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quinta-feira, dezembro 31, 2009

Divulgando ciências cientificamente (6)


Espero que o título desta série esteja claro: avaliar a divulgação científica usando estudos de ciências sociais e argumentos baseados em evidências, em vez de apenas reciclar nossos preconceitos sobre o tema.

Um dos preconceitos mas renitentes é o "modelo de deficit" de conhecimento, que a esta altura do campeonato já deveria estar superado e aposentado, dada toda a discussão e refutação do mesmo realizadas durante a década de 90 e anos 00. Infelizmente, quase toda a literatura que Roberto e eu temos discutido neste debate se baseia no modelo de deficit. Mas se o modelo já foi refutado, qual o valor dessa literatura?

Para uma visão mais aprofundada da questão da popularização da ciência, eu começaria com este artigo, e o report a ele associado:

Public understanding of science: lessons from the UK experience

Jane Gregory

3 December 2001 | EN

This paper offers an analysis of trends in policy on the public understanding of science in the UK over the last 15 years. It traces the interaction of scientists, social scientists and the public in the move from early 'deficit model' conceptions of public understanding to current positions in which the public are seen as active participants in democratic and personal decisions about science. It argues that an early emphasis on a public in need of information and education and on the media as antagonistic to science was misplaced, and that it was instead the scientists who had much to learn about the media and the public.

quarta-feira, dezembro 30, 2009

Metáforas científicas


Mais uma referência para a bibliografia do paper sobre Metáforas Científicas:

Paper

Conceptual Metaphor Meets Conceptual Change
Tamer G. Amin

American University of Beirut, Beirut, Lebanon

Address of Corresponding Author

Human Development 2009;52:165-197 (DOI: 10.1159/000213891)


goto top of page Key Words

  • Concept of energy
  • Conceptual change
  • Conceptual metaphor
  • Language in cognitive development
  • Science education

goto top of page Abstract

This paper argues that the metaphorical representation of concepts and the appropriation of language-based construals can be hypothesized as additional sources of conceptual change alongside those previously proposed. Analyses of construals implicit in the lay and scientific use of the noun energy from the perspective of the theory of conceptual metaphor are summarized. The experientially grounded metaphorical construals identified in both uses help conceptualize the shift from the concrete, naïve to the abstract, scientific understanding of energy. The case of the concept of energy motivates the more general hypothesis that an important part of learning a highly abstract (even mathematical) concept is the appropriation of experientially grounded metaphorical construals implicit in scientific discourse. Pedagogical implications of this proposal are discussed.

Copyright © 2009 S. Karger AG, Basel

segunda-feira, dezembro 28, 2009

Divulgando ciências cientificamente (5)


Juntando material para o paper sobre ficção científica e divulgação científica:

J Med Ethics 2009;35:398-399 doi:10.1136/jme.2009.031252
  • Editorial

More than cautionary tales: the role of fiction in bioethics

  1. Sarah Chan

+Author Affiliations

  1. Institute for Science, Ethics and Innovation, University of Manchester, Manchester, UK
  1. Ms S Chan, Institute for Science, Ethics and Innovation, School of Law, Williamson Building, University of Manchester, Oxford Rd, Manchester M13 9PL, UK; sarah.chan@manchester.ac.uk
  • Accepted 22 May 2009

“Why should I struggle through hundreds of pages of fabrication to reach half a dozen very little truths? …Words are for truth. For facts. Not fiction.”—Conchis in The Magus, John Fowles.1

Is there a role for fiction in explorations of ethics? Are words, as Conchis says, only for truth, for facts? Or is it perhaps the case that words can be used to help us reach a deeper truth—through fiction? This month the Journal of Medical Ethics features a form of publication rarely found in the pages of scholarly journals: the first instalment of a fictional “bioethics soap opera” designed to offer a somewhat different exploration of the issues that are the subject of the journal’s usual offerings.

