontrolável de escrever) e também o bloqueio criativo, analisa modelos de doenças que explicam a motivação por trás dessa forma de comunicação. Por exemplo, as pessoas em estado de mania (pólo oposto à depressão, característico do transtorno bipolar) geralmente falam demais. “Acreditamos que algo no sistema límbico do cérebro fomente a necessidade de a pessoa se comunicar”, explica Flaherty. Localizada principalmente no centro do cérebro, essa área controla motivações e impulsos relacionados a comida, sexo, desejo e iniciativa para resolução de problemas. “Sabemos que há impulsos envolvidos na criação de blogs, pois muitas pessoas agem de forma compulsiva em relação a eles. Além disso, o hábito de mantê-los atualizados pode desencadear a liberação de dopamina, os estímulos são similares aos que temos quando escutamos música, corremos ou apreciamos uma obra de arte”, diz Flaherty.

4 comentários:

João Carlos disse...

E quem bloga sobre ciências?... Qual seria a motivação? (Que é viciante, eu não tenho dúvidas... Esse período de mudança para o SBB está me deixando louco! :P )

Osame Kinouchi disse...

João, dado que para certas pessoas, fazer pesquisa também vicia... parece que não há escapatória, não?

Mas achei curiosa a noticia, pois coloca esta questão perturbadora: pode-se estudar cientificamente as motivações que nos levaram a nos tornar blogueiros de ciência. Ou, no jargão reducionista: Isso "nada mais é" que liberação de dopamina, a mesma liberação envolvida no sexo e na religião, por sinal...

Sandra Goraieb disse...

Osame, achei curioso seu post. Sinceramente, eu desconfio um pouco de quem não dá a cara a tapa. Afinal se você tem uma opinião e acredita naquilo que divulga, é justo que ponha seu nome e sobrenome e reconheça méritos e equívocos (se estiver errado). Também acho que escrever vicia um pouco, ou talvez seja só consequência de uma disciplina que te obriga a refletir sobre o que você lê, estuda, faz e que acaba compartilhando com os outros simplesmente como reflexo disso tudo. Escrever implica em organizar as idéias de forma mais articulada. Pode ser só isso.
Abração!

Osame disse...

Sandra, acho que vc tá certa, mas eu coloquei o post para o pessoal reducionista que diz sempre: isso é apenas liberacao de dopamina ou oxitocino etc (onde o "isso" pode ser o carinho mae-filho, a apreciacao estética, uma experiencia de apaixonamento ou uma experiencia religiosa (as duas ultimas, no meu ver, sao quase indistinguiveis...). Assim, blogar e fazer ciencia também pode ser encarado como "isso é apenas" liberacao de hormonio ou neurotransmissor, mas talvez a melhor descricao seria "uma experiencia humana num nivel macroscopico mediada (realizada) pelas interacoes quimicas no nivel microscopico. Em outras palavras, um jogo sensacional de Kasparov é mediado e realizado pelos atomos das pecas do tabuleiro de xadrez, mas o jogo nao pode ser reduzido a isso (inclusive ele pode ser realizado virtualmente, por exemplo).