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sexta-feira, janeiro 11, 2008

O papa e a razão


Aparentemente ninguém ainda percebeu (ou quer reconhecer) que o discurso do Papa Ratzinger provém da mesma fonte que o discurso de Marcuse e Feyrabend, e de muito da filosofia francesa pós-guerra: o Romantismo Alemão, Nietzsche, o nazista Heidegger.
De um site biográfico: After finishing high school in 1942, he was drafted into the German army - an inconvenience according to Feyerabend, not a moral problem, because more than anything else he wanted to read. However, he also considered joining the SS, mainly for aesthetic reasons: "an SS man looked better and spoke better and walked better than ordinary mortals". For his service on the eastern front Feyerabend was awarded an Iron Cross, second class, in 1944.
(...) Although Feyerabend's agitative style did not even scratch the surface of academic etiquette, his anti-foundational mode of thought, arguments against rationality, and epistemological anarchism stimulated the postmodernist deconstruction of tradition. On the other hand, before becoming pope Cardinal Ratzinger mentioned in a talk Feyerabend in support of his views.
É interessante que, aqui no Brasil, Rubem Alves fez uma volta de 180 graus, da Teologia da Libertação para uma visão contracultural da ciência, ou seja, converteu-se essencialmente à mesma visão romântica do atual Papa...

Do Blog do Marcelo Coelho, Folha de São Paulo.

Continuo aqui os comentários sobre a nova encíclica do papa, que já foi assunto de posts anteriores.


Ratzinger afirma que a fé não se resume a uma questão de convicção individual. “Como é que se chegou”, pergunta, “a considerar o cristianismo como busca egoísta da salvação que se recusa a servir os outros”?


O erro, segundo Ratzinger, vem com a própria idade moderna. A descoberta da América e as novas conquistas da técnica inauguraram uma nova época na história humana. A encíclica elege como alvo as concepções de Francis Bacon (1561-1626), que confiava numa “vitória da arte sobre a natureza”, ou seja, numa nova correlação entre ciência e prática; a redenção não viria da fé, mas da possibilidade de se instaurar, neste mundo mesmo, “o reino do homem”.


Desse modo, diz Ratzinger, a fé passou a ser entendida como algo irrelevante para o mundo. “Esta visão programática determinou o caminho dos tempos modernos, e influencia inclusive a atual crise da fé que, concretamente, é sobretudo uma crise da esperança cristã.”


Progresso, razão, liberdade: são estes três conceitos que o papa considera necessário criticar, ou, pelo menos, reduzi-los a dimensões mais modestas. O leitor da encíclica pode ver com clareza que o estigma de “reacionário” e “conservador”, que se aplica freqüentemente ao papa, está longe de ser um mero clichê jornalístico.


Ratzinger combate a idéia de que razão e liberdade possam “garantir, por si mesmas, em virtude de sua intrínseca bondade, uma nova comunidade humana perfeita”. E recorre a dois exemplos fartamente conhecidos: a revolução francesa e a revolução russa, que visando a instituir uma comunidade perfeita produziram os assassinatos e os horrores que se conhece.


Sempre me pergunto, nessas ocasiões, por que sociedades desenvolvidas e livres, como Holanda ou Dinamarca, nunca são lembradas como experiências sociais bem-sucedidas dentro desse mesmo espírito de “modernidade” que o papa quer criticar... Dois países protestantes, aliás.


Para combater os ideais modernos de razão e liberdade, o papa utiliza um recurso bastante capcioso. O socialismo defendido por Marx não deu certo, diz Ratzinger, porque “o homem permanece sempre o homem”. Marx esqueceu “que a liberdade permanece sempre liberdade, inclusive para o mal. Pensava que, uma vez colocada em ordem a economia, tudo se arranjaria. O seu verdadeiro erro é o materialismo: de fato, o homem não é só o produto de condições econômicas nem se pode curá-lo apenas do exterior criando condições econômicas favoráveis.”


Acho que há formas mais convincentes de explicar o fracasso do sistema soviético, ou os horrores de Robespierre, por um excesso de confiança na razão e na liberdade... Se foram terríveis os crimes cometidos nesses períodos, eles o foram exatamente porque atentaram contra a razão e a liberdade humanas. E todo historiador sabe perfeitamente que, na Rússia de 1917, as condições econômicas eram tudo, menos “favoráveis” ao projeto que se queria implantar.