The subject matter of bioethical discussions often borders on the territory of speculative or science fiction. Human cloning, animal–human hybrids and genetic engineering have all found a place in fictional as well as bioethical literature. Similarly, creatures and concepts from science fiction populate bioethical debate, albeit sometimes as a form of metaphorical shorthand for an underlying argument. One such example is that of Frankenstein’s monster, often invoked to illustrate the dangers of “playing God”, the moral sin of humankind daring to reach beyond our natural limitations (as indicated, indeed, by the subtitle of the novel Frankenstein: a modern Prometheus)—a form of argument that still rears its head in bioethical commentaries almost 200 years later. Another is Aldous Huxley’s Brave new world, a “cautionary tale” about human cloning, seemingly cited in perpetuity whenever the cloning debate arises.2 But is there more to this relationship than metaphor?

The usefulness of fiction and imagination in bioethical discourse is evident when one considers that hypothetical scenarios, thought experiments and case studies are also a form of fiction.


domingo, dezembro 27, 2009

Divulgando ciências cientificamente (4)


Como eu disse no post anterior, acredito que o pomo da discórdia desta série de n-réplicas entre o Gene Repórter e o SEMCIÊNCIA é a relação entre entretenimento e divulgação científica. Em vez de ficar repetindo argumentos, vou trazer primeiro uma reflexão sobre brincadeira, aprendizado e entretenimento, e em seguida uma análise simples de um veículo popular de Divulgação Científica que poderia ser (muito) incrementado.

Antes disso, também um disclaimer: eu não disse que Roberto Takata disse que "99% da Ficção Científica é lixo". Esta foi apenas uma referência à Lei de Sturgeon:

“Ninety percent of everything is crud”

The first written reference to this appears in the March 1958 issue of Venture, where Sturgeon wrote: “I repeat Sturgeon’s Revelation, which was wrung out of me after twenty years of wearying defense of science fiction against attacks of people who used the worst examples of the field for ammunition, and whose conclusion was that ninety percent of SF is crud”. [1] Using the same standards that categorize 90% of science fiction as trash, crud, or crap, it can be argued that 90% of film, literature, consumer goods, etc. are crap. In other words, the claim (or fact) that 90% of science fiction is crap is ultimately uninformative, because science fiction conforms to the same trends of quality as all other art forms do.

According to Philip Klass (William Tenn), Sturgeon made this remark in about 1951, at a talk at NYU at which Tenn was present. [4]. The term was subsequently popularized at a session of the World Science Fiction Convention in Philadelphia, held over the Labor Day weekend of 1953.[5][6]

This formulation of Sturgeon’s Law may be regarded as an instance of the Pareto principle.


Bom, acho que a lei de Sturgeon refuta qualquer argumentação puntual de Takata, ou seja, citar algum filme ou livro como exemplo de FC deseducativa. O que temos que pensar é em termos amplos, sociológicos, estatísticos. Foi por isso que eu propus aquela experiência de pensamento: "Elimine toda a FC do século XX e começo do XIX e estime as consequências para para a a compreensão pública e a educação científica. Estaríamos melhor ou pior?"


É claro que se Takata responder: "OK, mas se você eliminar os 90% de FC lixo, a compreensão pública da ciência estaria melhor". Eu concordo inteiramente, mas isso é uma conclusão trivial, não é mesmo?


O ponto é que Takata e eu estamos discutindo sobre níveis diferentes de compreensão científica: ele está preocupado com a compreensão sobre o que é exatamente um gene ou um clone, segundo a melhor compreensão dos biólogos. Eu estou preocupado com um conhecimento "anterior", "vocabular", proto-conceitual: ou seja, primeiro o público precisa saber que existem coisas chamadas "gene" e "clone" e ter uma idéia mínima (e portanto necessariamente não acurada) à que se referem.


Para atingir esse objetivo, a novela "O Clone" foi o suficiente. Ou seja, uma pessoa que assistiu à novela, e que nunca tinha ouvido falar em clone (afinal, ela não é leitora de FC e não teria aproveitado o ótimo Terra Imperial de Arthur C. Clark, sugerido pelo Portal de Ensino de Ciências do IF-USP e onde as questões éticas da clonagem humana são tratadas de forma profunda em plena década de 70), poderá ser atraía agora por uma reportagem de jornal, uma revista ou um documentário de DV, porque tem a mínima informação sobre o que se trata: a pessoa saberia que é um tema de biologia e não de física, tema ver com genes e DNA (outras palavras popularizadas na novela), relacionado à produção de "cópias de organismos" - o que não é verdade mas é uma primeira aproximação - e tudo em ciência parte de primeiras aproximações...


Ou seja, segundo a tese de Takata, a novela "O Clone" fez um malefício à educação científica brasileira e à popularização da ciência. Segundo minha avaliação, fez um benefício, por chamar a atenção para um assunto novo, por disseminar de forma aproximada porém em amplas camadas da população um primeiro jargão biológico (DNA, genes, clones) necessário para que as pessoas possam pelo menos conversar ou se interessar sobre o assunto. A prova de que essa difusão científica ocorreu é o fato de que o termo foi absorvido pela linguagem cotidiana, por exemplo, quando falamos em "clonar cartão de crédito".


Então eu posso propor um experimento de pensamento mais limitado para ser executado:

Eliminemos a novela "O Clone" da história da TV brasileira. Isso teria sido benéfico, indiferente ou detrimental para a compreensão científica da população?

sábado, dezembro 26, 2009

Divulgação Científica e Música

By Pallab Ghosh
Science correspondent, BBC News

Superconducting magnet at Large Hadron Collider (Cern/M. Brice)
The Large Hadron Collider will have a song dedicated to it.

The official choir of the European Organization for Nuclear Research (better known by its French acronym Cern) is to record a song dedicated to the Large Hadron Collider (LHC).

The LHC is the vast physics experiment built in a 27km-long underground tunnel, which runs in a circle under the French-Swiss border.

The ditty written by clinical psychologist Danuta Orlowska has been set to the tune of the Hippopotamus song by Flanders and Swann and its chorus celebrates the Higgs boson - a sub-atomic particle that the LHC is designed to detect:

"Higgs, Higgs glorious Higgs," the tune goes, "the theory told them these thingamijigs, were so fundamental."

But this isn't Cern's first ode to particle physics. Staff members once wrote a rap song that was praised for its scientific accuracy - if little else.

"You see particles flying, in jets they spray. But you notice there ain't nothin', goin' the other way," they rap.

"You say: 'My law has just been violated - it don't make sense! There's gotta be another particle to make this balance'."

Buzz Aldrin, the second man to set foot on the Moon, also released a rap song this year.

"Rocket Experience", recorded with some help from rap artist Snoop Dogg, commemorated the 40th anniversary of the first manned mission to land on the Moon.

Crash landing?

In it, Buzz intones, "I am the space man", adding: "It's time to venture far, let's take a trip to Mars. Our destiny is to the stars."

The song was intended to convey the excitement of the Apollo era to a younger generation. But Andrew Harrison, associate editor of music magazine Word, is doubtful:

"I don't think we can call that a giant leap for hip-hop," he told BBC News. But he understands why Buzz and others turn to music in an attempt to convey the wonder of science.

"Scientists can feel a little unappreciated, in that there's this incredible stuff that they're discovering that is difficult to bring to popular attention. But what it does prove is that music is difficult," says Mr Harrison.

There are even songs dedicated to palaeontological discoveries. Jonathan Mann wrote a song about the discovery of a 4.4 million-year-old human-like creature called Ardipithecus ramidus, which might be a human ancestor.

The chorus goes: "Oh! Ardipithecus ramidus, Ardipithecus ramidus, She's related to all of us!"

Scientists are not just using music to inform the public, but also - in time-honoured fashion - to campaign.

'Don't take our dish'

The tune "Don't go messing with our Telescope" was released last year by The Astronomers to fight the closure of the famous Jodrell Bank Telescope in Cheshire, UK.

"And every day we live in hope, don't go messing with our telescope, don't take our dish, you'll leave a black hole," the verse implores.

A composition in an advert by Bio-Rad Laboratories set what was regarded as a high water mark in science music.

The video features a well-produced parody of "We are the World" with cameos from Willy Nelson, Bob Dylan and Bee Gees sound-alikes.

It is dedicated to a technique - called polymerase chain reaction (PCR) - which enables researchers to make millions of copies of short sequences of genetic material.

It has transformed molecular biology. So, argue the scientists, why not celebrate science with the same gusto as one might celebrate sport in a football song?