Por outro lado, como fica a “esperança” quando alguém afirma que o “homem permanece sempre o homem”? Ao contrário, vejo que, em condições materiais favoráveis, não é que todo mundo se torne santo –mas as possibilidades de se transformar num genocida ao estilo de Darfur tendem a diminuir. Em determinada sociedade, a maioria da população se entrega a festins de violência, racismo e intolerância. Em outra sociedade, o número de psicopatas decresce a uma minoria estatística. O materialismo, embora não explique tudo, ajuda muito.


Quanto à razão, Ratzinger admite que seja um grande dom de Deus à humanidade. Mas, pergunta, “a razão inteira reduz-se à razão do poder e do fazer?” Certamente, não. Mas o argumento de Ratzinger leva a identificar o domínio da razão com o domínio da ciência. Ninguém ignora que a ciência, sozinha, pode ter efeitos tão benéficos quanto devastadores. Cria remédios e bombas atômicas. Por isso mesmo, podemos falar em usos “racionais” e “irracionais” da tecnologia. Não é preciso abandonar o conceito de razão quando se quer criticar, por exemplo, o uso de armas químicas... Mas, para Ratzinger, armas químicas seriam um exemplo de um excessivo domínio da razão... Claro que, com esse estratagema, só a Fé se apresenta como remédio para nossos males.


“Não é a ciência que redime o homem”, prossegue o papa. “O homem é redimido pelo amor.” Mas não é preciso, a meu ver, jogar com uma alternativa tão radical e desbalanceada. Que tal se disséssemos: “Não é a ciência que redime o homem; o homem é redimido pela razão”? Não sei de horrores na história humana que não tiveram a razão entre suas primeiras vítimas. Sei de muitos horrores, entretanto, que tiveram a fé do seu lado. Mais respeito, por favor, com a razão –essa velha senhora é acusada de crimes que não cometeu.

3 comentários:

João Carlos disse...

Você sabe que eu sou religioso (não Católico - graças a Deus!...) e acredito na continuidade da existência além das 4 dimensões conhecidas... Mas esse Ratzinger só vem comprovar o que eu sempre repito: muitos céticos vão ter uma agradável surpresa do "outro lado"; a maioria dos "crentes", ao contrário...

Mas ele está passando recibo (com firma reconhecida) da falência do Cristianismo: “o homem permanece sempre o homem”, quer o Papa e Jesus gostem ou não... Então, porque ele não faz supositório do discurso obscurantista dele e desiste de se auto-proclamar "o único arauto da sabedoria divina"?

Antes de Bacon, a Igreja teve 1.600 anos para por "ordem na casa". E, em apenas 400 a "ciência" e a "razão" tinham que limpar as lambanças que a dita Igreja fez?...

"Modernidade" para ele é substituir as fogueiras da Inquisição pelos Campos de Extermínio das SS ("Suas Santidades"?...)

OK disse...

Cuidado, Joao, que todas as tradicoes, cientifica ou nao, tem os seus problemas. Como vc tambem deve saber, eu era da New Age (leitor de o Despertar dos Magicos, Planeta etc...). E sei, como vc sabe, da ligacao entre nazismo e ocultismo. Hitler nao era cristao, queria ser o avatar de um renascimento etnico que recuperasse as tradicoes germanicas pagãs e pre-cristãs, tipo O Anticristo de Nietzsche (ja leu este livro?). Provocação: os lideres das SS acreditavam em reencarnacao e carma... será que eles achavam que o Holocausto nao era um crime tao grande assim porque os judeus seriam apenas espiritos nao evoluidos e as SS seriam um instrumento da evolucao cosmica? PS: Ja notou como a SuperInteressante, cada vez mais New Age, vira e mexe faz reportagem sobre o Nazismo, tipo, falem mal mas falem de mim?

João Carlos disse...

Eu suspeito mais ainda, Osame, que Hitler confundia dois "arianismos" totalmente desconexos: o da "raça ariana" e a da "heresia ariana".

E muito provavelmente sua hipótese provocativa é correta: eles se achavam a "encarnação" dos Cavaleiros do Apocalipse que viriam lavar a ferro e fogo a "pureza ancestral" da humanidade. Qual "solução" mais adequada do que exterminar a "raça de Adão" (o "traidor" que nos expulsou do Paraíso)?

P.S: também tinha reparado nisso... Mas todo bom místico sabe que existe o "lado negro da força" (meu neto me fez assistir, esta semana, todos os seis episódios de "Star Wars" :) ). A "New Age" também tinha seu "lado negro" e, com ela, surgiram coisas como o neonazismo. Para quem quer faturar com a venda de revistas, nada melhor que um público cativo... Ou um propósito mais sinistro, ainda.