"PCR when you need to detect mutation (detect mutation), PCR when you need to recombine (recombine), PCR when you need to find out who the daddy is (who's your daddy?), PCR when you need to solve a crime (solve a crime)," goes the refrain.

Divulgando ciências cientificamente (3)


Pois é, acho que esqueci de mandar um neutro "Boas Festas" para todos os meus amigos religiosos, semi-religiosos e não-religiosos, mas envio hoje aqui, junto com um Feliz Ano Novo!

A cada dia que passa eu fico sinceramente admirado com a paciência, a lógica e o tempo livre do Takata (por falar nisso, Roberto, eu sei que sou velhinho mas você pode me chamar simplesmente de Osame, não precisa escrever "prof. Kinouchi", OK?). Ele compilou toda a nossa discussão e os comentários recebido em uma única página, que pode ser acessada aqui.

Uma questão que me surgiu é se esse debate sobre a relação entre mídias de entretenimento e divulgação científica já ocorreu entre o pessoal mais escolado em Divulgação/difusão Científica (DC) em nosso país, ou seja, nos diversos encontros e livros publicados sobre a área. Imagino que o Roberto vai descobri um simpósio sobre o tema com uma ou duas Googladas...

Em todo caso, acho que com o desenrolar dos debates e comentários dos outros participantes (Tatiane Nahas, Lacy Barca) as coisas ficaram mais claras. Pelo que entendi, Roberto defende que:

1. Mídias propriamente educativas possuem maior qualidade educacional do que mídias de entretenimento: um documentário da BBC sobre buracos negros é ordens de magnitude mais correto do que o recente filme Star Trek (no que tange a buracos negros, claro!).

2. Nesse sentido, não faz sentido propor que mídias de entretenimento constituam uma etapa anterior necessária no processo de DV: game especificamente educativo pode, Spore não pode; livro de DV pode, de FC não pode; documentário pode, blockbuster não pode; "Cosmos" de Carl Sagan pode, "The Big Bang Theory" não pode. Ou seja, acho que a tese do Roberto seria a de que mídias de entretenimento não são ambientes adequados para o processo de DC.

3. Na discussão, com a participação de Tati e Lacy, ficou mais claro de que estamos discutindo três pólos, e não dois: Educação, Arte e Entretenimento. Neste post, não discutirei a questão da Arte enquanto mídia (A literatura de Borges contribui para a DV? A "Arte Fractal" contribui para a DV? O papel do Teatro, da Poesia ou da Fotografia na DV?) e nem mesmo a questão da arte popular (Literatura de Cordel e DV?) mas sim o caso mais espinhoso dos objetos culturais da indústria de entretenimento e a DV. Pois acho que é em relação a isso que Roberto quer aplicar sua tese de que "Melhor divulgação/difusão nenhuma do que divulgação/difusão errada!", pois conceitos erroneamente aprendidos seriam de difícil desaprendizagem e competem com a educação escolar ainda me parece por demais radical.

Vou insistir no debate porque pretendo fazer um grande agradecimento ao Roberto Takata (e os outros comentaristas) no artigo que estou escrevendo sobre Linguagem cotidiana e metáforas científicas.

Acho que uma frase ambígua minha foi o motivo principal com que Roberto "encalacrou":

Mas chamo a atenção que a frase "divulgação/difusão ruim é pior do que divulgação/difusão alguma" não se refere a isso. Ela se refere à proposta de usar esses produtos culturais como forma de divulgação/difusão per se: "Música, mangás, humor, stand-up comedy são mídias populares entre os jovens que recebem pouca (nenhuma?) atenção em termos de torná-las mídias de divulgação científica. Talvez o campo da DV sofra da doença de textolatria, talvez por causa de nossa papirolatria como cientistas. No máximo, usamos formatos de alta-cultura tipo museus e exposições de fotografia científica", "é um trabalho anterior necessário ao ato de divulgação e educação científica (que correspondem a outros momentos de um processo)." (aqui, negritos meus).

O uso pedagógico de filmes é o próprio ato de educação científica. Se se vai exibir filmes em sala não há uma necessidade exposição anterior deles.

Aliás, dado psicológico que se constata nos estudos que citei nas postagens anteriores: professores não devem exibir os filmes - especialmente os ruins - para comentar depois, vai ter mais trabalho... Devem apresentar a aula antes, enfatizar as armadilhas e depois exibir os filmes, fazendo os alunos buscarem os erros. Podem ainda intercalar trechos - com comentários imediatos (e ainda assim é arriscado).

Note-se que há uma diferença entre usar filmes como recursos didáticos - como contraexemplos, digamos - e produzir tais filmes (ou outros produtos culturais) como uma estratégia de difusão/divulgação.

Fazer limonada dado que lhes atiraram limões é diferente de provocar guerras de limões para ter suco depois.

Acho que Roberto não gostou da frase grifada em vermelho, em especial às palavras "trabalho anterior necessário". Para ele, o trabalho que proponho (aumentar a qualidade das informações científicas difundidas dentro dos objetos de entretenimento, sejam filmes, sit-coms, desenhos animados, mangás ou games) não seria nem anterior nem necessário.

Acho que o Roberto está certo nisso (em termos estritos de lógica Aristotélica). Acho que tenho que fazer um "mea culpa" por usar tal frase retórica. O que eu quis dizer, em termos mais explícitos, é:
  • As crianças entram em contato com tais objetos da indústria de entretenimento de forma "anterior" à educação científica formal. O mesmo pode se dizer para a maior parte dos adultos. Ou seja, o primeiro contato que as pessoas têm com a ciência é via a industria cultural e não via a mídia educativa ou a educação formal.
  • Sendo assim, o processo de contato com conceitos científicos se passa segundo as etapas de absorção no Ambiente Cultural (AC), depois Divulgação Científica (DC) e talvez Educação Científica (EC), de forma descritiva, sem julgamento de valor, e não de forma prescritiva-normativa, ou seja, eu descrevo o que acontece e não o que deveria acontecer). Foi a sequência AC -> DC -> EC que eu chamei de etapas de um processo.
Então, a minha tese pode ser resumida assim: tanto a etapa EC como a etapa DC têm sido estudadas e trabalhos importantes têm sido implementados. Mas existe uma oportunidade praticamente inexplorada de educadores e divulgadores de intervirem na etapa AC (por exemplo, como consultores, quem sabe, e talvez como produtores) e essa intervenção seria um "trabalho anterior" (no sentido de que AC é anterior à DC) e "necessário" (não como necessidade lógica, mas como necessidade prática, dado que grande parcela da população só tem acesso à AC e não à DC ou EC).

Ou seja, o que eu quis destacar é que existe um nicho, uma oportunidade. Takata diz que tal nicho não deveria ser explorado porque o resultado final seria deseducativo. Meu argumento principal é um experimento de pensamento (gedanken experiment) contrafctual:

Dado que 99% da Ficção Científica é lixo, vamos rodar de novo o tape da história do século XX (fazendo uma simulação) e eliminar completamente a FC da indústria cultural. Na sua opinião, isso teria produzido uma população mais educada cientificamente ou menos educada? A má difusão de conceitos científicos realmente é pior que difusão nenhuma?
PS: Acho que isso poderia ser pesquisado de forma mais objetiva entrevistando-se cientistas atuantes e perguntando qual o papel que a FC teve (se teve algum) na sua vocação e formação científica. Eu acredito que, para muitos, o esquema FC -> DC -> EC irá se manifestar, ou seja, a FC atuou como mediador anterior ao processo de divulgação/educação científica.

quinta-feira, dezembro 24, 2009

Meu comentário sobre as previsões do Rainha Vermelha para gripe suína



Ótimas previsões. Precisariamos agora considerar se a concentração populacional (na 25 de março e no metro, por exemplo) e os transportes aéreos, não conhecidos em 1918, poderiam compensar a questão da I Guerra e da falta de antibióticos.

Afinal, se a causa de morte principal é pneumonia viral (e não pneumonia bacteriana), então antibióticos são inúteis. Além disso, a gripe de 1918 matou no mundo todo, enquanto que o conflito basicamente se deu na Europa.

Assim, enquanto possibilidade teórica, imagino que uma onda de gripe suína mutante com letalidade de 1% não seja tão implausível assim. A questão seria: em um mundo hipertecnológico e interconectado como o nosso, qual seria o impacto social e econômico de uma gripe com letalidade de 1% ? Em especial, qual seria o impacto sobre o sistema de saúde brasileiro?

Acho que isso seria um bom trabalho para estatísticos (esses parentes "sérios" dos astrólogos e advinhos...)
PS: Você conhece alguma teoria sobre por que um aumento de letalidade poderia ser bom para a disseminação de um vírus? Será que o aumento da letalidade é apenas um epifenomeno de um aumento do período de transmissão T (ou seja, uma pessoa em um estado mais grave transmitiria o virus por mais tempo), e é o parâmetro T que seria maximizado durante subsequentes ondas epidêmicas?

Uma coisa interessante daquele estudo recente dos chineses é que T pode durar até 17 dias [não sei se transmissão equivale a deteção por teste de RT-PCR, mas arrisco aqui, me corrijam por favor], ou seja, a variância é grande. Será que existe correlação positiva entre T e a gravidade da infecção nos pulmões?


ABSTRACT

Background The first case of 2009 pandemic influenza A (H1N1) virus infection in China was documented on May 10. Subsequently, persons with suspected cases of infection and contacts of those with suspected infection were tested. Persons in whom infection was confirmed were hospitalized and quarantined, and some of them were closely observed for the purpose of investigating the nature and duration of the disease.

Methods During May and June 2009, we observed 426 persons infected with the 2009 pandemic influenza A (H1N1) virus who were quarantined in 61 hospitals in 20 provinces. Real-time reverse-transcriptase–polymerase-chain-reaction (RT-PCR) testing was used to confirm infection, the clinical features of the disease were closely monitored, and 254 patients were treated with oseltamivir within 48 hours after the onset of disease.

Results The mean age of the 426 patients was 23.4 years, and 53.8% were male. The diagnosis was made at ports of entry (in 32.9% of the patients), during quarantine (20.2%), and in the hospital (46.9%). The median incubation period of the virus was 2 days (range, 1 to 7). The most common symptoms were fever (in 67.4% of the patients) and cough (69.5%). The incidence of diarrhea was 2.8%, and the incidence of nausea and vomiting was 1.9%. Lymphopenia, which was common in both adults (68.1%) and children (92.3%), typically occurred on day 2 (range, 1 to 3) and resolved by day 7 (range, 6 to 9). Hypokalemia was observed in 25.4% of the patients. Duration of fever was typically 3 days (range, 1 to 11). The median length of time during which patients had positive real-time RT-PCR test results was 6 days (range, 1 to 17). Independent risk factors for prolonged real-time RT-PCR positivity included an age of less than 14 years, male sex, and a delay from the onset of symptoms to treatment with oseltamivir of more than 48 hours.

Conclusions Surveillance of the 2009 H1N1 virus in China shows that the majority of those infected have a mild illness. The typical period during which the virus can be detected with the use of real-time RT-PCR is 6 days (whether or not fever is present). The duration of infection may be shortened if oseltamivir is administered.

Divulgando ciências cientificamente (2)


Realmente não sei se depois da tréplica vem a quadréplica (suponho que não). Mas continuemos porque a discussão está muito interessante e na verdade é vital (afinal, FC para mim é vital...).

Roberto Takata faz algumas afimações em sua tréplica que concordo inteiramente (porque acho que são triviais):

1. Mídias de divertimento (em contraposição à mídias educativas) como filmes de ficção científica influenciam a percepção pública da ciência.
2. Em termos de ciência factual, existem filmes mais acurados (como "Contato", baseado no livro homônimo de Carl Sagan) e menos acurados (como The Core - Missão ao Centro da Terra).
3. Filmes menos acurados tem impacto educativo negativo comparado com filmes mais acurados.
4. Séries de DV como Cosmos ou Jaques Custeau são mais acuradas cientificamente do que filmes de entretenimento.

Dados esses pontos de partida, porém, me parece que Takata pretende defender as seguintes conclusões que acredito serem um non sequitor dos itens 1-4 (espero que ele me corrija se não for o caso):

A. Professores e divulgadores de ciência não deveriam usar filmes de ficção científica para a difusão científica acurada, seja como exemplos positivos de informação, seja como ganchos de interesse (por exemplo, uma aula de geociências onde se apresenta The Core e pede-se aos alunos para fazer uma crítica científica do filme).
B. Mídias como músicas, quadrinhos, games, stand-up comedy e séries de TV não poderiam ou deveriam ser usadas (com a devida habilidade, claro!) em tarefas como divulgação científica.
C. Crenças pseudocientíficas não podem ser usados como ganchos de divulgação científica.

Já dei um bom exemplo do item A no post anterior, mas Roberto não respondeu ao mesmo.

Exemplo do item B: prefiro, por razões educativas, dar aos meus filhos o game Spore do que games de ação ou violência, embora Spore não seja biologicamente correto e mesmo possa ser classificado por Takata de ser um game que dissemina a idéia de Desígnio Inteligente (por falar nisso, o filme 2001-Uma Odisséia no Espaço também dissemina o DI!).

Exemplo do item C: Nas minhas aulas do curso de Mecânica Clássica, quando chega o momento de calcular o campo gravitacional dentro de uma esfera, eu discuto também o caso da casca esférica dado que os resultados são muito interessantes (assim como no caso da Eletrostática, o campo é nulo sempre dentro de uma esfera oca).

Para motivar o exemplo (afinal, na cabeça de alunos do segundo ano de física, para que serve uma casca oca gravitacional?), eu discuto inicialmente uns dez minutos sobre a Teoria da Terra Oca, e como acreditar na mesma equivale a afirmar que a Teoria da Gravitação de Newton faz predições erradas neste caso: ou seja, você tem que escolher entre uma ou outra, não dá para acreditar nas duas ao mesmo tempo.

Já faz uns dez anos que uso esse exemplo em sala de aula, e me parece que funciona otimamente: os alunos ficam hiper interessados na aula, motivados e compreendem de forma mais profunda as implicações da teoria da gravitação. Afinal de contas, ela implica que a teoria conspiratória de que os OVNIs são naves nazistas originadas nas sete cidades de Agharta, situadas dentro da Terra Oca, e que estão preparando o retorno vitorioso do IV Reich, é puro papo furado de internet (ou melhor, crenças com agendas políticas obscuras, mas vá lá).

Se isso não é um bom uso de uma crença pseudocientífica como gancho para motivar a educação científica, então eu não sei o que mais pode ser. Ou seja, aceitar os argumentos de Takata implica em eu ter que parar de dar essa aula, e eu não vou fazer isso a menos que Roberto realmente me dê bons motivos (ele não me deu nenhum até agora).



Ou seja, talvez Roberto tenha entendido que eu aprove ou estimule a difusão das conceitos científicos errados ou pseudociências como forma preambular de divulgação científica. Não é isso o que eu disse, mas sim que, dado que essas crenças já existem em nosso ambiente cultural, elas constituem um bom gancho para abrir discussões e fazer divulgação científica. Ou seja, as pessoas já ouviram tais palavras (como "Teoria do Caos" no filme Parque dos Dinossauros), e podemos usar essa pop culture para aprofundar o assunto.

Se não me engano, é o que a maior parte dos blogueiros de ciência fazem, quando pegam um conceito científico equivocado (por exemplo, que a Evolução biológica depende fundamentalmente de eventos ao acaso) e o re-explicam de forma mais acurada (Takata fez isso recentemente de maneira explendida aqui).

Um exemplo final: ainda falta um bom filme ou best-seller chamado Entropy (que não seja este aqui) para que o conceito de entropia possa ser discutido entre jornalistas e formadores de opinião ambientalistas. Mesmos que eles saibam que o principal problema da economia não sustentável é o grande aumento de entropia (e não o "gasto de energia"), a palavra não existe no vocabulário conceitual dos público a quem eles poderia se dirigir. O conceito de entropia ainda não sofreu a mesma difusão científica que o conceito de energia.

PS: Apenas como esclarecimento, acho que a discussão aqui não é sobre a diferença entre o campo da Arte e do Entretenimento e o campo das Ciências de da Popularização da Ciência (Entretenimento Científico?). Claramente as linguagens e propósitos de cada campo são diferentes. A questão que estamos discutindo é se é possível ou conveniente exadaptar objetos de entretenimento para o campo da difusão científica e a melhor forma de fazer isso.